Estudo de ADN de vítimas de massacre com 6.200 anos levanta mais questões do que respostas

Os arqueólogos presumiam que uma enorme família tinha morrido de forma violenta há milhares de anos, mas o maior estudo genético feito até agora sobre um assassinato em massa sugere o contrário.

Publicado 16/03/2021, 11:32 WET
Three perimortem penetrating injuries

Algumas vítimas do massacre de Potocani receberam vários golpes mortais no crânio.

Fotografia de M. NOVAK, INSTITUTO DE PESQUISA ANTROPOLÓGICA

Há cerca de 6.200 anos, um grupo de pelo menos 41 homens, mulheres e crianças foram brutalmente assassinados antes de serem enterrados numa vala comum onde atualmente fica o leste da Croácia. Os arqueólogos que descobriram inicialmente esta sepultura em 2007 interrogavam-se se as vítimas pertenciam todas a uma comunidade inter-relacionada destinada a execução. Mas uma nova análise publicada na revista PLOS ONE – que inclui aquele que é o maior estudo genético feito até agora sobre um massacre da antiguidade – revela que, na sua maioria, as vítimas não tinham ligações entre si. Esta descoberta surpreendente levanta mais questões do que respostas: nomeadamente, por que razão foram estes indivíduos assassinados e quem os matou?

“Essa é a pergunta de um milhão de dólares”, diz o autor principal do estudo, Mario Novak, arqueólogo do Instituto de Pesquisa Antropológica de Zagreb, na Croácia. “Simplesmente não sabemos. E a não ser que alguma prova arqueológica bastante evidente seja encontrada nas proximidades, não me parece que alguma vez o iremos descobrir”, acrescenta Mario.

Sepulturas debaixo da garagem

O local deste massacre da antiguidade foi descoberto acidentalmente durante a construção de uma garagem na aldeia croata de Potočani. A vala funerária – com dois metros de largura e um metro de profundidade – continha os restos esqueléticos de pelo menos 41 pessoas, alguns ainda articulados e outros desfeitos em pedaços.

Os arqueólogos da equipa de arqueologia da Universidade de Zagreb, que por acaso estavam por perto quando foram chamados, presumiram que os restos mortais pertenciam a vítimas de um conflito moderno, talvez da Segunda Guerra Mundial ou do conflito dos Balcãs da década de 1990. Mas as observações iniciais não revelaram balas ou uniformes, e os dentes não mostravam traços modernos.

As escavações adicionais revelaram fragmentos de cerâmica e a datação por radiocarbono de três ossos humanos revelou que o local tinha 6.200 anos. Com base na data, local e tipo de cerâmica encontrada, os investigadores concluíram que as vítimas pertenciam à cultura Lasinja.

Sabe-se muito pouco sobre esses povos, diz Mario, e só foi escavado mais um local funerário na Croácia associado à cultura Lasinja. “Este é um dos complexos culturais pré-históricos menos estudados na região.” Os trabalhos feitos anteriormente noutro local funerário sugerem que estas pessoas eram pastores que se mudavam com o gado para diferentes áreas de pastagem, dependendo da estação do ano. E também extraíam cobre para fazer ferramentas.

O trabalho bioarqueológico identificou 21 homens e 20 mulheres, incluindo adultos de até 50 anos, e adolescentes e crianças, algumas com apenas dois anos de idade. Rapidamente ficou claro que estas pessoas não tinham morrido de algo que se aproximasse de causas naturais.

Três homens, quatro mulheres e seis crianças foram encontrados com danos nas laterais ou na parte posterior do crânio. Estes ferimentos letais – fraturas por trauma contuso, esfaqueamento, lesões perfurantes e cortes – foram executados com armas ou ferramentas, talvez machados de pedra, bastões ou instrumentos metálicos. As armas do crime não foram encontradas no local, mas parece que os ferimentos foram infligidos durante um só evento no tempo.

Particularmente sombrio é o facto de alguns crânios apresentarem vários ferimentos. “Para a maioria das pessoas, um golpe seria suficiente”, diz Mario. “Mas temos dois ou três indivíduos com quatro ferimentos no crânio. Isto foi algum tipo de excesso ou exagero.”

Os arqueólogos pensaram inicialmente que a vala comum em Potocani, na Croácia, pertencia a vítimas da Segunda Guerra Mundial ou ao conflito dos Balcãs da década de 1990.

