Uma Breve História Sobre Algumas das Transições Presidenciais Mais Conturbadas dos EUA

Longe de serem os chamados “patos mancos”, estes presidentes dos EUA cumpriram a reta final dos seus mandatos a lidar com desastres económicos, crises internacionais – e até com estados a separarem-se da União.

Publicado 19/01/2021, 17:22 WET
No dia 4 de março de 1933, o presidente dos Estados Unidos Herbert Hoover (à esquerda) ...

No dia 4 de março de 1933, o presidente dos Estados Unidos Herbert Hoover (à esquerda) juntou-se ao seu sucessor, Franklin D. Roosevelt, a caminho da tomada de posse deste último. Embora estes homens mantivessem a tradição de viajar juntos – tradição que remontava a 1837 – seguiram em silêncio após um período conturbado de transição.

Fotografia de Imagno, Getty

Os últimos dias do presidente Donald Trump no cargo têm sido historicamente tumultuosos. Depois de Trump ter passado meses a tentar invalidar as eleições com alegações infundadas de fraude eleitoral, uma multidão armada de apoiantes seus invadiu o Capitólio dos EUA para interromper a contagem de votos do Colégio Eleitoral. No dia 13 de janeiro – uma semana antes do final do seu mandato – Trump foi impugnado (pela segunda vez) na Câmara dos Representantes por ter incitado a referida insurreição.

Os presidentes dos EUA em finais de mandato são há muito tempo apelidados de “patos mancos”, um comentário sobre a forma como enfraquecem devido aos seus últimos dias no cargo. Espera-se que os presidentes passem os seus últimos dias a tratar discretamente de assuntos administrativos e a ajudar a criar uma transição ordeira, enquanto a nação espera que o seu líder recém-eleito estabeleça uma agenda política.

Mas o país já testemunhou outros períodos conturbados de transição. Muitos presidentes dos EUA trabalharam até ao último minuto para tentar forçar as suas próprias agendas. Outros permaneceram inertes enquanto a economia mergulhava no caos – e até mesmo enquanto a nação se dividia. E durante grande parte da história do país, muitos presidentes tiveram mais tempo para o período de transição, porque a tomada de posse só acontecia em março, sendo apenas transferida para janeiro na década 1930.

Eis alguns dos finais de mandatos presidenciais mais frenéticos da história dos EUA.

John Adams e os ‘juízes da meia-noite’

Em dezembro de 1800, o presidente federalista John Adams tinha acabado de perder a sua reeleição quando o Presidente do Supremo Tribunal, Oliver Ellsworth, renunciou ao cargo. Com apenas três meses para o fim do seu mandato, Adams decidiu agir. “Adams não se considerava um ‘pato manco’”, escreve o historiador Richard A. Samuelson. “Ele não via razão para deixar de exercer os seus poderes só porque em breve iria abandonar o cargo.”

Adams e o seu Congresso federalista agiram rapidamente para substituir o presidente do tribunal e remodelar o sistema judicial de acordo com a sua visão, para expandir os poderes federais sobre os estados. Depois de confirmar o Secretário de Estado John Marshall para o Supremo Tribunal, o Congresso aprovou a Lei Judiciária de 1801 que reduziu o Supremo Tribunal de seis para cinco lugares e criou 16 novos juízes federais. No dia 24 de fevereiro, Adams apresentou as suas nomeações para essas funções – e assinou algumas das comissões para os juízes no dia 3 de março, o seu último dia no cargo.

Os Republicanos-Democratas, um dos primeiros partidos políticos liderados pelo presidente eleito Thomas Jefferson, ficaram indignados. Encarando estas ações como uma tentativa partidária para influenciar o tribunal e subverter a sua agenda, os legisladores revogaram a lei antes de esta poder entrar em vigor. Nos anos que se seguiram, as nomeações de última hora de Adams tornaram-se conhecidas pela designação “juízes da meia-noite” – e são um excelente exemplo de sabotagem de um “pato manco”.

Secessão de estados durante a presidência de James Buchanan

O final de mandato com mais consequências na história dos Estados Unidos foi o do presidente James Buchanan, durante as tensões entre o Norte e o Sul devido à escravatura. Durante os meses finais da sua presidência – e em resposta à eleição de novembro de 1860 do republicano antiesclavagista Abraham Lincoln – os estados do sul começaram a debater a saída da União.

Embora Buchanan se tenha manifestado contra a secessão no seu discurso sobre o Estado da União no dia 3 de dezembro, também afirmou que estava “para além do poder de qualquer presidente” fazer qualquer coisa a esse respeito – e colocou a culpa nos estados do norte pela agitação contra a escravatura no sul. Menos de três semanas depois, a Carolina do Sul tornou-se no primeiro estado a separar-se da União.

Depois de separatistas do sul dispararem contra um navio que ia entregar mantimentos em Fort Sumter, na Carolina do Sul, no dia 9 de janeiro de 1861, o presidente cessante James Buchanan não retaliou contra os rebeldes. As tensões cresceram até que a Guerra Civil rebentou em abril, pouco tempo depois de o presidente Abraham Lincoln começar a exercer.

