A Posse do Presidente dos EUA, do Amanhecer ao Anoitecer, Captada Numa Imagem Impressionante

Nesta imagem histórica estão combinadas fotografias tiradas ao longo de 15 horas. “Às vezes acontece este acaso mágico sobre o qual não tenho controlo, mas para o qual estou apenas presente.”

Publicado 1/02/2021, 14:33
Uma montagem fotográfica capta todo o dia histórico da posse do presidente Joe Biden em 2021, ...

Uma montagem fotográfica capta todo o dia histórico da posse do presidente Joe Biden em 2021, desde a despedida matinal do presidente Donald Trump no helicóptero Marine One às luzes noturnas que celebravam as pessoas que não puderam comparecer na cerimónia devido à pandemia.

Fotografia de STEPHEN WILKES, NATIONAL GEOGRAPHIC

No dia 20 de janeiro de 2021, o fotógrafo e explorador da National Geographic Stephen Wilkes deu por si quase exatamente no mesmo local onde tinha estado oito anos antes, para a posse do presidente Barack Obama em 2013: Suspenso a 12 metros no ar no National Mall.

Às 5h30 do dia de posse mais recente, Stephen e o seu assistente Lenny Christopher assumiram as suas posições num elevador oscilante enquanto eram fustigados por ventos de 55 quilómetros por hora e chuva gelada. Stephen, sabendo que a sua maratona mal tinha começado, preparou a câmara e tirou uma fotografia.

Cerca de 15 horas depois, quando Stephen finalmente desceu, tinha tirado mais de 1.500 fotografias, desde o amanhecer ao anoitecer. Cada uma revela um momento que o cativou.

“É quase como uma meditação quando trabalho”, diz Stephen. “Os ventos podem soprar, mas quando se trata de estar presente, estou sempre à procura. Estou sempre a observar a forma como as nuvens se estão a mover. Estou a observar a maneira como a luz se está a mover. Estou a ver a forma como as pessoas estão a andar... estou a observar todas estas coisas.”

Ao longo dos últimos 12 anos, Stephen aperfeiçoou a arte de tirar a mesma fotografia repetidamente – mas nunca capta duas imagens iguais.

Esquerda: As autoridades dizem que pelo menos um milhão de pessoas compareceram para a segunda posse do presidente Barack Obama em 2013. Uma das muitas imagens captadas por Stephen Wilkes nesse dia mostra Biden a ser empossado como vice-presidente.
Direita: Devido aos riscos de saúde relacionados com a COVID-19, o público não foi autorizado a assistir à posse do presidente Joe Biden. Em vez disso, o National Mall foi preenchido com quase 200.000 bandeiras para representar os participantes ausentes. “Quando passamos por algo como o que aconteceu em 2013, onde temos o som de [um milhão] de pessoas e depois vamos para o vazio, exceto o som de bandeiras a ondularem ao vento, é um sentimento profundo”, diz Stephen Wilkes.

Fotografia de STEPHEN WILKES

A montagem fotográfica de Stephen Wilkes da posse do presidente Barack Obama em 2013 capta o progresso do dia desde o nascer ao pôr do sol. Ao centro, os ecrãs também revelam os movimentos de Obama durante a cerimónia, desde o juramento oficial ao seu discurso à nação.

Fotografia de STEPHEN WILKES

Por vezes, Stephen tira quase 2.000 fotografias da mesma cena, da mesma posição, até 36 horas seguidas. Stephen já fotografou incessantemente o degelo do Ártico, turistas numa lagoa islandesa e flamingos no Quénia. Depois de analisarem cada imagem, Stephen e a sua equipa escolhem os momentos do dia que lhes tocam mais. Depois, combinam tudo perfeitamente numa só imagem estruturada em torno do amanhecer e anoitecer. Stephen fez uma coleção destas obras a que chama “Dia até à Noite”.

