Santa Maria - a Ilha dos Açores que Já Foi Ilha Duas Vezes

Santa Maria é uma ilha açoriana que não esconde os seus segredos. É a mais antiga do arquipélago dos Açores e já foi ilha por duas vezes.

Publicado 6/01/2021, 11:38 WET
ilha de Santa Maria

Pelo seu clima mais quente, a vegetação mariense apresenta uma tonalidade mais amarelada.

Fotografia de Azoresphotos.visitazores - Maurício de Abreu/ DRT

Também conhecida por ilha amarela, a ilha de Santa Maria conta com mais de 6 milhões de anos, sendo a mais velha do arquipélago dos Açores. A atribuição do epíteto “ilha amarela” deve-se ao facto de ser a que mais sol recebe, entre as demais ilhas e onde as temperaturas são ligeiramente mais elevadas.

Para além de ilha mais antiga, foi também a primeira a ser descoberta pelos navegadores portugueses e a primeira a ser povoada, no século XVI. Foi na Vila do Porto, o único concelho da ilha, que viveu o Cavaleiro Gonçalo Velho da Ordem de Cristo, primeiro capitão de São Miguel.

Santa Maria, a ilha do sol, é composta por cinco freguesias, a de Vila do Porto, São Pedro, Almagreira, Santa Bárbara e Santo Espírito. Tem o comprimento de cerca de 17 quilómetros e 9 quilómetros de largura, sendo o seu ponto mais alto a 587 metros de altitude. É característica da ilha uma miscelânea de verdes e amarelos dos seus pastos, das colheitas e dos solos, com flores de todas as cores e casas brancas, em contraste com o azul do oceano.

Flora e fauna compõe a biodiversidade da ilha

Na ilha de Santa Maria encontram-se 674 espécies de plantas vasculares, das quais 38 são endémicas dos Açores. Da fauna destaca-se a presença de três espécies de escaravelhos endémicos, o Tarphius rufonodulosus, o Tarphius pomboi e o Tarphius serranoi, bem como a Regulus regulus sanctaemariae, a estrelinha-de-Santa-Maria - a ave mais pequena da Europa.

É no Pico Alto, com cerca de 600 metros de altitude, que se encontram espécies únicas, algumas delas endémicas, como caracóis, aranhas e escaravelhos, que só existem nesta zona da ilha.

Ilha de estórias do tempo dos corsários

A ilha de Santa Maria foi atacada por corsários espanhóis, franceses, otomanos e ingleses, por várias vezes. Daí resultou a necessidade de erguer o Forte de São Brás, no século XVII, próximo da atual Pousada de Juventude e ao lado da Ermida da Nossa Senhora da Conceição.

Diz a lenda que um dia, os aristocratas e o povo acordaram perante um iminente assalto de piratas que desembarcaram no porto armados. Antes do embate, a imagem de Nossa Senhora da Conceição foi colocada no Alto da Rocha, com uma mensagem clara de que daquele ponto não poderiam passar.

Assim, ferozmente quebraram o impulso dos usurpadores, os quais os apedrejaram enquanto estes se retiravam apressadamente para as suas embarcações.

Já em 1576, a Ermida de Nossa Senhora da Conceição surge associada a um milagre. Aqui, corsários franceses cercaram o padre na Ermida, porém a porta lateral trancada abriu-se sozinha e o vigário fugiu sem que os franceses se apercebessem.

Ficou soterrada e ressurgiu

Com mais do dobro da idade das restantes ilhas dos Açores, Santa Maria foi, inclusive, ilha por duas vezes. Numa primeira vez tinha a forma de vulcão, mas com o fim da atividade vulcânica e a erosão marítima, desapareceu completamente.

Posteriormente, numa segunda fase de atividade vulcânica soterrou todos os vestígios marinhos com lavas submarinas e formou-se de novo ilha. Este é um dos motivos de se encontrar fósseis bastante bem conservados e formações geológicas singulares, com presenças únicas no arquipélago.

