“Não Havia Um Único Segurança na Rotunda do Capitólio”

Um repórter político com muitos anos de experiência assiste a um rito cerimonial democrático transformar-se num episódio de violência.

Publicado 11/01/2021, 16:36 WET
Um corredor no Capitólio dos EUA barricado com móveis depois de manifestantes num comício de Trump ...

Um corredor no Capitólio dos EUA barricado com móveis depois de manifestantes num comício de Trump terem entrado no perímetro e invadido o edifício consagrado, interrompendo a contagem dos votos eleitorais.

Fotografia de Victor J. Blue, Bloomberg/Getty Images

Pouco antes da uma hora da tarde de quarta-feira, dia 6 de janeiro de 2021, o vice-presidente Mike Pence liderava uma procissão silenciosa de 100 senadores dos EUA pela Rotunda do Capitólio dos EUA em direção à Câmara dos Representantes. Todos os homens e mulheres daquele corpo de elite usavam máscaras e os seus passos ecoavam pelos corredores de mármore. Foi o cumprimento cerimonial de um rito no nosso sistema democrático: a contagem oficial dos votos eleitorais para formalizar a eleição de novembro do presidente dos EUA. Normalmente, este processo é apenas uma formalidade destinada a passar despercebida. Apesar das objeções ao processo que os republicanos já demonstravam há dias, havia todos os motivos para acreditar que as tradições iriam decorrer normalmente – exceto por algo que eu tinha ouvido alguns minutos antes, enquanto estava na cafetaria subterrânea do Capitólio.

O que eu ouvi, vindo do walkie-talkie de um polícia do Capitólio, foi que um “dispositivo parecido com uma bomba” tinha sido descoberto a alguns quarteirões de distância, perto da sede do Comité Nacional Republicano. Quando ouviram esta informação, três polícias saíram a correr. Eu saí imediatamente a seguir. Foi quando percebi que as tradições não iriam decorrer normalmente.

Uma multidão de manifestantes força a entrada no Capitólio, exibindo bandeiras eleitorais de Trump e chapéus vermelhos que se tornaram no símbolo de apoio ao presidente.

Fotografia de Win McNamee, Getty Images

Depois de observar o vice-presidente e os senadores a entrarem nas galerias da Câmara, decidi ver se havia problemas noutros lugares do Capitólio. Devido à pandemia e à presença do vice-presidente, só os funcionários e meios de comunicação autorizados tinham permissão para entrar no edifício. Não havia um único segurança colocado na Rotunda do Capitólio. Enquanto eu subia as escadas para o primeiro andar, um polícia do Capitólio passou por mim a correr na direção oposta. Parecia que ele nem sequer tinha reparado na minha presença, e interroguei-me sobre o que ele estaria a pensar.

Na saída para o terraço oeste, meia dúzia de polícias irromperam pelo edifício. Os seus rostos estavam vermelhos e os olhos inchados. Estavam à procura de água para limpar o gás pimenta. Um dos agentes chamou um médico. Outro correu pelo corredor, bateu na porta da casa de banho das mulheres e cambaleou lá para dentro. Dois funcionários vasculharam um armário, encontraram alguns baldes e começaram a enchê-los com água. Carreguei os baldes até um polícia, que os agarrou, e regressei para o exterior do edifício, onde dois polícias se tinham refugiado da multidão e procuravam ajuda médica.

Um jovem polícia encostou-se a uma parede com dificuldade em respirar e abriu um saco de alumínio para tirar uma máscara de gás. Perguntei-lhe se tinham atacado os manifestantes com gás.

“Não”, respondeu ele de forma ofegante. “Eles é que nos estão a atacar com gás.”

Esquerda: Funcionários do Congresso levantam as mãos enquanto a Polícia do Capitólio verifica todas as pessoas na sala, protegendo o Capitólio depois de o edifício ter sido invadido por apoiantes de Trump.
Direita: Para se protegerem da multidão que invadia o Capitólio, os funcionários usaram mobiliário de escritório para criar barricadas improvisadas.

