O que nos dizem os rostos das notas sobre um país?

Enquanto símbolo tangível de identidade de uma nação, o dinheiro é uma janela para a história – desde a reconciliação da África do Sul com o apartheid aos desafios de construir um país unificado após a guerra civil na Bósnia.

Fotografias Por Janusz Pieńkowski
Publicado 29/03/2021, 14:53
Os rostos de algumas notas.

Os rostos de algumas notas.

Fotografia de NINA WESCOTT (MOSAICO)

Gravado com lemas, emblemas e imagens históricas, o dinheiro é um dos símbolos mais tangíveis da identidade de uma nação. À medida que essa identidade evolui, o mesmo acontece com o design das suas notas e moedas – mas este processo pode ser complicado.

Tem sido assim nos Estados Unidos, país que quer colocar o rosto da abolicionista Harriet Tubman nas notas de 20 dólares, substituindo o ex-presidente dos Estados Unidos Andrew Jackson. Embora o Tesouro dos EUA tivesse a esperança de emitir o projeto em 2020, a tempo do centenário do sufrágio feminino, o plano arrastou-se sob o presidente Donald Trump que o criticou como sendo “politicamente correto”. Contudo, o governo de Biden anunciou agora que vai avançar com o redesenho.

Em suma, como é que os países determinam quais são os retratos a apresentar nas suas divisas, e o que isso nos diz sobre o seu passado? Segue-se um olhar sobre as notas de vários países e as histórias responsáveis pela sua criação – desde negociações delicadas para criar uma moeda na Bósnia no início da guerra civil, às nações que usaram as suas divisas como uma forma de abandonar o colonialismo e de reconciliação com um passado de racismo.

Esquerda: Muitos países usam as suas notas como uma forma de homenagem aos seus primeiros líderes. Seewoosagur Ramgoolam liderou o movimento para acabar com o domínio colonial britânico nas Ilhas Maurícias. Em 1968, Seewoosagur tornou-se no primeiro-ministro do país e agora aparece na nota de 2.000 rúpias.
Direita: Celebrado como o “pai da nação”, Michael Somare foi um dos políticos que liderou os esforços para que Papua Nova Guiné fosse independente da Austrália em 1975. Michael Somare, que agora aparece na nota de 50 kinas, foi o primeiro primeiro-ministro do país e o que se manteve mais tempo no cargo.

Fotografia de NG

Estados Unidos

Em 1866, gerou-se uma controvérsia quando o Tesouro dos EUA emitiu uma nota de cinco cêntimos com o retrato de Spencer Clark, o primeiro diretor do que agora se conhece por Bureau of Printing and Engraving. Spencer Clark não era bem visto por alguns membros do Congresso, que o tinham acusado anos antes por fraude e “imoralidade grosseira”. (Um comité do Congresso rejeitou essas acusações.)

Após protestos públicos, o Congresso aprovou uma lei no dia 7 de abril de 1866 onde proibia o “retrato ou imagem de qualquer pessoa viva” na moeda do país. A lei dos EUA ainda proíbe atualmente a utilização de imagens de pessoas vivas, e as próprias moedas comemorativas que homenageiam um ex-presidente só podem ser emitidas dois anos após a morte de um presidente.

Na era moderna, o país tem geralmente celebrado ex-presidentes e os fundadores da nação na sua moeda – com retratos de George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln, Alexander Hamilton, Ulysses S. Grant e Benjamin Franklin a enfeitarem as suas notas.

Bósnia-Herzegovina

As notas da Bósnia-Herzegovina têm imagens dos escritores mais famosos do país, mas esta decisão foi tomada para evitar conflitos, não tanto como uma forma de admiração literária. Em 1995, os Acordos de Dayton colocaram um final aos anos de guerra civil na Bósnia e criaram um só estado com duas partes, a República Sérvia e a federação da Bósnia-Herzegovina.

A nova nação teria uma moeda única, o marco conversível da Bósnia, mas emitiria duas versões de cada denominação para refletir a identidade cultural de cada lado. Mas as notas continuavam a precisar de coesão, e as submissões iniciais foram rejeitadas por violarem essa exigência – incluindo um design polémico com o herói sérvio Gavrilo Princip, famoso por desencadear a Primeira Guerra Mundial ao assassinar o arquiduque austro-húngaro Franz Ferdinand.

