3 Toneladas de material de Stonehenge podem ter vindo de monumentos mais antigos

Vários anos de investigação arqueológica sugerem agora que os britânicos do Neolítico transportaram partes enormes do icónico monumento desde os confins da ilha.

Publicado 15/02/2021, 12:17 WET
Stonehenge, concluído há cerca de 4.600 anos, pode ter sido construído em parte com elementos de ...

Stonehenge, concluído há cerca de 4.600 anos, pode ter sido construído em parte com elementos de monumentos megalíticos mais antigos que foram construídos a centenas de quilómetros de distância.

Fotografia de KENNETH GEIGER, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Não é difícil perceber porque é que Stonehenge é um dos sítios arqueológicos mais icónicos do mundo. Este círculo de pedra com 4.600 anos de idade nas Planícies de Salisbury, no sul de Inglaterra, foi construído por pessoas que não deixaram pistas evidentes do seu propósito ou até da sua própria identidade – mistérios que há muito fascinam arqueólogos, druidas modernos, escritores de ficção científica e turistas.

Agora, um novo estudo publicado na revista Antiquity acrescenta outra reviravolta ao enredo da saga de Stonehenge: este Património Mundial pode não ser uma criação original. Uma equipa de investigadores encontrou um possível precursor de Stonehenge nas ruínas de um monumento ainda mais antigo no País de Gales.

O círculo megalítico no sítio arqueológico galês de Waun Mawn tem dimensões comparáveis às de Stonehenge, está alinhado de forma semelhante com o sol e parece apresentar alguns dos mesmos materiais de construção. Mas, ao contrário de Stonehenge, tem poucas pedras remanescentes. A equipa de investigação especula que os construtores de Waun Mawn o desmontaram há cinco milénios atrás e transportaram algumas das suas pedras de arenito de três toneladas ao longo de 280 quilómetros até às Planícies de Salisbury – um esforço extremamente árduo (e, ao nível prático, desnecessário). Portanto, para quê fazer algo assim?

O antigo arco de pedras monolíticas em Waun Mawn, no País de Gales, durante as escavações experimentais feitas em 2017. O perfil de uma cavidade de pedra descoberta no local corresponde ao de uma pedra de arenito encontrada em Stonehenge, sugerindo que foi deliberadamente transportada para o local considerado Património Mundial em Inglaterra, a uma distância de cerca de 280 quilómetros.

Fotografia de A. STANFORD

“Para os antigos britânicos, as pedras de arenito devem ter sido consideradas mais do que simples objetos de valor, podem ter sido consideradas a própria essência de quem eles eram”, diz Michael Parker Pearson, especialista em pré-história britânica na Universidade College de Londres e autor principal do estudo. Michael, cujo trabalho é financiado em parte pela National Geographic Society, suspeita que a descoberta feita em Waun Mawn pode sustentar uma teoria particularmente sugestiva: as pedras azuis de Stonehenge (assim chamadas devido à sua cor) eram representações físicas dos antepassados dos migrantes ou das suas memórias passadas. Os britânicos do Neolítico estavam literalmente a carregar o peso dos seus antepassados com eles através do reino.

Porém, neste estágio da investigação é impossível tirar conclusões definitivas – algo que os autores do estudo e especialistas externos reconhecem. “Uma das coisas que sempre gostei em Stonehenge é que há muitas perguntas que provavelmente nunca terão resposta”, diz Kate Fielden, vice-presidente da organização Rescue – The British Archaeological Trust, que não participou nesta investigação. “Gosto da ideia de haver um mistério.”

Indícios em lendas antigas?

Os avanços revolucionários feitos nas últimas décadas na ciência arqueológica reduziram as possíveis histórias de origem de Stonehenge. O seu alinhamento com os solstícios de verão e inverno implica uma ligação astronómica, e a quantidade de restos humanos cremados no local sugere uma ligação com os mortos ou uma veneração aos antepassados.

Esquerda: Waun Mawn visto de norte durante a escavação de 2018. O círculo de pedras fica na encosta de uma colina conhecida por “Outeiro do Veado”, com vistas distantes da Irlanda a oeste.
Direita: Stonehenge é composto por blocos de arenito locais no anel exterior e na ferradura interna, e por pedras dolomíticas mais pequenas de Gales dentro do círculo.

Fotografia de A. STANFORD (ESQUERDA) E BRUCE DALE, NAT GEO IMAGE COLLECTION (DIREITA)

Stonehenge não foi construído num ápice. A sua construção começou há 5.000 anos e o monumento assumiu várias formas ao longo dos séculos. Em última análise, Stonehenge é feito de dois tipos de pedra: Placas de arenito de 20 toneladas que formam a ferradura central e o círculo externo de pedra – e um arco interno de pedras de arenito mais pequenas de três toneladas. A análise geoquímica indica que as placas de arenito grandes foram retiradas de West Woods, a poucos metros de Stonehenge.