Fotografia de OLIVIER DOULIERY, AFP/GETTY IMAGES

A multidão no exterior estava a ficar cada vez mais ruidosa e as forças policiais, claramente em menor número, estavam a ficar visivelmente ansiosas. As saídas do  Capitólio foram encerradas. Entrei no longo túnel que dá acesso ao edifício de escritórios da Câmara dos Representantes, apenas para descobrir que as instalações tinham sido evacuadas. Dezenas de funcionários nervosos amontoavam-se nos corredores. Alguns repórteres estrangeiros estavam a entrevistá-los. Um dos agentes disse que a única forma de sair de todo o complexo do Capitólio era pela garagem subterrânea do Edifício de Escritórios Rayburn House.

O ar estava gelado e carregado de algo que eu já tinha sentido antes – na Somália, Afeganistão, Iraque, Iémen e na República Democrática do Congo – mas nunca na América. As sirenes soavam e, ocasionalmente, ouvia-se o som de tiros. Milhares de pessoas em torno do Capitólio – a maioria sem máscara – por vezes gritavam EUA! EUA! Mas o ruído mais persistente era o de um clamor desordenado e visceral. Uma hora antes, no Capitólio, tinha ouvido agentes a dizerem que a Constitution Avenue estava fechada. Mas isso não era verdade. Os manifestantes vagueavam livremente por onde queriam. A polícia corria por todo o lado, embora sem um objetivo tático óbvio. Meia dúzia de agentes estavam alinhados ao longo da escadaria do Supremo Tribunal. Alguns mandaram parar um carro, rodearam-no e exigiram ao motorista que saísse. “Você escolheu o dia errado para isto, amigo”, disse um dos polícias. (Um dia histórico em imagens: de uma insurreição pró-Trump à vitória de Biden selada antes do amanhecer.)

Polícias do Capitólio limpam os olhos após terem sido expostos a gás pimenta.

Fotografia de Tom Williams, CQ-Roll Call/Getty Images

Alguns dos manifestantes – a grande maioria – pareciam estar ali pela camaradagem e para demonstrarem o seu apoio ao presidente derrotado. Observei alguns manifestantes a reunirem-se perto de hotéis, facilmente identificáveis pelos seus chapéus vermelhos. Pareciam gostar de falar e por vezes eram exagerados, mas na maioria das vezes não eram pessoas ameaçadoras, pareciam ser as pessoas com quem conversei nos comícios de campanha ao longo dos anos.

Mas também havia muitas outras pessoas – geralmente homens jovens e barbudos – com ambições mais hostis. Estes individuos tinham equipamento de combate e  enormes mochilas camufladas, e moviam-se em pequenos grupos com intencionalidade, como se tivessem um plano. Parecia que iríamos ler sobre eles mais tarde.

Havia um terceiro grupo, talvez mais perturbador, porque parecia o tipo de pessoas que encontramos na caixa de supermercado ou num jogo de futebol – pessoas que normalmente não têm propensão para a violência. Uma destas pessoas era um homem na casa dos cinquenta anos, vestido com um fato vermelho, que dava indicações em voz alta e trémula a dois adolescentes que pareciam ser os seus filhos: “A liberdade não é de graça. Por vezes temos de lutar por ela como os nossos antepassados fizeram. Acho que hoje é esse dia.”

Apoiantes de Trump no escritório de Nancy Pelosi, a presidente da Câmara dos Representantes.

Fotografia de Saul Loeb, AFP/Getty Images

Esquerda: Nos átrios e corredores do Capitólio, alguns apoiantes de Trump vaguearam livremente e estavam boquiabertos como se fossem turistas, mas outros invadiram e vandalizaram escritórios.
Direita: Apoiantes de Trump detidos pela Polícia do Capitólio.

Fotografia de SAUL LOEB, GETTY IMAGES (ESQUERDA) E STEFANI REYNOLDS, BLOOMBERG / GETTY IMAGES (DIREITA)

Cerca de meia hora depois de eu ter ouvido estas palavras, a multidão irrompeu pelo Capitólio, invadindo sem obstáculos o plenário do Senado. Os membros da Câmara e do Senado foram escoltados para locais não revelados. A presidente da câmara de Washington, Muriel Bowser, anunciou um recolher obrigatório para toda a cidade com início às seis da tarde.

Na minha viagem de táxi para casa, um amigo meu de Itália enviou-me uma mensagem: “Não acredito que isto pode acontecer na América!!!” Quando publiquei esta mesma mensagem no Twitter, recebi respostas semelhantes da Suíça, Holanda e Luxemburgo. O mundo assistia horrorizado enquanto a democracia americana era atacada por dentro.