Esquerda: No rescaldo de uma amarga guerra civil, a Bósnia-Herzegovina criou duas versões de cada nota para representar a sua identidade cultural dividida. Assim, algumas das notas de 50 marcos do país apresentam o poeta bósnio do século XX Musa Ćazim Ćatić, aqui retratado, e outras homenageiam o poeta sérvio Jovan Dučić.
Direita: Da mesma forma, uma versão da nota de 100 marcos do país apresenta o escritor e ativista sérvio Petar Kočić, aqui retratada, e a outra tem a imagem do poeta bósnio-croata Nikola Šop.

Fotografia de NG

Os debates sobre o design das notas arrastaram-se durante tanto tempo que o banco do país se viu obrigado a emitir cupões quando foi inaugurado em 1997, de acordo com o economista americano Warren Coats, que ajudou a estabelecer o banco. Eventualmente, ambos os lados concordaram em usar retratos de escritores – e até fizeram algumas escolhas em comum, já que ambos selecionaram a romancista Meša Selimović para as suas notas de cinco marcos. Esta nota já foi descontinuada, mas em 2002 o país criou uma nova nota de 200 marcos com o escritor Ivo Andric, vencedor do Prémio Nobel.

Nova Zelândia

“O design das notas da Nova Zelândia tem sido um teste inadvertido sobre a imagem que o país tem da sua própria evolução desde que começou a emitir moeda em 1934”, de acordo com o historiador Matthew Wright. As primeiras notas deste domínio britânico refletiam uma identidade dividida, com motivos britânicos e locais. As primeiras séries tinham um retrato do rei Māori Tawhaio, cuja imagem foi substituída em 1940 pelo Capitão James Cook, o explorador britânico que “descobriu” a Nova Zelândia.

A Nova Zelândia tornou-se nação autónoma em 1947 – mas em 1967, mais de 20 anos depois, ainda se orgulhava da sua associação com a Grã-Bretanha. A Rainha Isabel II substituiu James Cook em todas as denominações, juntamente com plantas e aves indígenas.

Esquerda: A rainha Isabel II numa nota de dois dólares canadiana de 1954. O Canadá tornou-se no primeiro país a incluir a imagem da rainha na sua moeda em 1935. A Grã-Bretanha iria imprimir a sua primeira nota com a rainha 25 anos mais tarde.
Direita: A rainha Isabel II figura nas divisas de mais de 30 países – mas muitos já removeram a imagem da rainha após deixarem o domínio colonial da Grã-Bretanha. Em 1991, a Nova Zelândia redesenhou a sua moeda para apresentar figuras locais, como o líder maori Sir Apirana Ngata, que aparece na nota de 50 dólares.

Fotografia de NG

Porém, no final do século XX, a Nova Zelândia começou a considerar-se uma nação diversa e soberana. Em 1991, cinco anos após conquistar legalmente a independência total da Grã-Bretanha, a Nova Zelândia removeu a Rainha de todas as suas notas e moedas, exceto da nota de 20 dólares, e substituiu-a por neozelandeses proeminentes – incluindo a líder do sufrágio feminino Kate Shepperd, o montanhista Sir Edmund Hillary, o líder político e cultural Apirana Ngata e o físico Ernest Rutherford, vencedor do Prémio Nobel – que ainda hoje figuram nas notas.

África do Sul

Tal como na Nova Zelândia, a evolução das notas na África do Sul reflete a reconciliação da nação com a sua história colonial. Em 1961, depois de se tornar independente da Grã-Bretanha, o país emitiu as suas primeiras notas. Contudo, para homenagear as raízes colonialistas, cada nota tinha um retrato de Jan van Riebeeck, explorador holandês que fundou em 1652 a estação comercial que se tornaria na Cidade do Cabo

Jan van Riebeeck permaneceu o rosto da moeda sul-africana durante três décadas. Em 1992, enquanto a África do Sul tentava desmantelar o seu sistema racista do apartheid, Riebeeck foi finalmente substituído pelos icónicos “cinco grandes” animais – rinoceronte, elefante, leão, búfalo-do-cabo e leopardo – que eram considerados mais representativos (e aceitáveis) para os sul-africanos.

