Recordar a Noite em que Caíram Duas Bombas Atómicas – na Carolina do Norte

Há sessenta anos, no auge da Guerra Fria, um bombardeiro B-52 desintegrou-se sobre uma pequena cidade no sul dos EUA. Uma testemunha ocular relembra o que aconteceu a seguir.

Published 26/01/2021, 16:00 WET
Bombeiros extinguem as chamas dos destroços de um B-52 Stratofortress perto de Faro, na Carolina do ...

Bombeiros extinguem as chamas dos destroços de um B-52 Stratofortress perto de Faro, na Carolina do Norte, nas primeiras horas da manhã de 24 de janeiro de 1961. O avião libertou duas bombas atómicas quando se despedaçou no ar.

Fotografia de Bettmann Archive, Getty

Billy Reeves recorda-se que naquela noite de janeiro de 1961 estava excecionalmente quente, mesmo para a Carolina do Norte. Mas ficou muito mais quente pouco antes da meia-noite, quando as paredes do seu quarto ficaram iluminadas em tons de vermelho por uma luz estranha a entrar pela janela.

“Eu estava prestes a ir deitar-me”, diz Billy, “quando de repente pensei, ‘mas que raio...?’”

O jovem de 17 anos correu para o alpendre da casa da sua família a tempo de ver um bombardeiro B-52 em chamas – sem uma asa, com destroços em fogo a mergulharem em todas as direções – a cair do céu num campo de algodão a menos de quatrocentos metros de distância.

“Tudo aqui à volta estava a pegar fogo”, diz Billy, agora com 78 anos, ao meu lado no meio daquele mesmo campo, de costas para a modesta casa onde cresceu. “A relva estava a arder. Ali à frente, a estrada do Big Daddy estava a derreter. A minha mãe estava a rezar. Ela pensou que era o fim do mundo.”

Como qualquer adolescente que se preze, Billy começou a correr em direção aos destroços – até que estes explodiram.

“Depois, fugi na direção oposta”, diz Billy.

Em menos de uma hora, na madrugada de 24 de janeiro, um helicóptero militar pairava no ar. Por entre o som dos rotores do helicóptero, uma voz amplificada repetia a mesma palavra: “Evacuar!”

“Não sabíamos porquê”, diz Billy. “Nem perguntámos porquê. Fugimos apenas dali.”

O que a voz vinda do helicóptero sabia, mas Billy não, era que, para além dos destroços do B-52, também tinham caído o que os militares chamavam de “flechas quebradas” – duas bombas atómicas termonucleares de 3.8 megatoneladas. Cada bomba continha mais poder de fogo do que a força destrutiva combinada de todas as explosões provocadas pelos humanos desde o início dos tempos até ao final da Segunda Guerra Mundial.

Uma asa e uma oração

Se existia algo semelhante a uma base militar nas proximidades, seria a Base Aérea de Seymour Johnson, perto da tranquila Goldsboro, na Carolina do Norte. Em grande parte escondida atrás de bosques, vedações e pântanos, esta base tinha servido discretamente a comunidade providenciado empregos desde a Segunda Guerra Mundial.

Apesar de um aumento notável no tráfego aéreo no final de 1960, a população de Goldsboro não fazia ideia de que a sua base local da Força Aérea se tinha tornado num dos vários campos de aviação dos EUA selecionados para a Operação Chrome Dome, um programa da Guerra Fria que mantinha vários bombardeiros B-52 no ar por todo o hemisfério norte 24 horas por dia, 365 dias por ano. Cada avião transportava duas bombas atómicas.

Os bombardeiros que descolavam da Base Aérea de Seymor Johnson em janeiro de 1961 normalmente faziam alguns voos de treino na costa da Carolina do Norte, antes de cruzarem o Atlântico até aos Açores e regressarem. Os B-52, movidos a gasolina, tinham de ser reabastecidos várias vezes durante cada missão.

Foi após uma destas sessões de reabastecimento que o capitão Walter Tulloch e respetiva tripulação perceberam que o seu avião estava a perder combustível rapidamente. Depois, começaram a ter problemas elétricos. Walter resistiu inicialmente a uma ordem do Controlo Aéreo para regressar a Goldsboro, preferindo queimar algum combustível antes de tentar uma aterragem arriscada. Mas rapidamente seguiu as ordens e regressou.

A cerca de 1.500 metros de altitude, aproximando-se vindo do sul e a cerca de 24 quilómetros da base, Walter fez uma última viragem.

Foi quando o B-52 se despedaçou.

Como parte da Operação Chrome Dome da era da Guerra Fria, os bombardeiros B-52 da Força Aérea dos Estados Unidos voavam em missões globais dia e noite a partir de vários aeródromos dos Estados Unidos, incluindo a Base Aérea de Seymor Johnson em Goldsboro, na Carolina do Norte.

Fotografia de Departamento de Defesa, The LIFE Picture Collection/Getty

“Walter Tulloch tinha o B-52 alinhado para aterrar na Pista 26, mas de repente o avião começou a desviar para a direita, em direção à aldeia de Faro”, diz Joel Dobson, autor do livro sobre o acidente, The Goldsboro Broken Arrow. “Depois, entrou em espiral e começou a despedaçar-se.”

