Vislumbres de tristeza e resiliência, captados ao longo de um ano inesquecível

“A pandemia afastou muitos dos meus receios e aumentou o meu desejo de socializar com outras pessoas.” Após um ano de COVID-19, fotógrafos refletem sobre as suas próprias imagens.

Por TUCKER C. TOOLE
Publicado 17/03/2021, 15:20 WET
Os índios Shipibo-Konibo da floresta tropical peruana na Amazónia usam plantas medicinais como uma forma de ...

Os índios Shipibo-Konibo da floresta tropical peruana na Amazónia usam plantas medicinais como uma forma de ligação à natureza. O trabalho destes índios com a medicina tradicional à base de plantas está ameaçado devido à pandemia de coronavírus. “Acompanhei o povo Shipibo-Konibo na sua tentativa de sobreviver a esta doença violenta... eu vi-os a refugiarem-se nas suas origens, na sua floresta. E senti-me refugiada com eles”, disse a fotógrafa Florence Goupil.

Fotografia de FLORENCE GOUPIL

Foi um momento que nunca iremos esquecer. Eventos desportivos profissionais cancelados, universidades a enviarem os alunos para casa, as luzes da Broadway apagaram-se, os escritórios encerraram portas. Em março do ano passado, o mundo entrou em confinamento enquanto a COVID-19 se propagava pelo globo.

O número de casos era naquele momento inimaginável. Desde que a Organização Mundial de Saúde declarou este novo coronavírus uma pandemia, foram registados em todo o mundo mais de 118 milhões de casos de COVID-19 e mais de 2.6 milhões de pessoas perderam a vida. Os Estados Unidos lideram em número de casos e mortes por COVID-19: Mais de 29 milhões de pessoas contraíram o vírus e mais de 520.000 pessoas morreram.

Foi um ano que testou a nossa própria humanidade. Os hospitais ficaram sobrelotados. As casas funerárias tiveram dificuldades em acompanhar a situação. Perderam-se milhões de empregos. A fome aumentou dramaticamente. Famílias ficaram separadas.

Durante a pandemia, a National Geographic Society lançou um fundo de emergência para apoiar os jornalistas que cobrem a COVID-19. Desde resiliência ao restabelecimento de ligações, vários fotógrafos captaram momentos impactantes de pessoas a lidarem com a pandemia de maneiras diferentes pelo mundo inteiro. Pedimos a alguns bolseiros para escolherem a imagem que mais lhes tocou e para partilharem os seus pensamentos.

Rita Harper fotografou Breonna Leon, profissional de enfermagem geriátrica em Atlanta, no estado da Geórgia, que cuidou de muitos pacientes com COVID-19 que faleceram. Rita diz que queria documentar a forma como as comunidades urbanas estavam a ser afetadas devido à escassez de recursos, às condições pré-existentes e ao acesso limitado aos cuidados de saúde.

O fotógrafo Gab Mejia captou guardas florestais nas Filipinas a fazerem o seu último adeus ao único búfalo-anão-de-mindoro do planeta criado em cativeiro. Só restam cerca de 500 búfalos-anões-de-mindoro na natureza, a espécie de búfalo mais rara do mundo. Os confinamentos e as dificuldades económicas têm impedido os esforços de conservação de vida selvagem, e cada perda aproxima cada vez mais esta espécie da extinção.

“Foi uma experiência traumatizante testemunhar a morte do búfalo-anão-de-mindoro, uma espécie que está em perigo crítico de extinção”, disse Gab Mejia. “Pior ainda são as dificuldades que a pandemia trouxe para os guardas-florestais, que dedicaram as suas vidas a tentar salvar esta espécie rara nas Filipinas. Os rígidos confinamentos dificultaram bastante os trabalhos em locais de conservação de vida selvagem devido aos receios que vieram com a COVID-19.”

Embora algumas pessoas estejam esperançosas de que a luta contra a pandemia pode estar a terminar, para a maioria – sobretudo familiares e amigos de pessoas que faleceram – este ano devastador terá para sempre um impacto nas nossas vidas.

A pandemia de COVID-19 chegou cedo à remota região russa do Daguestão, que tem um sistema de saúde obsoleto. Inicialmente, as enfermeiras locais pensaram que a doença se tratava da gripe anual, e assim que os aldeões começaram a morrer e a adoecer em grande número, elas não compreendiam o que estava a acontecer, não sabiam como a podiam tratar, nem receberam qualquer equipamento médico e medicamentos. “Fiquei particularmente triste quando vi mulheres grávidas doentes e crianças pequenas, com os sintomas da COVID-19, a serem rodeadas por equipas médicas que pareciam cosmonautas”, disse a fotógrafa Nanna Heitmann.