Stephen admite que este processo de trabalho pode ser desgastante: “Tente ver televisão durante 36 horas. É difícil.” Mas também é profundamente envolvente: “O receio de perder um momento é tão grande que fico extremamente concentrado.”

Para a montagem fotográfica da posse presidencial de 2021, como acontece com a maioria das suas fotografias da coleção “Dia até à Noite”, Stephen teve apenas um instante para captar o que considera serem os momentos que definem a imagem. Ao início do dia, enquanto as nuvens escuras ainda obstruíam o céu, o presidente Donald Trump circulou o edifício do Capitólio dos EUA no helicóptero Marine One, antes de partir do Distrito de Colúmbia. Pouco depois, mesmo no início da cerimónia de posse, o vento que tinha fustigado o fotógrafo durante toda a manhã clareou o céu. A metáfora visual não se tinha perdido para Stephen.

“Às vezes acontece este acaso mágico sobre o qual não tenho controlo, mas para o qual estou apenas presente. E depois o que acontece é... é como um livro que se escreve a si próprio.”

Normalmente, Stephen e a sua equipa demoram cerca de quatro meses para vasculhar milhares de fotografias e compilar a montagem final. Há tantos detalhes em cada imagem que, apesar de fotografar uma cena durante 12 a 36 horas, Stephen ainda encontra novas preciosidades em cada fotograma. Uma vez, quando estava a observar as fotografias captados no Desfile do Dia de Ação de Graças da Macy's em 2013, na cidade de Nova Iorque, Stephen reparou numa família a jantar na janela de um edifício de apartamentos. Essa reunião familiar entrou na imagem final – apenas uma de muitas mini-cenas numa composição muito maior.

Com o seu casaco de expedições que já tem algumas décadas, Stephen lutou durante 15 horas contra ventos de 55 quilómetros por hora no topo de um elevador para fotografar a posse presidencial de 2021. “Estamos numa situação em que eu não posso realmente descer. Portanto, se estiver com frio, acaba-se o jogo”, diz Stephen.

Fotografia de LENNY CHRISTOPHER

Para a posse de Biden, Stephen sabia que o momento exigia uma reviravolta sem precedentes. Os momentos que definiam a história eram claros na sua cabeça: o passeio de helicóptero de Trump, o céu a clarear, o presidente Joe Biden a fazer o juramento de posse. Enquanto estava no carro, já a caminho do seu estúdio no Connecticut, Stephen começou a examinar as imagens. Quando entregou o seu disco rígido a Nina Scherenberg, que ajuda Stephen a combinar as suas fotografias há mais de uma década, Stephen já tinha selecionado partes de 50 fotogramas que queria preservar.

“Eu sabia no meu coração que esta imagem definia não só um momento na história, mas também o facto de a democracia ter sido salva”, diz Stephen. “Nós salvámos realmente a democracia porque este dia aconteceu.” A imagem de Stephen Wilkes mostra as vedações de segurança e as tropas armadas no Capitólio após a violência levada a cabo no dia de 6 de janeiro por insurgentes armados. “Mas o mais importante”, diz Stephen, “a imagem mostra que a tentativa de uma multidão em impedir a certificação de uma eleição legal, não a conseguiu impedir. Eles tentaram, mas não a conseguiram impedir.”

Cronologicamente, a montagem final de Stephen termina com as luzes do memorial National Mall, que homenageiam as pessoas que não puderam comparecer na cerimónia devido à pandemia. “Acho que a esperança na fotografia vem dessas luzes do memorial, os extraordinários feixes de luz projetados no céu.”

Stephen começou a sua série “Dia até à Noite” com várias homenagens à sua cidade natal, Nova Iorque. Desde então, Stephen tem observado e compactado dias memoráveis pelo mundo inteiro, desde a Regata Storica em Veneza, a Missa de Páscoa no Vaticano e Trafalgar Square em Londres.