Vinte anos mais tarde, a África do Sul fez outra grande mudança. Em 2012, o país emitiu novas notas com o primeiro presidente negro do país e ativista anti-apartheid Nelson Mandela. “A moeda de um país é um componente fundamental da sua identidade nacional”, disse o governador do Banco da Reserva da África do Sul, Gill Marcus, explicando que o novo design “refletia o orgulho da África do Sul enquanto nação”. Nelson Mandela continua a ser o rosto da moeda sul-africana – e, em 2018, o país chegou a emitir uma série de notas comemorativas que retratam cenas da vida de Mandela para comemorar o 100º aniversário do seu nascimento.

Esquerda: Em referência ao seu passado colonial, as primeiras notas emitidas pela África do Sul após conseguir a independência em 1961 apresentavam Jan van Riebeeck, um explorador holandês do século XVII que fundou o entreposto comercial que se tornaria na Cidade do Cabo. Riebeeck permaneceria nas divisas durante 30 anos.
Direita: Hoje, Nelson Mandela, o primeiro presidente negro do país, aparece em todas as denominações da África do Sul como um símbolo do movimento anti-apartheid.

Fotografia de NG

Mongólia

A história monetária da Mongólia remonta ao domínio de Genghis Khan no século XIII. Genghis Khan transformou a economia pastoral desta nação em potência global, criando o maior império contíguo da história. Embora Genghis Khan tenha introduzido moedas de ouro e prata no império, seria o seu neto, Kublai Khan, a implementar o papel-moeda.

A Mongólia manteve as coisas relativamente simples com apenas duas figuras proeminentes nas suas notas: o seu famoso e antigo governante Genghis Khan e o herói revolucionário Damdin Sükhbaatar, que liderou o exército mongol à vitória sobre os ocupantes chineses em 1921.

Esquerda: Alguns países inspiram-se na sua história para refletir o orgulho nacional. Na Mongólia, Genghis Khan aparece nas denominações mais altas da moeda mongol, desde os 500 aos 20.000 tugriques. Este governante do século XIII conquistou grande parte da Eurásia para construir o maior império contíguo da história.
Direita: Na Tunísia, a nota de cinco dinares apresenta outro antigo comandante militar que ajudou a construir um império. O general cartaginês Aníbal ainda é conhecido atualmente pelas suas heroicas batalhas contra Roma na Segunda Guerra Púnica em 218 a.C.

Fotografia de NG

Um retrato de Damdin Sükhbaatar apareceu pela primeira vez nas notas do país em 1939, celebrando o seu papel no estabelecimento do governo comunista da República Popular da Mongólia. Este herói de guerra continuaria a dominar a moeda mongol durante mais de 50 anos, até à década de 1990. Desde 1993, Genghis Khan tem sido o destaque nas notas de valor mais elevado – desde os 500 aos 20.000 tugriques – enquanto Damdin Sükhbaatar ainda aparece em denominações menores.

República Dominicana

A nota de 200 pesos da República Dominicana homenageia três irmãs que organizaram um movimento de resistência contra o ditador Rafael Trujillo – e cujo assassinato deu início a uma revolução.

Depois de subir ao poder em 1930, Rafael Trujillo governou impiedosamente a República Dominicana. Trujillo mandava prender, torturar ou assassinar qualquer pessoa que falasse contra si. Na década de 1950, as irmãs Mirabal – Patria, Minerva e María Teresa – tornaram-se líderes do movimento de resistência que procurava acabar com o regime. Trujillo prendeu-as várias vezes antes de ordenar o seu assassinato no dia 25 de novembro de 1960.

Esquerda: Maria Teresa Mirabal e as suas irmãs mais velhas, Patria e Minerva, que aparecem na nota de 200 pesos da República Dominicana, para além de serem símbolos da revolução do seu país, também representam o esforço a nível mundial para acabar com a violência contra as mulheres – após terem sido brutalmente assassinadas pelo ditador Rafael Trujillo.
Direita: Na Ucrânia, a nota de 200 hryvnia homenageia uma das suas principais escritoras feministas, Lesia Ukrainka. Esta poetisa e dramaturga reconhecida internacionalmente abordou temas de igualdade de género e etnia nas suas obras publicadas na viragem do século XX.

Fotografia de NG

O regime de Trujillo terminaria um ano depois, com o seu assassinato, mas demoraria décadas até o governo reconhecer as irmãs Mirabal (também conhecidas por Las Mariposas, ou borboletas) como heroínas nacionais. Embora tenham figurado durante pouco tempo numa moeda de 25 centavos na década de 1980, as irmãs Mirabal tornaram-se no rosto da nota de 200 pesos em 2007. A ONU também designou a data do seu assassinato como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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