Fotografia de NANNA HEITMANN

A fotógrafa Anush Babajanyan abraçou a filha, Ella, quando esta sentiu dificuldades para terminar o seu trabalho virtual de matemática na Arménia. “Não podia ignorar o facto de que, enquanto família, os meus filhos e eu também estávamos a enfrentar dificuldades, a tentar ensinar e aprender, a compreender como passar o dia sem sair de casa, a tentar manter uma vida equilibrada, a tentar...”, disse Anush.

Fotografia de ANUSH BABAJANYAN

Bethany Mollenkof, que estava grávida quando os Estados Unidos entraram em confinamento, sentiu que trazer uma criança ao mundo naquele momento era  poderoso. “Criar uma vida em tempos tão conturbados de morte parecia poderoso e eu queria documentar isso para a minha filha”, disse Bethany.

Fotografia de BETHANY MOLLENKOF

Guardas florestais na sua despedida ao último búfalo-anão-de-mindoro criado em cativeiro, um mamífero terrestre considerado um ícone nas filipinas. Neste país, a pandemia deixou guardas florestais e defensores do ambiente em perigo.

Fotografia de GAB MEJIA

Amos Scott recupera o fôlego após retirar peixes de um buraco de pesca no gelo com temperaturas abaixo dos 30 graus negativos no Lago Great Slave, nos Territórios do Noroeste, no Canadá. Desde que a pandemia começou, os idosos indígenas nos Territórios do Noroeste estão a incentivar os habitantes a “estarem em terra” como uma medida de distanciamento físico para proteger as suas comunidades e como uma forma de restabelecerem a ligação com a natureza e com os estilos de vida indígenas tradicionais.

Fotografia de PAT KANE

O rio Paraná, na Argentina, enfrenta o maior declínio da sua história, um declínio que está a afetar a biodiversidade dos pântanos na região. “Trabalho há vários meses no projeto ‘Rio Adentro’, documentando a situação deste importante ecossistema através de diferentes famílias que aprenderam a adaptar-se às alterações impostas pela pandemia, mas também às piores transformações ambientais no seu território”, disse Sebastián López Brach.

Fotografia de SEBASTIÁN LÓPEZ BRACH

A documentarista brasileira Gabriela Portilho, que geralmente documenta a vida ao ar livre, foi forçada a documentar a partir de casa durante o confinamento devido à COVID-19 no Brasil. Gabriela fotografou um pão sob diferentes luzes, criando uma metáfora com os ciclos lunares e a passagem do tempo. “Dadas as limitações, vi uma oportunidade para colocar os olhos na minha própria vida e, de alguma forma, falar sobre as mudanças nos hábitos alimentares que afetaram não só a mim, mas também milhares de pessoas, que felizmente tiveram comida em casa durante este tempo.”

Fotografia de GABRIELA PORTILHO

Ativistas em Joanesburgo distribuíram vegetais orgânicos e materiais de jardinagem a centenas de famílias vulneráveis para combater a crescente insegurança alimentar provocada pelos confinamentos. “Enquanto mãe, esta pandemia fez-me preocupar com o bem-estar, a segurança e o futuro do meu filho”, disse Miora Rajaonary.

Fotografia de MIORA RAJAONARY

Breonna Leon, profissional de enfermaria geriátrica em Atlanta, lidou com o facto de ser uma profissional de saúde essencial durante a pandemia, algo que a fez testemunhar muitos dos seus pacientes a falecerem de COVID-19. Breonna acredita que os afro-americanos estão a morrer com taxas mais elevadas devido a problemas relacionados com o racismo sistémico na saúde, com condições pré-existentes e à escassez de recursos e acesso limitado aos cuidados de saúde. “Ao fotografar profissionais como Breonna e os bairros locais, tive uma visão íntima de como os desertos alimentares estão a assolar as comunidades negras em Atlanta”, disse a fotógrafa Rita Harper.

Fotografia de RITA HARPER

A fotógrafa Esther Ruth Mbabazi homenageia a vida do seu pai, que faleceu em 2008. “Durante a pandemia, tive muito tempo para olhar para dentro, para me sentar com tranquilidade e estar presente”, diz Esther. “Tive saudades do meu pai. Senti muito a falta dele. Esta é a minha forma de preservar as memórias que tenho dele.”

Fotografia de ESTHER RUTH MBABAZI

Um autocolante que aconselha os passageiros a distanciarem-se socialmente marca o centro de uma mesa num cruzeiro grego ao largo da ilha de Santorini. “O guia italiano do cruzeiro disse-me que, normalmente, cada viagem estaria lotada e o navio cheio, mas hoje, dado ao novo normal verificado este verão, havia apenas cerca de 30 pessoas a bordo e eu podia estar sentada tranquilamente a trabalhar numa das mesas”, disse a fotógrafa Loulou d'Aki.

Fotografia de LOULOU D'AKI

Youssef assumiu a antiga tradição beduína de cultivar e cuidar de um jardim de família. Esta tradição já tinha desaparecido no Egito, mas renasceu durante a pandemia.