Por outro lado, acredita-se que as pedras de arenito mais pequenas foram arrastadas por terra ao longo de quase 320 quilómetros desde as colinas Preseli, no oeste do País de Gales. Michael Pearson e outros investigadores encontraram recentemente correspondências perfeitas para estas pedras em duas pedreiras de Gales.

Os arqueólogos dizem que a jornada destas pedras está representada numa antiga lenda. No tomo do século XII, a História dos Reis da Grã-Bretanha, Geoffrey de Monmouth conta a história de como o mago Merlin destruiu a Dança dos Gigantes, um antigo círculo de pedra na Irlanda, e usou 15.000 homens para o reconstruir nas Planícies de Salisbury.

Embora esta curiosa história sobre os caprichos de um feiticeiro tenha poucas bases na realidade, o facto de as pedras de arenito de Stonehenge terem vindo do País de Gales, do outro lado do mar da Irlanda, fez com que algumas pessoas se interrogassem se este mito não poderia conter um pouco de verdade. Será que o precursor de Stonehenge existia algures a oeste? Incapaz de resistir a um desafio, a equipa de Michael Pearson – um grupo composto por arqueólogos, geólogos, especialistas em fotogrametria aérea e especialistas em datação por radiocarbono e cristal – passou grande parte da última década a tentar descobrir a resposta.

À procura dos precursores

Identificado pela primeira vez como local de interesse relacionado com Stonehenge em 2010, Waun Mawn não tem muito para ver atualmente – apenas quatro pedras dispostas num possível arco. Em 2011, os arqueólogos usaram tecnologia de sensoriamento remoto para analisar debaixo da superfície do local, mas não encontraram nada de intrigante.

Seguindo um pressentimento, a equipa regressou a Waun Mawn em 2017 e escavou pequenas trincheiras em cada extremidade do arco, encontrando dois fossos onde outrora estiveram pedras monolíticas. “Aquele foi realmente um momento em que pensei que talvez, apenas talvez, estivéssemos no caminho certo”, diz Michael.

Mais uma vez, porém, as pesquisas geofísicas não revelaram fossos adiocionais onde as outras pedras estariam. As técnicas de sensoriamento remoto tinham sido fundamentais para ver debaixo da superfície de Stonehenge. Mas o fracasso destes mesmos métodos em Waun Mawn, mesmo depois das evidências promissoras encontradas nas trincheiras cavadas, era irónico e frustrante.

“Não há nada pior do que tentar encontrar um círculo de pedras que já não está lá”, diz Michael.

A equipa de investigação acabou eventualmente por perceber que este pedaço de terra galesa não tinha os minerais magnéticos ou quaisquer rochas eletricamente condutoras necessárias para o equipamento de sensoriamento remoto funcionar conforme projetado. “A alta tecnologia moderna simplesmente não iria dar. Teríamos de fazer as coisas à moda antiga e fazer tudo à mão.”

Peças perfeitas do puzzle

Depois de meses a escavar e a examinar o solo à procura das mais ínfimas  alterações na textura, cor e topografia, os arqueólogos descobriram mais fossos. As “cavidades de pedra” compunham um segmento do que era originalmente um círculo de 110 metros de largura – o mesmo diâmetro da vala que circunda Stonehenge. Se todas as pedras de Waun Mawn ainda estivessem nos seus encaixes, o monumento alinhar-se-ia com o nascer do sol do solstício de verão – assemelhando-se novamente a Stonehenge.

A equipa usou datação por radiocarbono para datar o carvão vegetal encontrado no local, bem como luminescência oticamente estimulada, que indica a última vez em que os sedimentos ricos em quartzo acumulados nas cavidades de pedra estiveram expostos à luz solar. Em conjunto, os dados sugeriam que Waun Mawn tinha sido construído entre há 5.000 e 5.600 anos, antes da construção de Stonehenge.

Uma cavidade de pedra escavada em Waun Mawn. Os arqueólogos procuraram pequenas diferenças na cor do solo, textura e topografia para identificar os buracos onde as pedras do antigo monumento estavam localizadas.

Fotografia de M. PARKER PEARSON

Para onde tinham ido as pedras de Waun Mawn? Uma das pedras em Stonehenge forneceu uma pista: uma secção transversal muito específica que corresponde a uma das bases de pedra em Waun Mawn. Para além disso, as lascas de rocha no fundo de uma das cavidades de Waun Mawn correspondiam geologicamente àquele tipo específico de pedra em Stonehenge, uma rocha tecnicamente conhecida por dolerito sem manchas.

