A viagem ousada para chegar aos famosos budas do Afeganistão – antes de desaparecerem

Vinte anos após a destruição dos antigos Budas de Bamiyan, tudo o que resta são espaços vazios – e memórias.

Fotografias Por Pascal Maitre
Publicado 30/03/2021, 13:13 WEST
bamyan buddhas 7

O maior dos dois Budas de Bamiyan ainda estava no vale central do Afeganistão quando o fotógrafo Pascal Maitre visitou a região em 1996. Cinco anos depois – faz este mês 20 anos – os budas foram destruídos pelos talibã.

A primeira, segunda e terceira tentativas de Pascal Maitre para visitar as colossais esculturas de buda esculpidas nas encostas do Vale de Bamiyan, no Afeganistão, foram inúteis. Estávamos em julho de 1996 e este fotógrafo francês estava em Cabul ao serviço da revista L'Express. A viagem de Cabul até Bamiyan tinha uma distância de pouco mais de 160 quilómetros, mas todas as manhãs o seu motorista cancelava a viagem, mesmo quando Pascal se ofereceu para pagar mais.

Grupos armados estavam a controlar vários pontos ao longo da rota e os veículos com tração às quatro rodas tinham muita procura. Os afegãos sabiam que os seus carros seriam apreendidos assim que tentassem passar. Por fim, Pascal pediu ajuda a um amigo. Poucos dias depois, passou tranquilamente pelos postos de controlo num autocarro cheio de passageiros, sentado entre eles com trajes afegãos, ou Perahan Tunban.

A construção dos budas no vale de Bamiyan começou no século VI, quando a região era um movimentado centro ao longo da Rota da Seda.

Esquerda: Combatentes do grupo étnico Hazara, que viviam numa vila na base dos budas, armazenavam armas para combater os talibã antes dos fundamentalistas islâmicos assumirem o controlo do Afeganistão.
Direita: Durantes séculos, turistas, arqueólogos e peregrinos visitaram os colossais budas. A UNESCO nomeou todo o vale Património Mundial, que inclui cavernas com pinturas e mosteiros budistas.

Valia a pena fazer esta viagem arriscada para visitar Bamiyan. Construídos a partir do século VI, os budas de pedra, um com 38 metros de altura e o outro com 55, estavam ambos virados para o vale. As esculturas estavam desgastadas pelo tempo e pelos anos de negligência e guerra, mas ainda assim continuavam a ser um lembrete impressionante de que a região já tinha sido um importante ponto de paragem na Rota da Seda, e um centro de estudos budistas. Bamiyan, Património Mundial da UNESCO, atraiu turistas e arqueólogos até que o país se tornou demasiado instável para os receber.

Pascal já tinha estado no Afeganistão várias vezes, mas nunca em Bamiyan. No topo de uma colina, ele admirou os budas, os campos de trigo a seus pés e as montanhas Hindu Kush em pano de fundo. O vale estava repleto de homens armados do grupo étnico Hazara, que há muito tempo controlava a região. Estes homens estavam a armazenar armas e munições nas cavernas em torno dos pés dos budas para ajudar na luta contra os talibã, o movimento fundamentalista islâmico que lutava para controlar o país. Os refugiados de guerra que regressavam do Paquistão também tinham feito as suas casas neste local. As cavernas também são consideradas Património da Humanidade, e os seus tetos estão decorados com pinturas a óleo do século VII que figuram entre as mais antigas do mundo.

Combatentes Hazara passam pelos Budas de Bamiyan. Em 1996, quando esta fotografia foi tirada, a região também estava cheia de refugiados afegãos que regressavam do exílio no Paquistão.

Poucos meses depois da visita de Pascal, os talibãs assumiram o controlo de Cabul e estabeleceram o Emirado Islâmico do Afeganistão. Ao início, os talibã respeitaram os famosos budas e, quando um comandante disparou contra as estátuas, emitiram uma ordem para proteger o património cultural afegão. Mais tarde, provavelmente frustrados com a falta de reconhecimento internacional e com o aumento das sanções norte-americanas, os líderes talibã mudaram de ideias.

Em março de 2001, os talibã colocaram explosivos na base dos budas e reduziram-nos a uma pilha de escombros. Passaram-se algumas semanas até que os budas com 1.500 anos entrassem em colapso total. Vinte anos mais tarde, Pascal acredita que as suas fotografias estão entre as últimas tiradas com as estátuas ainda de pé.

Um mural numa caverna perto dos Budas de Bamiyan data de uma época em que os monges budistas ainda viviam na região. Algumas das artes deixadas para trás estão entre as pinturas a óleo mais antigas do mundo.

“Foi um desastre”, diz Pascal. “Foi um dos primeiros patrimónios mundiais a ser destruído… o que chocou as pessoas foi muitos outros lugares terem sido destruídos para serem pilhados. Mas com os budas, ninguém os saqueou. Limitaram-se a destruí-los. Nesse momento, foi quando o mundo começou realmente a perceber que algo tinha mudado: já não havia respeito pelo património mundial.”

Pascal regressou à região em 2006, quando os budas já tinham desaparecido e tudo o que restava era um espaço gigante e vazio na encosta da montanha. Um grupo de arqueólogos afegãos estava no local à procura de um terceiro buda – ainda maior que os outros dois e supostamente esculpido numa posição horizontal. Foi a primeira vez que Pascal viu a destruição em pessoa, e foi difícil compreender como é a preciosa história cultural tinha sido obliterada.

“Temos este buraco enorme, não sobrou nada”, recorda Pascal. “Eu não conseguia compreender. Eu já os tinha visto – e depois desapareceram.”

Esquerda: Quando o fotógrafo Pascal Maitre visitou a região em 1996, os Budas de Bamiyan já tinham passado por anos de conflito que os marcaram e fragmentaram – mas ainda estavam de pé.
Direita: Em março de 2001, os talibã colocaram explosivos na base dos budas e reduziram-nos a uma pilha de escombros. Pascal Maitre regressou ao local cinco anos depois para fotografar os nichos vazios onde os budas estavam.

Os líderes dos talibã comprometeram-se inicialmente a não destruir a herança cultural do Afeganistão. Mas em 2001, frustrados com a falta de reconhecimento internacional e com o aumento das sanções dos EUA, abandonaram esse compromisso.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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