Fotografia de J. BALEN, MUSEU ARQUEOLÓGICO EM ZAGREB

Uma história de violência

Porém, o que ficou evidente é que este massacre não resultou de uma guerra: as valas comuns resultantes de combates geralmente apresentam adolescentes ou adultos do sexo masculino, não mulheres e crianças. Também não havia lesões faciais ou feridas nos antebraços das vítimas, que acontecem quando as pessoas levantam instintivamente os braços para se defenderem de ataques. Estas pessoas provavelmente estavam imobilizadas, talvez ajoelhadas com as mãos amarradas.

“Eles não se estavam a defender”, diz Mario. “Eu diria que foi uma execução em massa planeada antecipadamente.”

O local do massacre de Potočani não é o primeiro encontrado a datar da pré-história da Europa – por exemplo, outra vala comum um pouco mais antiga em Halberstadt, na Alemanha, está cheia de vítimas com golpes direcionados na parte de trás da cabeça.

“As lesões cranianas são semelhantes às de outros massacres em que trabalhei – e também são infelizmente muito semelhantes em termos de localização e faixa etária”, diz Trish Biers, osteologista e paleopatologista da Universidade de Cambridge que não participou neste trabalho.

Na esperança de conseguir aprender mais sobre as vítimas de Potočani, a equipa de investigação recolheu amostras de ADN de 38 indivíduos. Os resultados revelam que todos tinham a mesma ancestralidade genética: juntamente com um pouco de ancestralidade de sociedades de caçadores-coletores da Europa Ocidental, os antecessores destas pessoas vieram da Anatólia, que agora forma grande parte da Turquia. Estas pessoas levaram a agricultura para a Europa há cerca de 8.500 anos. Poucos milénios depois, alguns dos seus descendentes vaguearam pelos Balcãs com gado.

Embora alguns dos mortos fossem intimamente relacionados – por exemplo, a análise de ADN identificou um homem, as suas duas filhas e o sobrinho – cerca de 70% dos indivíduos não tinham parentesco. Isto sugere que as vítimas faziam parte de uma comunidade maior composta por várias famílias.

Esquerda: Os arqueólogos identificaram sinais de trauma por contusão nos crânios de um menino (em cima) e de uma mulher adulta (em baixo).
Direita: Um dos jarros de cerâmica (reconstruído) encontrado na vala comum é típico da antiga cultura Lasinja.

Fotografia de M. NOVAK, INSTITUTO DE PESQUISA ANTROPOLÓGICA (esquerda); I. KRAJCAR, MUSEU ARQUEOLÓGICO EM ZAGREB (direita)

A ameaça fantasma

Trish Biers diz que o seu trabalho em sítios arqueológicos, tanto na América do Norte como do Sul, demonstra que pessoas que não tinham necessariamente parentesco ao nível genético formavam grupos de parentesco social que eram determinados pelas suas ocupações, como pescadores, agricultores ou artesãos.

“Contudo, estas relações de parentesco social são coisas que não conseguimos inferir pela genética”, diz Christiana Scheib, arqueóloga especializada em ADN antigo na Universidade de Cambridge que não participou no estudo. Idealmente, os túmulos na área que não fossem de um massacre forneceriam uma imagem de como teria sido a distribuição normal dos mortos, tanto geneticamente como em termos de grupos de parentesco. Mas, até ao momento, a vala comum de Potočani está isolada; não foram encontrados assentamentos adjacentes.

Para adensar o mistério, não se sabe nada acerca dos próprios assassinos. “Não temos quaisquer vestígios das pessoas que cometeram esta atrocidade”, diz Mario. Os assassinos podem ter pertencido a um grupo rival, podem ter vindo de outro lugar ou até de mais perto. Podiam até pertencer à mesma população que as vítimas.

É impossível especular sobre um motivo. Outros sítios de massacres e episódios de violência em massa da pré-história europeia foram atribuídos a fatores antagónicos, como xenofobia ou alterações climáticas, quando as secas provocavam escassez de recursos e subsequente violência. “Mas em Potočani não temos quaisquer indicação de alterações climáticas neste período de tempo”, diz Mario.

A única coisa perfeitamente evidente é a de que este tipo sombrio de comportamento humano tem persistido durante milénios. Os assassinatos em massa já acontecem pelo mundo inteiro há pelo menos 13.000 anos. Embora se tenham implementado sistemas de justiça e a sociedade em geral se tenha tornado mais ordenada e menos violenta, os massacres em grande escala tornaram-se mais fáceis de executar ao longo do tempo. Os machados foram substituídos pelas armas; as tribos em guerra foram substituídas por genocídios patrocinados pelo estado.

“Se os sítios arqueológicos como o de Potočani nos dizem alguma coisa, é que as pessoas não mudaram muito nos últimos 10.000 anos”, diz Mario Novak. “Se mudaram, foi para pior.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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