As análises feitas anteriormente aos restos de esqueletos humanos encontrados em Stonehenge revelaram evidências químicas de que alguns dos mortos tinham vindo da região oeste do País de Gales. Em conjunto, os dados contam uma história dramática e inesperada: o círculo de pedra em Waun Mawn foi desmontado pelos seus criadores e levado para as Planícies de Salisbury, onde os construtores espelharam o seu projeto e usaram algumas das suas pedras para erguer Stonehenge.

Os autores do estudo consideram esta teoria plausível, mas provisória, e alguns especialistas independentes concordam. Richard Madgwick, arqueólogo da Universidade de Cardiff, no País de Gales, afirma que a ideia de que Stonehenge tem pelo menos um precursor galês “é bastante convincente”.

Contudo, há outros especialistas que pensam que estas evidências não são suficientes.

“Procurar evidências que suportem as tradições orais implicadas nos relatos de Geoffrey de Monmouth é uma abordagem interessante, mas até agora os restos encontrados em Waun Mawn não estão de acordo com o que esperaríamos de um círculo de pedra daquele período”, diz Timothy Darvill, arqueólogo da Universidade de Bournemouth. “É claramente necessário mais trabalho para fundamentar estas alegações.”

O que significa Stonehenge?

Como apenas uma das 44 pedras de arenito sobreviventes de Stonehenge passível de comparação (por enquanto) com Waun Mawn, a equipa de investigação sugere que as restantes podem ter vindo de vários locais na região. Se assim for, Stonehenge pode ter sido de particular importância para os seus criadores migratórios – mas porquê?

Vários estudos de ADN revelam que as pessoas enterradas em torno das Planícies de Salisbury, há 5.000 anos, tinham origens diferentes. Algumas vieram do oeste do País de Gales e da Irlanda e tinham túmulos de pedra, enquanto que outras vieram do leste de Inglaterra e os seus túmulos eram longos montes. “Estas também são áreas que tradicionalmente tinham diferentes formas de estilo de vida e, podemos dizer, estilos de morte”, diz Michael Parker Pearson.

Stonehenge fica exatamente no meio destas áreas, e Michael pensa que o monumento pode ter servido como uma espécie de “terreno neutro” unificador, onde diferentes grupos neolíticos podiam reconciliar as suas diferenças culturais.

Um trabalho liderado recentemente por Richard Madgwick suporta este conceito. A equipa de Richard encontrou uma enorme quantidade de ossos de porco em Durrington Walls, um local neolítico próximo de Stonehenge. As análises químicas feitas aos restos de suínos revelaram que os animais tinham vindo de toda a Grã-Bretanha e que foram consumidos em grandes festas. “Todo o local poderia ter sido uma espécie de [festival] Glastonbury do seu tempo”, diz Richard, onde pessoas de todas as ilhas britânicas convergiam para partilharem as suas identidades e experiências.

Este novo estudo contribui para a noção de que os envolvidos em Stonehenge estavam longe de serem estáticos e isolacionistas, diz Vincent Gaffney, arqueólogo da Universidade de Bradford, em Inglaterra, que não participou no estudo. “Os antigos britânicos viviam numa sociedade que não era monolítica, que não era estacionária, mas sim flexível e interativa. Havia movimentos de mercadorias e parecia haver movimento de peças substanciais de cultura material.”

Memórias gravadas em pedra

Não se sabe as razões que levaram aquelas pedras em específico a serem arrastadas desde Gales até às Planícies de Salisbury. Mas há monólitos do outro lado do mundo que podem revelar a resposta.

Na década de 1990, Michel Parker Pearson estava a trabalhar com um arqueólogo malgaxe no estudo de construções megalíticas em Madagáscar, que ainda continuam a ser construídas até hoje. As pedras, explicou o seu colega, eram para os antepassados. A madeira apodrece. Pedra dura para sempre. Os megálitos eram usados para representar os mortos e essencialmente para manter as suas memórias vivas para a eternidade.

O mesmo se pode aplicar às pedras “migratórias” do País de Gales. Estas pedras foram colocadas em Stonehenge e, como muitos dos “túmulos de passagem” construídos durante aquela época, foram dispostas para se alinharem com os movimentos do sol – outra entidade eterna. Portanto, Stonehenge pode ter sido não só um ponto de encontro multicultural, mas também um monumento de lembrança.

Podemos estar separados daquelas pessoas por 5.000 anos, mas é fácil identificarmo-nos com o seu desejo de imortalizar os seus antepassados. Estas pedras eram versões de três toneladas de pequenas lembranças – fotografias, cartas, objetos pessoais – de entes queridos que eram passadas às gerações seguintes.

E tal como os antigos britânicos, quando mudamos de casa, também levamos connosco estes tesouros que prezamos.

“Levamos as coisas que representam quem somos, representam quem eram os nossos antepassados”, diz Michael.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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