“As composições de Stephen Wilkes têm uma qualidade documental interessante, onde vemos a realidade... mas, de certa forma, alteram o que iremos realmente ver se visitarmos esses lugares”, explica a Dra. Zora Carrier, diretora executiva do Museu de Artes Fotográficas da Flórida, museu que recebeu uma exposição da série “Dia até à Noite” de Stephen no ano passado. “Se formos a Trafalgar Square, nunca temos o nascer do sol de um lado e a escuridão do outro. É a sua forma de ver um lugar. Estamos a ver um lugar no espectro do tempo.”

Durante a Marcha de Compromisso “Get Your Knee Off Our Necks” no ano passado em Washington D.C., uma celebração da Marcha de 1963, Stephen ficou empoleirado sobre o Memorial da Segunda Guerra Mundial durante 12 horas, enquanto observava milhares de pessoas a reunirem-se no Memorial Lincoln para defenderem uma reforma na polícia e na justiça criminal.

“As temperaturas rondavam os 40 graus”, diz Stephen. “Foi obviamente desafiador por vários motivos, mas a experiência foi profunda... testemunhei uma marcha incrível e pacífica. Vi todas estas pessoas a reunirem-se 57 anos depois do dia em que o Dr. King fez o seu discurso – Eu tenho um sonho – naquele mesmo lugar.”

Como é óbvio, nas suas composições finais, Stephen não pode incluir todas as pessoas que participam num evento. Centenas de pessoas podem estar no mesmo lugar ao longo de um dia, mas só uma pode ocupar esse espaço na composição final. As restrições forçam a equipa a selecionar manualmente cada indivíduo. Neste mundo construído e comprimido, Stephen tenta refletir o espírito e a verdade daquele dia.

“Enquanto fotógrafo documental, quero mostrar o que testemunhei”, diz Stephen. “Vi avós, vi crianças pequenas, vi afro-americanos, hispânicos, americanos brancos, vi tudo. Para mim, esse dia foi uma espécie incrível de fluxo do que somos hoje enquanto América. Foi isso que ficou representado na minha objetiva. Estava muito determinado em certificar-me de que essa representação visual estava na minha imagem.”

Mas, por vezes, o espírito de um determinado dia pode acontecer à hora errada, no lugar errado. Depois de a Marcha de Compromisso ter terminado e a maioria da multidão ter desaparecido, membros da National Action Network, organizadores da marcha, começaram a recolher o lixo em torno do Memorial da Segunda Guerra Mundial. Embora Stephen e a sua equipa ainda estivessem a fotografar as alterações no céu – e iriam continuar a fazê-lo durante várias horas – as imagens desse serviço público não puderam ser incluídas na composição final. A metade inferior da fotografia final, onde aparece o memorial de guerra, foi reservada para os momentos captados ao início do dia, quando o sol estava alto.

Antes de começar a sua série “Dia até à Noite”, a fotografia de Stephen concentrava-se em temas fugazes e passageiros. Em 1998, Stephen iniciou um projeto de cinco anos nas enfermarias médicas abandonadas e decadentes de Ellis Island. O seu trabalho ajudou a garantir 6 milhões de dólares do Congresso para preservar o lado sul desta ilha histórica.

A sua montagem fotográfica mais recente para a National Geographic Society concentra-se em animais e habitats ameaçados de extinção no Canadá, onde Stephen fotografou ursos-pardos na Colúmbia Britânica. Em 2017, a National Geographic Society também financiou uma série “Dia até à Noite” sobre a migração de aves no mundo inteiro, desde grous-canadianos, no Nebraska, a gansos-patolas, na Escócia.

“À medida que o meu trabalho começa a documentar questões de justiça social e espécies ameaçadas, concentro-me na criação de fotografias que lidem com questões sociais importantes e que tentem inspirar mudanças”, diz Stephen. “Quando olho para o meu trabalho, sinto que talvez estas fotografias se tornem janelas. Conforme o tempo passa, elas começam a dizer às pessoas daqui a 50 anos, daqui a 100 anos, como foi a experiência humana.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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