Descobertos no Alasca os restos mortais mais antigos de um cão na América

Um fragmento de osso conta a história de um companheiro canino que viajou para um novo mundo gelado, fornecendo pistas sobre as migrações dos primeiros americanos.

Publicado 25/02/2021, 14:11 WET
Quer sejam huskies, malamutes ou cães de trenó, desde a Sibéria à Gronelândia, todos estes animais ...

Quer sejam huskies, malamutes ou cães de trenó, desde a Sibéria à Gronelândia, todos estes animais são fisicamente semelhantes aos primeiros cães domesticados que entraram na América do Norte há mais de 10.000 anos.

Fotografia de Paul Nicklen, Nat Geo Image Collection

Durante cerca de 20 anos, pensou-se que o espécime PP-00128 da coleção de ciências da terra do Museu da Universidade do Alasca pertencia a um urso bastante antigo. Este fragmento de fémur, do tamanho de uma pequena moeda, foi escavado num local ao longo da costa sudeste do Alasca, onde os arqueólogos também descobriram restos mortais de peixes, aves, mamíferos e humanos que remontam a milhares de anos.

Contudo, os testes genéticos feitos recentemente a esta amostra revelaram-se uma surpresa para os cientistas: o PP-00128 pertencia a um fiel companheiro canino que caminhou ao lado de humanos no novo mundo gelado das Américas há cerca de 10.150 anos.

A análise aos restos mortais mais antigos de um cão domesticado descobertos até agora nas Américas, publicada na revista Proceedings of the Royal Society B, não só fornece pistas importantes sobre quando é que os cães entraram nas Américas pela primeira vez e as rotas que fizeram ao lado dos humanos para chegar ao continente, como também reforça o longo e profundo vínculo entre pessoas e cães domesticados.

“Mesmo que não consigamos imaginar como era a vida das pessoas há 10.000 anos, conseguimos perceber a relação entre as pessoas e os seus cães”, diz Carly Ameen, zooarqueóloga da Universidade de Exeter que não participou no estudo.

Rastrear impressões de pegadas por toda a América

Embora esta seja a evidência física mais antiga de cães domesticados nas Américas, o fragmento de fémur não pertence necessariamente a um dos primeiros cães a chegar ao continente americano vindo do nordeste da Ásia. Os locais de enterro de vários cães encontrados em 2018 no Illinois tinham cerca de 9.910 anos. Com uma diferença de apenas alguns séculos, o título de “mais antigo” pertence agora ao cão do Alasca PP-00128. Mas os arqueólogos estão mais interessados no facto de agora saberem que havia cães com idades muito semelhantes em duas partes muito diferentes da América do Norte. Isto significa que os cães chegaram à América muito antes disso – mas quando é que chegaram?

De acordo com as evidências genéticas descobertas recentemente, na época em que um terço da América do Norte estava debaixo de gelo, durante o Último Máximo Glacial (LGM), entre há cerca de 26.500 e 19.000 anos, as pessoas tinham cada vez mais encontros com lobos na Sibéria, onde os refúgios relativamente temperados forneciam presas que ambos podiam caçar e comer. Esses lobos tornaram-se gradualmente em cães domesticados algures entre há 40.000 e 19.000 anos. (Lobos que na antiguidade brincavam com humanos podem ter evoluído para os cães amigáveis de hoje.)

Através de um projeto multidisciplinar de investigação que analisa as histórias dos animais, do clima e do ambiente da América na época em que a cobertura de gelo aumentou e recuou, os cientistas estão a revelar a genética dos ossos escavados na região, incluindo os fragmentos do espécime PP-00128 que estão guardados no Museu da Universidade do Alasca. Charlotte Lindqvist, bióloga evolucionista da Universidade de Buffalo e coautora deste novo estudo, estava interessada em perceber o que os ursos estavam a fazer naquela época. Pensava-se que um dos ossos, o do espécime PP-00128, que originalmente foi escavado na Lawyer’s Cave no Canal Blake do Alasca, pertencia a um urso.

Embora a análise genética provasse que o PP-00128 não pertencia a um urso, não foi possível extrair o perfil completo do ADN nuclear do cão a partir do minúsculo fragmento ósseo. Mas foi recuperado o seu ADN mitocondrial – uma pequena fração de todo o genoma herdado apenas da linhagem materna. A análise da equipa multidisciplinar sugere que o cão pertencia a uma linhagem que se separou dos seus primos caninos siberianos há cerca de 16.700 anos – aproximadamente a época em que os humanos podiam estar a viajar para a América do Norte ao longo da costa.

