A "Noite Sangrenta": o que aconteceu em Portugal no ano de 1921

Uma camioneta fantasma batalhava a cidade de Lisboa, naquela que viria a ser uma noite verdadeiramente sangrenta. Numa longa lista de nomes a abater, adivinhava-se o fim da República e escancarava-se a porta para a ditadura militar de 1926.

Published 5/02/2021, 10:32 WET, Updated 5/02/2021, 12:46 WET
Ilustração do assassinato na "noite sangrenta"

Ilustração do assassinato na "noite sangrenta" de 19 de outubro de 1921 de António Joaquim Granjo (1881-1921) político português.

Fotografia de Arquivo Histórico de Almada, Fundo Álvaro e Hortense Neves PT/AHALM/AHN/002/000078 (ilustração)

Numa noite de 1921, Portugal foi marcado pela anarquia sanguinária. De 19 de outubro, resultaram vinte e dois homicídios, dos quais apenas treze seriam condenados a penas de prisão e degredo.

Nessa noite fria de outubro, irrompe uma revolta militar sob o comando do coronel Manuel Maria Coelho, antigo revolucionário do Movimento Republicano de 31 de janeiro de 1891.

O chefe do Governo, António Granjo, apresenta demissão, mas o Presidente da República, António José de Almeida, não nomeia um novo executivo. Nesta brecha, um grupo liderado pelo cabo marinheiro Abel Olímpio, então conhecido por “Dente de Ouro”, dirige os acontecimentos da noite sangrenta.

O aviso do golpe não foi suficiente

Ao ser avisado do golpe na véspera, Granjo garantiu ter o exército do seu lado e demitiu-se do seu posto político de manhã. Todas as unidades militares e da polícia obedeciam às ordens da Junta Revolucionária. Nada ainda antevia a noite sangrenta que esperava o país.

Pelas doze horas, o coronel Nobre da Veiga, o primeiro-tenente Serrão Machado, o capitão Camilo de Oliveira e os civis Veiga Simões, Afonso de Macedo e Jacinto Simões, representantes da Junta Revolucionária, estavam na receção do Presidente da República, com os decretos sobre a constituição do novo Governo.

No entanto, o chefe de Estado recusou-se a assinar os decretos e findou as suas funções oficiais de Presidente da República. Até às 17 horas muitos tentaram demovê-lo, mas ele anunciava “Mandem-me fuzilar, mandem-me prender, mandem-me exilar, mas eu não me desonro”.

A mensagem que já se fazia circular pelas ruas da cidade era “Não cumprir as ordens de um Governo incompetente que procura defender apenas interesses pessoais e de partido é um dever de todos os patriotas”, o que veio apenas alimentar o ódio já instalado sob António Granjo.

A camioneta fantasma percorre Lisboa

Lisboa acordou com tiros de mais uma revolução. As tropas da Guarda Nacional Republicana (GNR) começaram cedo a ocupar pontos estratégicos da capital e, na Rotunda, instalaram artilharia pesada e obuses. Concentraram-se aqui 7000 homens.

Após apresentar demissão do seu cargo e de esta ser aceite, Granjo voltou a Lisboa da parte da tarde. Já a cidade estava no poder dos revoltosos e acabou por se refugiar na casa de Cunha Leal, seu amigo e vizinho, Ministro das Finanças. Dado que a casa se encontrava sob vigilância, rapidamente encontraram Granjo.

A que ficou conhecida como camioneta fantasma iniciou a sua tarefa nessa noite sangrenta, começando por transportar António Granjo e Cunha Leal para o Arsenal, junto ao Terreiro do Paço.

Factos sobre Revoluções
As revoluções trouxeram algumas das transformações mais radicais da história e da política mundiais. Saiba o que levou às revoluções americana, francesa, latino-americana e russa, bem como as características partilhadas pela maioria das revoluções políticas.

O capataz que nasce na noite sangrenta

Conhecido na história apenas por conduzir a camioneta fantasma, o Dente de Ouro fazia questão de lembrar o papel desdenhoso de José Carlos da Maia, aos que lhe acompanhavam na caixa da camioneta fantasma, instigando o ódio.

