Visita histórica do Papa Francisco ao Iraque vista pelos olhos de um fotógrafo

Os membros da comunidade cristã cada vez mais pequena do Iraque e outros procuram esperança na primeira viagem papal ao país, apesar da pandemia e das preocupações em torno da segurança.

Por MOISES SAMAN CONFORME NARRADO A SYDNEY COMBS
Fotografias Por MOISES SAMAN
Publicado 15/03/2021, 12:07 WET
O Papa Francisco é recebido no palácio presidencial em Bagdad, pouco depois de chegar ao Iraque, ...

O Papa Francisco é recebido no palácio presidencial em Bagdad, pouco depois de chegar ao Iraque, no dia 5 de março de 2021. Francisco é o primeiro papa a visitar o Iraque. “Venho como peregrino, como peregrino penitente, para implorar ao Senhor por perdão e reconciliação depois de anos de guerra e terrorismo, para implorar a Deus a consolação dos corações e a cura das feridas”, disse Francisco em saudação ao povo iraquiano antes da sua visita.

A última vez que visitei Qaraqosh em 2016, uma cidade predominantemente cristã no norte do Iraque, a região estava sem vida. As forças iraquianas e aliados, nos seus esforços para recuperar Mossul, tinham acabado de libertar a cidade dos combatentes do ISIS. Tudo o que restava eram escombros e comida a apodrecer – todas as pessoas, os habitantes e as milícias do ISIS, tinham fugido apressadamente. Dava para sentir o que era correr pela vida.

No fim de semana passado, dei por mim novamente em Qaraqosh enquanto fotografava o Papa Francisco na sua visita histórica ao Iraque. Ao longo das ruas outrora vazias, balões coloridos balançavam agora ao sabor do vento. Os edifícios e paredes brilhavam com novas camadas de tinta branca. Multidões de seguidores, com bandeiras do Iraque e do Vaticano, aglomeravam-se na cidade para conseguir um vislumbre do pontífice.

Dias antes da visita histórica do Papa Francisco, as pessoas em Qaraqosh, uma cidade predominantemente cristã no norte do Iraque, marcharam pelas ruas em celebração. A cidade foi tomada pelas forças do ISIS em 2014, mas desde que foi libertada em 2016, muitos cristãos regressaram.

Fotografia de MOISES SAMAN

“Eu gostava que o papa viesse cá todos os anos!”, dizia um vendedor de fruta num movimentado mercado ao ar livre.

Desde que comecei a fazer reportagens a partir do Iraque, há quase 20 anos, vi o país e o seu povo a ficarem profundamente marcados pelos conflitos. No entanto, enquanto seguia Francisco, vi uma centelha de esperança e validação que nunca tinha visto antes. Para as pessoas de todas as religiões, ter uma pessoa com este estatuto a vir ao Iraque parecia um ponto de viragem – apesar da pandemia, apesar das preocupações com a segurança, apesar de todos esses obstáculos.

Francisco é o primeiro papa em funções a visitar o Iraque, mas não por falta de outras tentativas. Os papas João Paulo II e Bento XVI tentaram visitar o país, mas não conseguiram devido aos conflitos e à guerra. Quando o presidente do Iraque, Barham Salih, enviou um convite a Francisco em julho de 2019, o papa aceitou prontamente. Após um hiato de 15 meses nas viagens internacionais devido à pandemia, Francisco escolheu o Iraque como primeiro destino.

Pessoas reúnem-se para orar, acender velas e fazer pedidos perto da entrada de uma caverna conhecida como mosteiro de São Qryaqos, nos arredores de Qaraqosh. O Iraque é o lar de algumas das comunidades cristãs mais antigas do mundo. Durante séculos, os cristãos conviveram com outras religiões, incluindo o judaísmo, o islamismo e o zoroastrismo.

Fotografia de MOISES SAMAN

Esquerda: Habitantes preparam balões e bandeiras para a chegada de Francisco a Qaraqosh. Antes da queda de Saddam Hussein em 2003, viviam no Iraque 1.5 milhões de cristãos. Desde então, a população cristã caiu para um terço desses valores.
Direita: Iraquianos tentam obter um vislumbre do Papa Francisco na igreja de Nossa Senhora da Salvação em Bagdad, na sexta-feira, dia 5 de março de 2021. Em 2010, 58 cristãos foram mortos por atacantes suicidas afiliados à Al Qaeda. “As dificuldades fazem parte da experiência diária dos fiéis iraquianos”, reconheceu Francisco na igreja de Nossa Senhora da Salvação.

Mas esta viagem esteve muito perto de não acontecer. Embora o papa de 84 anos tenha sido vacinado em janeiro, muitos receavam que o vírus se pudesse propagar entre as pessoas que participassem nos eventos. O Iraque está atualmente a enfrentar a sua pior crise de novos casos de COVID-19 desde o pico registado no país em setembro. Além disso, as preocupações com a segurança eram intermináveis – Bagdad foi bombardeada poucos dias antes da chegada de Francisco. Guardas do Vaticano, militares do Iraque e policias locais criaram uma barreira fortemente armada em torno de cada espaço e zona de eventos.