Não é inédito testemunharmos violência na capital dos EUA. Os britânicos arrasaram grande parte da cidade em 1814. Vinte e cinco anos depois, uma multidão de linchamento composta por brancos dominou a cidade durante dias, no que viria a ficar conhecido por Snow Riot (nome do proprietário negro do restaurante que se tornou no foco da violência). Outra pilhagem feita por homens brancos nas comunidades negras mais pobres aconteceu no sudoeste de Washington em 1919. Após o assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968, vários bairros de maioria negra foram pilhados. (Capitólio dos EUA: Uma história turbulenta de atentados, tentativas de assassinato e violência.)

Esquerda: Soldados da Guarda Nacional na estação de metro que liga o Capitólio aos edifícios de escritórios do Senado.
Direita: Funcionários do Congresso usam um sofá para bloquear uma porta.

Fotografia de CAROLINE BREHMAN, CQ ROLL CALL / AP (ESQUERDA) E OLVIER DOLIERY, AFP / GETTY IMAGES (DIREITA)

Ainda assim, existe um significado especial quando cidadãos americanos sitiam o edifício consagrado onde os seus representantes eleitos se reúnem para agir em nome da nação. É um espetáculo impressionante que normalmente se associa mais a ditaduras do que a democracias. O facto de o governo venezuelano (talvez com uma sinceridade fingida) ter publicado no Twitter as suas simpatias pela nossa capital em crise é um doloroso lembrete de que o excecionalismo americano só existe quando os nossos ideais são acompanhados por um comportamento civil excecional.

Washington é uma cidade americana profundamente imperfeita. É uma cidade dividida pela desigualdade racial, pela gentrificação desenfreada e por uma disparidade crescente a nível salarial. Mas também é uma cidade com uma classe média próspera, bairros de caráter distinto e comunidades preocupadas que não têm receio de expressar os seus descontentamentos. A cidade é tudo isto, ao mesmo tempo que absorve zelosamente novos ecossistemas de governação a cada quatro anos. Eu fiz parte da irritante legião de texanos que se mudou para Washington quando George W. Bush o fez, para escrever um livro sobre a sua presidência. Eu não esperava ficar por aqui. E certamente não esperava desenvolver qualquer afeto pelo que é normalmente caricaturado como uma aldeia de políticos rígidos e demasiado educados. Com o passar do tempo, Washington e eu acabámos por nos conhecer. Sendo do Texas, estou habituado a viver num lugar que se gaba incessantemente de si próprio. Mas Washington não precisa de o fazer. Por mais degradada que a cidade seja, também é essencial. É algo que representa tudo o que é nosso.

Uma bandeira “Não Me Pisem” entre as janelas partidas do edifício do Capitólio.

Fotografia de John Minchillo, AP

Enquanto a multidão avançava em direção ao Capitólio, eu já estava na Constitution Avenue, surpreendido e murmurando comigo próprio. Mais tarde, quando vi as imagens do que aconteceu, tive dificuldades em assumir uma espécie de distanciamento antropológico à medida que os manifestantes invadiam ruidosamente os corredores que há pouco mais de uma horas estavam completamente silenciosos. A multidão escalou o Statuary Hall, um glorioso feito arquitetónico de simetria e perfeição acústica, de mármore e bronze, banhado por uma luz natural. Alguns dos manifestantes pareciam abrandar num momento de admiração. Provavelmente nunca tinham visitado aquele espaço lendário. Não havia polícias à vista. Em vez disso, a multidão estava rodeada por estátuas de rostos sombrios de estadistas americanos do passado, muitos dos quais devotaram as suas vidas a defender instituições democráticas como a que estava a ser vandalizada naquele momento.

No final daquela tarde interminável, 52 manifestantes tinham sido detidos – metade no Capitólio, o resto durante o recolher obrigatório. Até agora, quatro morreram, com uma mulher abatida a tiro. Catorze polícias ficaram feridos. O Congresso retomou a sessão sob uma forte escolta. O vice-presidente Pence contou os votos eleitorais de cada estado e declarou Joe Biden o novo presidente dos Estados Unidos. O sistema resistiu, mas, aos olhos de todo o mundo, foi revelada uma fratura mais profunda.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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