Junto à costa é também possível ver antigas formações geológicas submarinas, que se encontram agora a 120 metros acima do nível médio do mar, o Parque Natural de Santa Maria abrange vários destes elementos. A Pedreira do Campo, a Gruta do Figueiral, a Prainha e o Barreiro da Faneca, na costa norte, são exemplos de interesse geológico.

O Deserto Vermelho dos Açores

Santa Maria, de beleza indiscreta, conta com uma área superior a 800 hectares, numa zona árida e constituída por cinzas vulcânicas que remontam a cerca de 4 milhões de anos. A cor avermelhada provém da altura em que o clima era muito quente e húmido, levando à oxidação das cinzas.

O Poço da Pedreira faz parte deste deserto vermelho do arquipélago, que teve intervenção humana, mas que se tornou em mais um geossítio de interesse da ilha. Dele é possível ter uma vista ampla para o Vale do Salto, onde passa a ribeira que segue para São Lourenço, entre vinhas plantadas em calços e escarpas.

Trata-se de um cone vulcânico de escórias basálticas, também de cor avermelhada e com uma enorme parede cortada a direito. Até meados do século XX cortavam grandes blocos de pedra, para fins da construção civil. Entretanto, um lago acabou por se formar e é hoje refúgio para alguns animais.

Um tesouro ainda por explorar

Do Parque Natural de Santa Maria é possível iniciar um percurso pedestre de cerca de 3h30, na costa sul, a partir da Vila do Porto até à Praia Formosa. Pelo caminho, mais precisamente na Pedreira do Campo, é possível observar lavas submarinas e fósseis.

O percurso passa pela Gruta do Figueiral, aberta pelo homem para exploração de calcário para fazer cal, tornando-se hoje um marco cultural e histórico de Santa Maria. Próximo a esta encontra-se a Praia Formosa, jazida de fósseis da Prainha, que é mais recente. Neste local observa-se ainda uma antiga linha de praia com microfósseis no meio das areias.

Para terminar uma visita pedestre pela ilha, deve incluir-se a Cascata do Aveiro, com cerca de 100 metros de altura junto ao mar, no lugar de Maia. Este local oferece uma vista da composição geológica de Santa Maria.

O guardião dos tesouros da ilha

Ainda neste lado de Santa Maria é possível observar o castelo e o icónico farol. Na Ponta do Castelo refugiam-se aves, onde acabam por nidificar. O Ilhéu da Vila, que faz parte do Parque Natural de Santa Maria criado em 2008, é uma Reserva Natural precisamente devido à nidificação de aves marinhas, sendo uma delas a Alma Negra.

A ilha é guardiã de verdadeiros tesouros da herança da formação do arquipélago, reconhecida pela sua paleodiversidade. Com fósseis datados do Miocénico, do Pliocénico e do Plistocénico, integra fósseis marinhos como bivalves, búzios, ouriços-do-mar e dentes de tubarão, associados a sedimentos alternados com formações vulcânicas.

Santa Maria constitui cinco geossítios prioritários do Geoparque Açores – Geoparque Mundial da UNESCO, com três áreas classificadas na Rede Natura 2000 e um Sítio Ramsar (uma zona húmida classificada como local de importância ecológica internacional ao abrigo da Convenção sobre as Zonas Húmidas de Importância Internacional), o Ilhéu das Formigas.

Entre elementos singulares que vão da flora à fauna, da paisagem ao património cultural, o Parque Natural classifica-se em duas Reservas Naturais, um Monumento Natural, quatro Áreas Protegidas para a Gestão de Habitats ou Espécies, três Áreas de Paisagem Protegida e três Áreas Protegidas de Gestão de Recursos.

O Parque, um verdadeiro guardião dos tesouros da ilha, dispõe ainda para visita a Casa dos Fósseis no Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo, um circuito interpretativo, uma grande rota e quatro trilhos pedestres que percorrem Santa Maria.

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