Chegados até Maia, aos pedidos de clemência de Berta Maia com o filho de 6 meses de idade ao colo, proclamava mais mentiras, afirmando que fora por causa do capitão-de-fragata que os marinheiros tinham sido deportados para África, no tempo de Sidónio. Acrescentou, ainda, que também a sua mãe teria morrido de dor ao vê-lo partir para lá. No entanto, na verdade, nem ele fora deportado e tão pouco a sua mãe estava morta.

Já no interior do recinto e sem intervenção dos oficiais, José Carlos da Maia é alvejado. As tropas aplaudem mais este feito da noite sangrenta.

Seriam ainda assassinados o motorista Carlos Gentil, por ter criticado a onda de mortes, e o capitão-de-fragata Carlos Freitas da Silva, aparentemente em substituição do seu antigo chefe, Ricardo Pais Gomes, que estaria em Viseu na noite fatídica.

Por cumprir ainda estava a execução do almirante Machado Santos

A camioneta fantasma tinha ainda no trajeto cumprir o atentado contra o aclamado pai da República, António Machado Santos. Era invejado pela pensão vitalícia e alcunhado de traidor pelos marinheiros, num golpe contra Sidónio Pais. O Dente de Ouro proclamava que este era mais um dos que castigara os marinheiros.

Era 1h30 desta noite sangrenta sem fim, e o almirante parou de resistir, aceitando acompanhá-los até ao Arsenal. Interrompidos no caminho por uma avaria na camioneta fantasma, foi fuzilado no Largo do Intendente.

Os revolucionários deixaram ainda às portas da morte o coronel de Cavalaria Carlos Botelho de Vasconcelos, cujos boatos, desta vez, assumiam que ele teria mandado os marinheiros beber água, também nos tempos de Sidónio. A frase era depreciativa e motivou Heitor Gilman a liderar o pelotão de fuzilamento.

Já tombado, mas ainda vivo, conseguiu que o enfermeiro Henrique Alberto Teixeira o tapasse com a bandeira da Cruz Vermelha, ficando assim protegido por esta instituição. Contudo, não conseguiu resistir aos ferimentos e foi mais uma vítima da noite sangrenta.

A cidade desatendia a 25ª revolta da República

O desenrolar de acontecimentos trágicos escaparam até ao controlo de Manuel Maria Coelho. Quase todos, partido ou organização, condenaram o que se passou na noite sangrenta e ninguém reivindicou o ataque.

Resultaram cinco mortos e várias tentativas de assassinato. Entre elas, o industrial Alfredo da Silva que, ironicamente, foi apontado como financiador da operação, embora nunca tenha sido acusado.

Apesar de todo o caos provocado na cidade, cumpria-se o quotidiano na capital, uma vez que esta já era a 25ª revolta da República. Assim, era possível ver as lojas abertas, os elétricos a circular, e os bombeiros, Cruz Vermelha e hospitais, que se tinham organizado para responder às urgências, acabaram por não ser necessários.

O horrendo triénio trágico da República (1918-1921)

A conhecida noite sangrenta marcou o país para sempre, por uma revolução da qual ainda hoje pouco se sabe sobre a sua origem. Num espaço de treze anos, o povo português viu assassinar o Rei D. Carlos (1908), o Presidente da República, Sidónio Pais (1918) e o chefe do governo demissionário.

Entre teorias diversas sobre a sua origem, dividem-se entre os que defendem que foi incitada por monárquicos que queriam vingar o regicídio, pelos do partido democrático que perderam o poder para Granjo, pela maçonaria e até por Espanha.

A 2 de março de 1922, a Câmara dos Deputados e o Senado prestaram homenagem aos antigos parlamentares vítimas do massacre da noite sangrenta, exigindo o apuramento da verdade.

Com os culpados materiais julgados e condenados em tribunal, e dos responsáveis políticos despronunciados ou absolvidos no mesmo processo, o episódio da noite sangrenta foi utilizado posteriormente, do ponto de vista político, para catalogar de horrendo o triénio trágico da República, que se seguiu à participação na I Guerra Mundial.

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