Fotografia de Harper's Weekly, the Library of Congress

Buchanan tomou uma posição que durou pouco tempo, e os habitantes da Carolina do Sul exigiram a retirada das forças federais de Fort Sumter, no porto de Charleston. No início de janeiro, Buchanan enviou um navio com reforços para esta base na Carolina. Contudo, quando os sulistas dispararam contra o navio, Buchanan deixou a resposta nas mãos do Congresso – e nenhum dos ramos governamentais agiu.

Nos dias que se seguiram, outros estados separaram-se da União. Na tomada de posse de Lincoln, no dia 4 de março de 1861, sete estados já se tinham separado – com mais quatro a caminho, formando os Estados Confederados da América e dando o mote para a Guerra Civil.

Benjamin Harrison gera o Pânico de 1893

No final do século XIX, a recusa de outro presidente em agir durante uma crise contribuiu para uma transição conturbada. Em novembro de 1892, o republicano Benjamin Harrison perdeu a reeleição para o democrata Grover Cleveland – Benjamin tinha destituído Grover da presidência quatro anos antes. A rivalidade entre ambos era tão acesa que, durante a transição, “o governo de Harrison derrubou deliberadamente o país”, como afirmou a historiadora Heather Cox Richardson ao Slate.

Os dois partidos políticos confrontaram-se devido à economia durante anos. Os republicanos favoreciam as tarifas que protegiam as empresas americanas da concorrência estrangeira e aprovaram medidas como a Lei Sherman de Compra de Prata de 1890, que exigia ao Tesouro dos EUA inflacionar o preço da prata comprando 1.3 milhões de quilos por mês. Esta medida, que levou ao declínio das reservas de ouro do Tesouro, juntamente com outros fatores, alimentou o Pânico de 1893.

Mesmo quando a economia estava a começar a melhorar sob a administração de Harrison, Heather Richardson diz que os republicanos passaram o período de “pato manco” a alertar os americanos de que o novo governo democrata iria levar o país à falência, instando-os a retirar o seu dinheiro do mercado de ações. Em fevereiro de 1893 –10 dias antes da tomada de posse de Cleveland – o mercado de ações começou a cair a pique. Em vez de agir, Harrison ficou parado e deixou Cleveland assumir a culpa pela depressão económica que se seguiu.

Hostilidades entre Herbert Hoover e Franklin D. Roosevelt

Em 1932, os efeitos da Grande Depressão estavam a espalhar-se por todo o país quando o republicano Herbert Hoover enfrentou o democrata Franklin Delano Roosevelt nas eleições presidenciais. Roosevelt fez campanha e conseguiu “um novo acordo para o povo americano” que iria aliviar o sofrimento ao expandir o papel do governo federal e “distribuir riqueza e produtos de forma mais equitativa”.

Hoover opôs-se às políticas do Novo Acordo, que considerava serem uma ameaça à liberdade individual – e trabalhou para as sabotar antes de Roosevelt assumir o cargo. Como escreve o historiador Eric Rauchway, Hoover passou os meses após as eleições a tentar persuadir Roosevelt a abandonar o Novo Acordo e a fazer promessas públicas para equilibrar o orçamento. Hoover chegou a pedir ao presidente eleito para criar uma comissão económica, uma medida que, de acordo com o New Yorker, teria permitido a Hoover promulgar a sua própria agenda antes do início do mandato de Roosevelt. Mas Roosevelt recusou.

Hoover e Roosevelt não se davam bem pessoalmente e tiveram vários encontros conflituosos até ao dia 4 de março de 1933, dia da posse. Mas Roosevelt seria o último presidente a ser forçado a aguardar até março para assumir o cargo: no início daquele ano – tendo decidido que o período de “pato manco” era demasiado longo, a nação ratificou a 20ª Emenda que passou o Dia de Posse para 20 de janeiro.

Jimmy Carter e a crise de reféns no Irão

Andrew Kalp, de 12 anos, e a sua mãe, Lisa Swartz, celebram depois de lerem no jornal que o pai de Kalp, Malcolm Kalp, iria regressar para casa em segurança depois de ter sido feito refém no Irão durante mais de um ano. O presidente Jimmy Carter negociou com sucesso a libertação dos reféns no dia 18 de janeiro de 1981, apenas dois dias antes do final do seu mandato.

Fotografia de Stan Grossfeld, The Boston Globe/Getty

Mesmo com um período de transição mais curto, os últimos dias das presidências mais recentes também tiveram os seus problemas. Em novembro de 1980, Jimmy Carter perdeu a reeleição para Ronald Reagan – uma derrota que foi em grande parte atribuída ao seu fracasso em acabar com a crise de reféns no Irão. No início daquele ano, uma multidão de militantes invadiu a embaixada dos Estados Unidos em Teerão, fazendo 66 americanos reféns. As tentativas de negociação de Carter falharam, assim como uma missão de resgate militar.

Depois de conceder a Reagan, Carter continuou as negociações para terminar a crise. De acordo com a Associação Histórica da Casa Branca, “nessas últimas semanas, o regresso dos reféns foi quase uma obsessão para Carter”. No dia 18 de janeiro de 1981, o Irão anunciou que tinha aceite o acordo proposto pela Administração Carter para a libertação dos reféns. Mas as complicações financeiras atrasaram a libertação – que só aconteceu às 12h33 do dia 20 de janeiro, meia hora depois de Reagan ter sido empossado.
 

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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