Fotografia de REHAB ELDALIL

Deitadas confortavelmente num santuário improvisado numa escola móvel para jovens indígenas nas Filipinas, uma professora partilha um momento maternal de ternura com uma das suas alunas que tem dificuldade em dormir à noite. “Tem sido emocionalmente difícil documentar uma comunidade marginalizada que já enfrentava uma crise humanitária antes da COVID-19. Demorei meses a recuperar do que vi e ouvi durante a semana que passei em confinamento com esta comunidade”, disse o fotógrafo Pau Villanueva.

Fotografia de PAU VILLANUEVA

Monica penteia o cabelo antes de sair para a rua para trabalhar na Indonésia. Durante a pandemia, muitas mulheres transexuais, que trabalham principalmente nos setores do comércio, beleza e sexo, tiveram as suas opções limitadas. Quando o governo indonésio implementou as regras de distanciamento social, a maioria dos setores empresariais não teve autorização para operar, incluindo as estâncias e os salões de beleza.

Fotografia de YOPPY PIETER

Delores Jetton, assistente num lar de idosos, preocupa-se principalmente com as pessoas em fim de vida. Os pacientes recebem um toque meditativo de compaixão com os cuidados de Delores. “Testemunhar o trabalho de Delores é observar o melhor da humanidade personificado num ser terreno”, diz a fotógrafa Lynn Johnson.

Fotografia de LYNN JOHNSON

Uma voluntária desinfeta um autocarro público em Kibera, no Quénia, onde os transportes públicos são essenciais para praticamente todos os habitantes. “Os transportes públicos são uma tábua de salvação para a maioria dos residentes de Kibera que se querem movimentar na cidade”, diz o fotógrafo Brian Otieno. “Enquanto nos foi pedido a todos para ficarmos em casa, alguns esforçam-se para servir e proteger as suas comunidades.”

Fotografia de BRIAN OTIENO

Rosem Morton, para além de fotógrafa, é uma profissional de saúde. Neste autorretrato tirado em março de 2020, Rosem escreve o nome no seu capuz PAPR – um respirador purificador alimentado a oxigénio. “Este mesmo capuz esteve sempre no meu cacifo durante o último ano. A única diferença é a de que o meu nome, que foi reescrito inúmeras vezes, desapareceu com toda a desinfeção e reutilização. Isto faz-me lembrar o que continuamos a suportar depois de um ano.”

Fotografia de ROSEM MORTON

Um grupo de migrantes e refugiados atravessa a Bósnia a pé. “Hoje, a Bósnia tornou-se num improvável e infeliz ponto de passagem para a União Europeia”, diz o fotógrafo Ziyah Gafic, que também já foi refugiado. “Dezenas de milhares de pessoas estão de passagem pela Bósnia a caminho de um futuro melhor. Na maioria das vezes, estão em território hostil, em países que não os querem. Ao mesmo tempo, todos partilham a esperança inquebrável de que, quando chegarem ao seu destino final, a vida será melhor.”

Fotografia de ZIYAH GAFIC, VII; FINANCIADO EM PARTE PELO CENTRO PULITZER PARA REPORTAGENS SOBRE CRISES

Kataleya Nativi Baca, migrante transgénero das Honduras que aguarda para pedir asilo na fronteira com os EUA, desfruta de um momento de alegria num ano conturbado. A COVID-19 chegou mesmo no momento em que Kataleya se preparava para apresentar o seu caso. Em março de 2020, a fronteira EUA/México encerrou indefinidamente para os imigrantes, “lançando a sua vida numa espiral descendente de depressão e instabilidade, desemprego, condições de vida e segurança”, diz a fotógrafa Danielle Villasana.

Fotografia de DANIELLE VILLASANA

Uma habitante de Manila, nas Filipinas, junto à sua tenda na Smokey Mountain, uma antiga lixeira. Na véspera do confinamento imposto pelo governo devido à COVID-19, esta mulher foi esfaqueada pelo marido e quase morreu com uma hemorragia. “Embora a violência de género possa acontecer a qualquer pessoa, os que vivem na pobreza são geralmente os mais vulneráveis”, diz a fotógrafa Bernice Beltran. “Esta história em particular explora como a falta de uma dimensão de género na resposta à COVID-19 liderada pelo governo afetou as vítimas de violência doméstica nas Filipinas.”

Fotografia de BERNICE BELTRAN

Durante a pandemia, a violência doméstica aumentou. “Esta fotografia faz-me lembrar que a violência doméstica não começa com hematomas na pele, a violência doméstica começa com palavras e assume muitas formas”, diz a fotógrafa Irina Unruh.

Fotografia de IRINA UNRUH


Este trabalho foi financiado pelo Fundo de Emergência COVID-19 para Jornalistas da National Geographic Society.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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