Poucas semanas antes, a Força Aérea e a Boeing, construtora do avião, tinham percebido que uma modificação recente – colocar bolsas de combustível nas asas do B-52 – poderia fazer com que as asas se rasgassem. O avião de Walter estava agendado para um reajuste que iria resolver o problema, mas era tarde demais. Walter sabia que o avião estava condenado, pelo que acionou o alarme de “ejeção”.

Entre os oito tripulantes a bordo do B-52, seis estavam em lugares ejetáveis. Adam Mattocks, o terceiro piloto, estava designado para um lugar auxiliar na cabine. Adam Mattocks, de 27 anos, o mais jovem a bordo, também era uma raridade na Força Aérea: um piloto de caças afro-americano, transferido para o serviço de B-52 quando a Operação Chrome Dome entrou em pleno funcionamento. Naquele momento, parecia que aquela transferência casual seria a sua sentença de morte.

“Basicamente, o Adam era um homem morto”, diz Joel Dobson. A sua única hipótese era saltar de alguma forma pela janela da cabine depois de os outros dois pilotos se ejetarem.

“Ele era um homem muito religioso”, diz Joel. “Ele disse-me que olhou à sua volta e disse: ‘Bem, Deus, se chegou a minha hora, que assim seja. Mas aqui vai.’”

Foi um momento surreal. A velocidade de propulsão do B-52 era quase inexistente, mas o avião ainda não tinha começado a cair. Foi como se Adam e o avião estivessem suspensos no ar por breves instantes. Adam aproveitou aquele momento para se lançar no abismo, saltando o mais longe que conseguiu do B-52. Adam tentou abrir o paraquedas, mas ao início este não abriu, talvez porque a sua velocidade do ar fosse demasiado baixa. Mas quando Adam começou a ganhar velocidade na queda, uma corrente de ar ascendente vinda da copa das árvores fez com que ele conseguisse finalmente abrir o paraquedas.

A queda do B-52 foi notícia de primeira página em Goldsboro e por todo o país. Cinco dos oito tripulantes conseguiram sobreviver para contar a sua história.

Fotografia de Wayne County Public Library

“Adam fez uma oração a agradecer a Deus”, diz Joel. Mas depois o avião explodiu no ar e fez com que o seu paraquedas colapsasse.

Adam era agora apenas mais um detrito a cair do B-52. De alguma forma, uma corrente de ar deslizou para dentro do paraquedas e este voltou a inflar. Adam estava novamente a flutuar em direção à Terra. Olhando para o paraquedas que oscilava suavemente, Adam sussurrou novamente: “Obrigado, Deus!”

Mas quando olhou para baixo, Adam percebeu que se dirigia para os destroços em chamas do B-52.

“Bem, Senhor”, disse Adam em voz alta, “se é assim que isto vai terminar, que assim seja.” Porém, uma rajada de vento, ou uma corrente de ar ascendente vinda das chamas em baixo, empurrou-o para sul. Adam aterrou, sem ferimentos, longe da zona principal do acidente.

Depois de um último murmúrio de agradecimento, Adam dirigiu-se para uma casa nas proximidades e apanhou boleia de regresso para a base da Força Aérea. Quando chegou ao portão da frente da base com o fato de voo esfarrapado, com o paraquedas ainda embrulhado nos braços, Adam disse aos guardas que tinha acabado de saltar de um B-52 que se despenhara.

Perante um afro-americano desgrenhado com um paraquedas enrolado nos braços a contar uma história sem nexo, os guardas fizeram exatamente o que se poderia esperar numa zona rural da Carolina do Norte em 1961: prenderam Adam por roubar um paraquedas.

Uma bomba demasiado perigosa

Aos solavancos pelas estradas de terra batida de Faro, na Carolina do Norte, acompanho Billy Reeves na sua carrinha. Paramos perto de uma linha de árvores perpendicular a Shackleford Road.

“Foi ali que encontraram a bomba intacta”, diz Billy. “O paraquedas da bomba abriu, e ela simplesmente flutuou até aqui e ficou pendurada naquelas árvores. A ponta mal tocou no solo.”

Um pouco mais à frente, a voz de Billy fica um pouco trémula.

“Ali em cima”, diz Billy, acenando com a cabeça em direção às copas das árvores. “Foi ali que encontraram um homem morto, pendurado no seu paraquedas. Muito triste.”

Abrandada pelo paraquedas, uma das bombas parou perto de um conjunto de árvores. Os exames feitos ao mecanismo da bomba revelaram que este já tinha concluído várias etapas automatizadas para fazer a detonação, mas os especialistas discordam sobre o quão perto a bomba esteve de explodir.

Fotografia de Força Aérea dos EUA

Entre os oito tripulantes a bordo do B-52, cinco ejetaram-se – um dos quais não sobreviveu à aterragem – um não se conseguiu ejetar e outro, num lugar semelhante ao de Adam Mattocks, morreu no acidente. Até hoje, Adam Columbus Mattocks – que faleceu em 2018 – continua a ser o único aviador a saltar do cockpit de um B-52 sem ejetor e a conseguir sobreviver.