Mas mesmo esse ponto no tempo pode não representar o momento em que alguns cães siberianos seguiram os humanos pela primeira vez para as Américas. A não ser que existissem poucos cães, as populações de cães que permaneceram na Sibéria não devem ter tido todas a mesma mãe que os cães das populações americanas, diz Krishna Veeramah, geneticista populacional da Universidade Stony Brook que não participou neste trabalho. Os cães de ambos os grupos provavelmente partilharam um antepassado comum muitas gerações antes, muito antes de seguirem caminhos separados.

Pensava-se que este minúsculo fragmento de fémur, denominado PP-00128, pertencia a um urso, mas a análise genética revelou que pertence a um cão domesticado.

Fotografia de UNIVERSIDADE DE BUFFALO

Por outras palavras, a marca dos 16.700 anos pode representar o momento em que a sua genética divergiu, mas pode não ser necessariamente o ponto em que as populações se separaram – pelo que esta data não pode ser usada para determinar quando é que os cães domesticados entraram pela primeira vez nas Américas.

Tal como acontece com a chegada dos humanos às Américas, as linhas cronológicas para a chegada dos primeiros caninos ao continente permanecem difusas. (Por exemplo, ainda não existem evidências que confirmem se as primeiras migrações humanas incluíram cães, ou se os nossos amigos de quatro patas surgiram um pouco mais tarde.) Mas a descoberta de que este cão domesticado viveu na costa do Alasca quando o gelo costeiro da região estava rapidamente a retroceder oferece indícios sobre as rotas que os humanos podem ter tomado.

Os cientistas querem descobrir se os humanos entraram nas Américas através de corredores terrestres, nas camadas em degelo da Cordilheira e Laurentide, ou se seguiram a costa do Pacífico até regiões no sul. “Tenho a certeza de que a migração aconteceu em ambos os locais”, diz Charlotte Lindqvist, mas as evidências geológicas mostram que o gelo ao longo da rota costeira recuou mais cedo, fornecendo um ponto de acesso inicial ao Novo Mundo.

‘Canivete suíço’ com pelo

A análise isotópica do PP-00128 revelou que este cão tinha uma dieta que incluía coisas como carne de peixe, baleias e focas – provavelmente restos oferecidos pelos seus companheiros humanos. Embora não se saiba como é que este cão pode ter sido em vida, os especialistas conseguem arriscar um palpite com algumas inferências razoáveis.

Robert Losey, arqueólogo da Universidade de Alberta que concentra o seu trabalho nas relações entre humanos e animais, especula que, se este cão fosse semelhante aos outros cães siberianos da antiguidade, teria sido um tanto ou quanto grande, talvez com 25 a 30 quilos. “Seria de esperar que este cão tivesse um comportamento semelhante aos dos nossos próprios cães, e que estivesse bem adaptado aos ambientes frios. Provavelmente também participava nas caçadas e transportava carga em trenós”, diz Robert.

“Se uma pessoa quiser um cão americano antigo, a coisa mais próxima que consegue é um husky siberiano ou do Alasca, ou um malamute ou um cão de trenó da Gronelândia”, diz Angela Perri, arqueóloga da Universidade de Durham, em Inglaterra, que não participou neste novo estudo.

Angela compara os cães a uma espécie de “canivete suíço” devido aos diferentes propósitos que têm servido ao longo da história – enquanto caçadores, cães de guarda, sistemas de alarme, aquecedores corporais e fontes de apoio emocional.

Mas Angela também salienta que os registos etnográficos nos dizem que, no Ártico, quando as pessoas ficam desesperadas, quando os tempos ficam difíceis, os cães são usados pelas suas peles e enquanto fontes de alimento. Para os cães que entravam nas Américas, o seu propósito pode ter alterado ao longo do tempo, dependendo de como eram as condições em determinados momentos durante as viagens.

Esboço rudimentar da história

Depois de chegarem às Américas, os cães siberianos da antiguidade espalharam-se pela América do Norte e do Sul, onde se misturaram com coiotes e lobos e, eventualmente, com cães vindos de outros lugares, incluindo as raças árticas levadas pelo povo Thule há cerca de mil anos.

Infelizmente, a linhagem genética destes cães mais antigos foi quase aniquilada há poucos séculos atrás, quando os colonos europeus levaram os seus próprios cães para o continente, matando os antigos caninos através de abates e doenças. Mas, graças ao trabalho genético e a descobertas fortuitas, a história destes animais não caiu no esquecimento. “E, como mostra esta última descoberta, existe um enorme tesouro de dados nas nossas arrecadações e armazéns”, diz Carly Ameen.

Com o passar do tempo e com um trabalho arqueológico cuidadoso, a vasta região selvagem do Alasca também irá revelar os seus segredos sobre as primeiras chegadas de humanos e respetivos companheiros caninos.

“As respostas para todas estas questões estão apenas algures à espera”, diz Angela Perri. “Não há outros animais que se relacionem com os humanos da mesma forma que os cães, certo?”

“A história dos cães é a história dos humanos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados