O bloqueio do Canal do Suez desviou navios para uma área que é famosa por naufrágios

O Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, já reivindicou milhares de embarcações – e continua a ser traiçoeiro.

Publicado 31/03/2021, 15:14 WEST
Tempestade no Cabo da Boa Esperança

Uma nau é fustigada pelas ondas e pelo vento no Cabo da Boa Esperança, na costa da África do Sul, lar de um dos cemitérios de navios mais traiçoeiros do mundo.

Fotografia de Chronicle, Alamy Stock Photo

Na segunda-feira, quando o Canal do Suez foi finalmente desbloqueado, vários dos navios que estavam em espera já tinham optado pelo plano B. Em vez de arriscarem mais atrasos – para além de uma semana inteira, com prejuízos coletivos na ordem dos 400 milhões de dólares por hora – alguns navios de contentores optaram pela rota mais longa em torno da África do Sul.

Esta jornada, dependendo do destino, acrescenta pelo menos 10 dias de viagem e milhares de quilómetros. A rota pelo sul também é consideravelmente mais perigosa. Ao longo da história, os ventos fortes, os afloramentos rochosos e o tráfego intenso de navios fizeram do Cabo da Boa Esperança um dos cemitérios de navios mais traiçoeiros do mundo.

“Ao longo de centenas de anos, o cabo tem sido um foco de acidentes marítimos”, diz Bruno Werz, arqueólogo marítimo e chefe do Instituto Africano de Pesquisa Marinha e Submarina sediado na Cidade do Cabo. “É definitivamente mais perigoso seguir este trajeto, portanto é um risco calculado.”

Bruno Werz e outros investigadores já realizaram extensos estudos sobre acidentes marítimos nas águas da África do Sul e estimam que existam pelo menos 2.000 naufrágios nas costas sul-africanas, uma média de um naufrágio por cada quilómetro de costa. Muitas das embarcações naufragadas são relíquias da Época dos Descobrimentos e de viagens para chegar à Índia e à Ásia.

Um dos naufrágios mais antigos de que há registo, conhecido por naufrágio Soares, envolveu a primeira de centenas de naus portuguesas do século XVI que naufragaram nos rochedos sul-africanos enquanto navegavam do Atlântico para as colónias orientais. Outro dos naufrágios que ainda hoje é estudado, o Haarlem, naufragou em 1647 em Table Bay; e o posto avançado estabelecido pelos seus sobreviventes foi o precursor da moderna Cidade do Cabo.

Cabo das Tormentas

Acredita-se que o nome desta região se deve ao historial de condições adversas. Em 1488, o explorador português Bartolomeu Dias tentou chegar à Índia numa viagem que o levou a contornar o ponto sul de África. De acordo com uma história onde mito e facto se tornaram indissociáveis, Bartolomeu Dias regressou a Portugal para reportar ao rei D. João II e disse que as condições em torno do cabo eram tão intensas que o chamou Cabo das Tormentas.

Esquerda: Acredita-se que o Flying Dutchman, um suposto navio fantasma, naufragou ao largo do Cabo da Boa Esperança. Revistas como a Harper’s Monthly publicaram ilustrações sobre esse mito.
Direita: A Collier’s Weekly publicou esta ilustração com o comandante do Flying Dutchman, que estaria condenado a navegar pelos mares até ao Dia do Julgamento.

Fotografia de PYLE, HOWARD, DELAWARE ART MUSEUM

Um mapa italiano do Cabo da Boa Esperança criado durante a Época dos Descobrimentos.

Fotografia de Jacopo Russo, Alinari Archives/ Art Resource, NY (pintura)

D. João II, que não estava a bordo da nau fustigada pelo vento, ficou tão entusiasmado com a descoberta de Bartolomeu Dias que ordenou que o cabo se chamasse Cabo da Boa Esperança, porque oferecia uma perspetiva promissora de alcançar os mercados na Índia.

Provavelmente, milhares de comandantes de navios concordariam com Bartolomeu Dias. Na era moderna, as estatísticas mostram que os navios naufragam com taxas mais elevadas em torno deste cabo do que em muitos trechos de oceano aberto. Em 1911, um ano antes de o Titanic naufragar no Atlântico, o transatlântico SS Lusitania (um navio diferente do RMS Lusitania que naufragou perto da Irlanda) confundiu o farol da Cidade do Cabo com o ponto mais meridional do continente, guinou demasiado e bateu em terra. Nos anos anteriores, dezenas de outros navios também tinham interpretado mal a costa – um fenómeno que fez com que o farol fosse movido mais para sul.

Em 1942, durante a sua viagem inaugural, o navio de tropas americano SS Thomas Tucker encalhou em Cape Point e deu à costa numa região agora conhecida por “Trilho dos Naufrágios”. Em 1965, depois de um navio holandês que transportava whisky naufragar, o seu comandante conseguiu conduzir o navio até à costa para salvar a carga. Em 1994, um enorme batelão francês que transportava um guindaste separou-se do rebocador e andou à deriva até encalhar nas rochas. Era demasiado grande para ser resgatado e foi abandonado.

Vendavais da Latitude 40

O clima feroz em torno da península do Cabo vem de uma corrente de ar do sul que sopra em torno de toda a circunferência terrestre e tem início na latitude 40 graus sul. Sem obstáculos de massas de terra tão a sul, este vento confere à região o seu apelido centenário, “Vendavais da Latitude 40. E a situação piora à medida que os navios vão mais para sul, para os “Furiosos 50” e “Gritantes 60”.

Pessoas na costa do Cabo da Boa Esperança assistem ao incêndio de um navio naufragado na década de 1950.

Fotografia de Jorgehsen, Three Lions/Getty Images

Ao longo da história, o vento tem sido tanto uma dádiva como um fardo para os marinheiros, dependendo da direção para onde navegam. O vento intenso pode empurrar os navios para leste através do Pacífico, por exemplo, a uma velocidade vertiginosa. Mas seguir o caminho oposto pode demorar semanas, por vezes meses. E depois de uma longa jornada em mar aberto, uma massa de terra repentina como o Cabo da Boa Esperança – ou o Cabo Horn na América do Sul – pode fazer com que o vento se comporte de maneira errática e desviar rapidamente os navios das suas rotas.

Navios de contentores da atualidade

Atualmente afundam-se muito menos navios em torno do Cabo da Boa Esperança do que nos séculos anteriores. O Canal do Suez, quando ficou concluído em 1869, ofereceu uma rota mais segura, curta e económica para os maiores navios do mundo, ou aqueles que transportam as cargas mais valiosas.

Em geral, hoje há muito menos risco em navegar por águas perigosas devido a uma combinação de fatores: navegação por GPS, previsão do tempo, ancoragem automatizada e, em algumas embarcações, um sistema conhecido por posicionamento dinâmico que usa motores sincronizados para evitar que um navio vire.

Mas os naufrágios ainda acontecem, alguns devido a erro humano ou a mau tempo inesperado. Em 2003, o navio cargueiro Sealand Express transportava 33 contentores – uma pequena fração da carga dos grandes navios da atualidade, que podem transportar mais de 10.000 contentores. O Sealand Express encalhou num banco de areia perto da Cidade do Cabo depois de arrastar a sua âncora devido a ventos fortes, um incidente atribuído a uma tripulação de reação lenta. Este acidente aconteceu em agosto, no final do inverno no hemisfério sul, que traz ventos excecionalmente fortes. A época ventosa começa em março.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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