Billy diz que os habitantes locais continuam a encontrar fragmentos do avião em torno da zona do acidente. Existem histórias de pessoas que ainda escondem pedaços do trem de aterragem e da fuselagem. Pouco tempo depois do acidente, Billy encontrou uma caixa de madeira com balas.

“Eles levaram a caixa. Nem sequer me deixaram ficar com uma bala.”

Mas o remanescente mais significativo daquela calamitosa noite de janeiro ainda se encontra a cerca de 55 metros abaixo daquele campo de algodão. Embora a primeira bomba tenha flutuado inofensivamente até ao solo com o paraquedas, a segunda teve um final mais desastroso: penetrou na terra quase à velocidade do som, projetando milhares de detritos que se enterraram centenas de metros no solo.

O dispositivo dessa bomba nuclear, do tamanho de uma bola de basquetebol, foi rapidamente recuperado – com o seu núcleo nuclear milagrosamente intacto. O governo dos Estados Unidos depressa anunciou a sua rápida recuperação e garantiu ao público que, graças aos vários sistemas de segurança do dispositivo, a bomba nunca esteve perto de explodir.

Apesar das décadas de teorias alarmistas que diziam o contrário, as alegações do governo provavelmente estavam corretas. Tal como uma corda de bungee jumping trava o movimento a centímetros de bater no solo, também o sistema de segurança interveio a tempo de evitar um pesadelo nuclear.

Ironicamente, parece que a bomba que flutuou suavemente em direção ao solo apresentou o maior risco, já que o seu mecanismo de detonação permaneceu intacto. Robert McNamara, Secretário de Defesa na época do incidente, disse aos repórteres em 1983: “O mecanismo de armamento da bomba tinha seis ou sete etapas para detonar e concluiu todas, exceto uma.”

“Para mim, o principal é que os mecanismos de segurança funcionaram”, diz Roy “Doc” Heidicker, historiador recém-aposentado da unidade Fourth Fighter Wing, unidade destacada para a Base Aérea de Seymor Johnson. “Por outro lado, conheço pelo menos um médico que estava a pensar ir viver para Goldsboro devido a um emprego, mas que estava preocupado com a possibilidade de não ser seguro. Portanto, há este sentimento contínuo que as pessoas têm de que quase foram pelos ares e ninguém lhes disse a verdade sobre isso.”

Mas a história do acidente nuclear iminente na América ainda não terminou. Isto porque, embora o governo tenha recuperado o dispositivo nuclear primário, as tentativas de recuperação dos outros resíduos radioativos falharam.

A fuselagem principal do B-52 atingiu este campo de algodão, onde os detritos de uma das suas duas bombas ainda estão enterrados.

Fotografia de Bill Newcott

Se eu usasse um contador Geiger no campo de algodão onde eu e Billy Reeves estamos, provavelmente não registaria nada de invulgar. A terra absorve a radiação de forma extremamente eficiente. Mas a cerca de 55 metros abaixo dos nossos pés, irradiando suavemente com uma meia-vida de 24.000 anos, está o núcleo de plutónio do estágio secundário da bomba.

As bombas naquele B-52 não eram meras armas atómicas da classe Hiroshima. Eram bombas termonucleares de hidrogénio Mark-39. Cada uma continha não só uma bomba atómica esférica convencional na ponta, mas também uma barra de plutónio com 5,8 quilos dentro de um compartimento de 136 quilos preenchido com o isótopo de hidrogénio deuterão lítio-6. Se pensarmos na Mark-39 como uma bomba artesanal, o calor libertado pelo dispositivo secundário eram os pregos e estilhaços que tornam a explosão inicial exponencialmente mais perigosa.

Billy Reeves lembra-se da frota de equipamentos de escavação que foi usada enquanto o governo tentava desenterrar o núcleo de hidrogénio. Mas o lençol freático da área continuava a inundar as escavações. Eventualmente, as autoridades federais desistiram, selaram o buraco, desenharam um círculo com um raio de 120 metros em torno do epicentro do impacto e compraram o terreno dentro do círculo. Este lote de terreno continua a ser cultivado. Os trabalhadores agrícolas precisam apenas de evitar cavar mais de um metro e meio de profundidade.

Aproximando-se da linha de árvores na extremidade do campo de algodão, um avião militar dirige-se para a Base Aérea de Seymor Johnson. Billy vive com este padrão de voos que todos os dias lhe traz memórias daquela noite caótica de 1961.

“Quando os aviões se aproximam e as janelas começam a tremer, ainda sinto arrepios”, diz Billy.

Caminhamos pelo campo em direção à estrada Big Daddy, onde os nossos veículos estão estacionados.

“Na realidade, tivemos muita sorte”, diz Billy. “Tirando esse acidente, nunca houve mais nenhum acidente militar por aqui.”

O chão enlameado cola-se aos nossos sapatos.

Billy acrescenta: “Mas o único acidente que tivemos também largou duas bombas atómicas sobre nós...”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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