Tesouro com 4 mil anos sugere que mulher da antiguidade pode ter sido uma poderosa líder europeia

Os investigadores dizem que estas pródigas descobertas podem subverter a ideia de que o poder de estado é quase exclusivamente um produto das sociedades dominadas por homens.

Publicado 12/03/2021, 15:14 WET
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Este diadema de prata ainda adornava o crânio de uma mulher quando o seu túmulo de 3.700 anos foi descoberto em La Almoloya, no sudeste de Espanha.

Fotografia de J.A. SOLDEVILLA, THE ARQUEOECOLOGIA SOCIAL MEDITERRÀNIA RESEARCH GROUP, UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE BARCELONA

Um tesouro de joias ornamentadas, incluindo um diadema de prata, sugere que uma mulher enterrada há quase 4.000 anos onde atualmente fica Espanha era uma soberana que pode ter comandado o poder de um estado, de acordo com um estudo publicado na revista Antiquity. Estas descobertas levantam novos debates sobre o papel das mulheres no início da Idade do Bronze na Europa e colocam em questão a noção de que o poder de estado é quase exclusivamente um produto das sociedades dominadas por homens, afirma os investigadores.

Os restos mortais da mulher, juntamente com os de um homem que pode ter sido seu consorte, foram originalmente desenterrados em 2014 em La Almoloya, um sítio arqueológico que fica entre colinas arborizadas a cerca de 55 quilómetros a noroeste de Cartagena, no sudeste de Espanha. A datação por radiocarbono sugere que o enterro aconteceu por volta de 1700 a.C., e a sua riqueza sugere que a mulher, e não o homem, pode ter estado no topo da cadeia de comando.

“Temos duas maneiras de interpretar isto”, diz o arqueólogo Roberto Risch, da Universidade Autónoma de Barcelona, coautor do estudo. “Ou dizemos que era apenas a esposa do rei; ou dizemos o contrário, que era por si só uma personalidade política.”

Os bens encontrados em túmulos da cultura argárica mostram que as mulheres eram consideradas adultas muito mais jovens do que os rapazes – as raparigas de seis anos de idade já eram enterradas com facas e ferramentas, mas com os rapazes isso só acontecia na adolescência. Os túmulos de algumas mulheres argáricas eram reabertos gerações mais tarde para se enterrarem outros homens e mulheres, uma prática invulgar que provavelmente conferia uma grande honra. Uma investigação publicada por Roberto Risch e seus colegas em 2020 revelava que as mulheres de elite nos túmulos argáricos comiam mais carne do que as outras mulheres, sugerindo que tinham realmente poder político.

“Qual era exatamente o seu poder político, não sabemos”, diz Roberto. “Mas este túmulo em La Amoloya questiona o papel das mulheres na política [da Idade do Bronze]... questiona grande parte da sabedoria convencional.”

Antiga “princesa” sepultada com estilo

Apelidada de “Princesa de La Almoloya”, esta mulher pertencia à cultura argárica, cujo nome vem do sítio arqueológico de El Argar, a cerca de 80 quilómetros mais a sul. A cultura argárica floresceu no sudeste da Península Ibérica entre 2200 e 1500 a.C. Este povo já usava o bronze muito antes das tribos vizinhas; e muitas pessoas viviam em enormes assentamentos no topo de colinas, em vez de em pequenas quintas isoladas; e os itens encontrados nos seus túmulos indicam que tinham classes estratificadas de riqueza e estatuto social – incluindo uma classe dominante.

Roberto diz que o homem no túmulo provavelmente era um guerreiro. O desgaste nos ossos sugere que passou muito tempo a cavalgar e o seu crânio revela cicatrizes profundas de uma lesão facial grave, possivelmente uma ferida antiga sofrida em combate. Este homem atava o seu cabelo comprido com faixas prateadas e usava objetos de ouro nas orelhas, o que indica que era uma pessoa distinta.

O túmulo em La Almoloya tem um homem e uma mulher enterrados no chão de uma enorme sala de um palácio, com bancos para até 50 pessoas.

Fotografia de THE ARQUEOECOLOGIA SOCIAL MEDITERRÀNIA RESEARCH GROUP, UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE BARCELONA

Mas a mulher na mesma sepultura foi enterrada pouco tempo depois, com um esplendor particular, incluindo pulseiras, auriculares de ouro, anéis, espirais de fio de prata e o referido diadema de prata, que ainda adornava o seu crânio quando a sepultura foi aberta. Este diadema é igual aos outros seis diademas encontrados nos túmulos argáricos de mulheres ricas; com uma projeção em forma de disco distinta, geralmente usada para baixo para cobrir a testa e o nariz.

Usando o preço da prata cotado nos registos mesopotâmicos da época, os arqueólogos estimam que os bens na sepultura desta mulher em La Almoloya valiam hoje o equivalente a muitas dezenas de milhares de euros. Outros enterros de mulheres argáricas de estatuto elevado também indicam muita fortuna, mas os homens nunca foram enterrados com estas riquezas. “Isto sugere que, quando [as mulheres] eram vivas, desempenhavam um papel muito importante na gestão política da comunidade”, diz Roberto.

O local do enterro também indica que a mulher exercia uma função política. Muitos dos mortos nas comunidades argáricas eram enterrados debaixo do chão de edifícios, e este túmulo foi encontrado debaixo de uma sala com bancos para até 50 pessoas, apelidada de “parlamento” pelos investigadores. A sala em si fazia parte de um edifício elaborado que pode ter sido o palácio mais antigo de que há conhecimento na Europa Ocidental continental, diz Roberto – um lugar onde os governantes viviam e cumpriam os seus deveres.

Mulheres na cultura argárica

A ideia de que as comunidades argáricas podem ter sido governadas por mulheres faz sentido para a arqueóloga e historiadora Marina Lozano, professora na Universidade de Rovira i Virgili em Tarragona e investigadora do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES), que não participou neste estudo mais recente.

Acredita-se que este enorme edifício da Idade do Bronze em La Almoloya tenha sido um centro de poder económico e político.

Fotografia de THE ARQUEOECOLOGIA SOCIAL MEDITERRÀNIA RESEARCH GROUP, UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE BARCELONA

Marina diz que defende o seu estudo de 2020, que determinava que muitas mulheres argáricas participavam na produção de tecidos de linho e lã – um setor valioso para a economia, juntamente com a metalurgia. Portanto, as mulheres podem ter sido soberanas: “As mulheres em El Argar eram uma parte ativa da sua economia... a soberania era apenas mais um exemplo da importância das mulheres nesta sociedade.”

Mas alguns especialistas em cultura argárica são mais cautelosos em relação às novas interpretações. “As descobertas são espetaculares... é uma arqueologia de primeira linha”, diz o antropólogo Antonio Gilman, professor emérito da Universidade Estadual da Califórnia, em Northridge.

Antonio questiona se o esplendor deste túmulo deve ser associado à riqueza de um soberano, e se o edifício em La Almoloya deve ser considerado um palácio, dado que era muito menos sofisticado do que os edifícios da Idade do Bronze mais a leste na Europa, como o palácio minoico de Cnossos, em Creta. Contudo, Antonio acrescenta que isso não afeta o facto de estas descobertas serem muito importantes.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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