Na festa de receção ao papa, fiquei encurralado atrás dos guardas do presidente enquanto Francisco e Barham Salih atravessavam um corredor de bailarinos e músicos tradicionais. Passado algum tempo, consegui abrir caminho através da procissão para ficar mais perto do papa. Quando me aproximei, reparei que o pontífice estava a coxear e sentia claramente algum tipo de dor. Mais tarde, vim a saber que Francisco sofre de uma lesão no nervo ciático e que tinha cancelado vários eventos devido a esta condição. Na sexta-feira, porém, o papa conseguiu sorrir e conversar com o presidente. No final da sua visita, Francisco pediu a Barham Salih e a vários líderes religiosos para terem mais tolerância religiosa e união.

No sábado, o Papa Francisco encontrou-se com líderes interconfessionais na antiga cidade de Ur, que se acredita ser a casa de Abraão – uma figura importante no cristianismo, islamismo e judaísmo.

O papa, um santo e o mundo islâmico

Eu tive uma educação católica, embora não me considere religioso. Ainda assim, conheço o papa Francisco e a sua reputação enquanto homem do povo. Quando era clérigo em Buenos Aires, Francisco era conhecido por andar de metro e se misturar com os crentes nas favelas. Uma vez, Francisco disse: “Como eu desejava ter uma igreja pobre e para os pobres!”

Francisco é o primeiro papa a escolher São Francisco de Assis para seu homónimo, um santo defensor dos pobres e construtor de pontes com o mundo islâmico. Em 1219, durante a Quinta Cruzada, Francisco de Assis arriscou a vida para se encontrar com o sultão egípcio al-Malik al-Kamil. Ambos saíram desse encontro com uma apreciação mais profunda sobre as crenças um do outro.

Cristãos iraquianos oram dentro do mosteiro Al Saleeb em Qaraqosh.

Fotografia de MOISES SAMAN

“[Francisco de Assis] tinha uma intuição incrível que identificamos como familiaridade universal: a irmandade entre todos os povos. Essa foi a pedra basilar da vida e mensagem de Francisco de Assis. O Papa Francisco compreendeu isso na perfeição”, explica a irmã Kathleen Warren, da Diocese de San Diego, que escreveu um livro sobre o referido encontro com o sultão. “[O Papa Francisco] tem uma mensagem profunda que é muito semelhante à mensagem que Francisco de Assis levou ao povo muçulmano do Egito há 800 anos atrás.”

No sábado, o Papa Francisco viajou para Najaf para se encontrar com o líder espiritual muçulmano xiita do Iraque, o Grande Aiatola Ali al-Sistani, uma figura reclusa que raramente se encontra com estrangeiros. Mais tarde naquele dia, Francisco falou sobre união no sermão que deu na cidade de Ur, enquanto olhava para as planícies onde muitos acreditam que Abraão viveu – uma figura religiosa significativa para cristãos, muçulmanos e judeus.

Freiras num telhado tentam ver o Papa Francisco enquanto este sai da Igreja da Imaculada Conceição em Qaraqosh. Devido a questões de segurança, os guardas fecharam as ruas em torno de cada evento e conduziram o papa de um local para outro em veículos à prova de bala.

Forças de segurança e habitantes, jovens e idosos, reúnem-se em frente à Catedral Caldeia de São José, em Bagdad, no dia 6 de março de 2021.

“No entanto, se queremos preservar a fraternidade, não devemos perder de vista o céu. Que nós – os descendentes de Abraão e os representantes de diversas religiões – percebamos que, acima de tudo, temos este papel: ajudar os nossos irmãos e irmãs a elevar os olhos e as orações ao céu”, disse Francisco.

Regresso a casa

Antes da chegada do papa ao Iraque, passei vários dias com a comunidade cristã em Qaraqosh e apercebi-me de que, ao reconstruir a cidade, eles estavam a reivindicar o seu lugar no país.

Numa pequena colina nos arredores da cidade, conheci Mari Salebu, um monge que, depois de 15 anos a viver no Líbano, tinha regressado para consertar um pequeno mosteiro. O edifício de um andar não tinha eletricidade, era apenas uma pequena capela com um punhado de cadeiras, mas Mari Salebu está determinado a transformá-lo novamente num local de culto. Mari plantou árvores nas proximidades na esperança de um dia criar um lugar para os cristãos fazerem piqueniques.

Esquerda: Multidões de cristãos e não-cristãos alinham-se nas ruas de Qaraqosh para ver a passagem de Francisco, no domingo, dia 7 de março de 2021.
Direita: Embora Francisco tenha sido vacinado em meados de janeiro, muitos receavam que o vírus se propagasse entre as pessoas que se aglomeravam para ver o papa. O Iraque está atualmente a enfrentar a sua pior crise de novos casos de COVID-19 desde que o país atingiu o pico em setembro.

Esquerda: O Papa Francisco preside a missa na Catedral Caldeia de São José em Bagdad, no sábado, dia 6 de março de 2021.
Direita: Cristãos reúnem-se para uma oração em grupo nos arredores de Qaraqosh, em preparação para a chegada do papa.

Fotografia de MOISES SAMAN

Depois de regressar a Roma na segunda-feira, Francisco parou na Basílica de Santa Maria Maior com um ramo de flores que trouxe do Iraque. No interior da basílica, Francisco colocou as flores aos pés de um ícone da Virgem Maria, Maria Salus Populi Romani, e agradeceu pela sua proteção durante a viagem. Depois, Francisco regressou para a sua casa de dois quartos no Vaticano para descansar.

Aldeias cristãs pontilham a região das planícies de Nineveh, no norte do Iraque. Durante a sua viagem, Francisco defendeu mais união entre as religiões no Iraque.

Fotografia de MOISES SAMAN

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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