Adelaide Cabete, o rosto do feminismo português no século XX

Adelaide Cabete foi republicana, médica, professora e pioneira no ativismo. Uma figura incontornável na sociedade portuguesa no séc. XX, impulsionadora da emancipação das mulheres.

Publicado 1/04/2021, 09:36
Bilhete postal do início do século XX que retrata uma consulta médica de Adelaide Cadete a ...

Bilhete postal do início do século XX que retrata uma consulta médica de Adelaide Cadete a uma criança.

Fotografia de Coleção do Arquivo Fotográfico do Centro de Documentação Anselmo Braamcamp Freire – Museu Municipal de Loures

Perante uma sociedade fechada e patriarcal, Adelaide Cabete posicionou-se como feminista assumida. Formou-se em medicina e destacou-se num universo maioritariamente masculino. Uma mulher de inúmeras causas, foi reconhecida pelas suas ideias firmes e fortes convicções. Nascida em 1867, em Elvas, era destemida e solidária com diferentes causas naturais e internacionais, superando as diversas etapas do seu percurso profissional, associativo e político.

Adelaide Cabete, além de humanitária, era uma livre-pensadora, indissociável da história e dos movimentos políticos e sociais, que levaram à Implantação da República em Portugal, a 5 de outubro de 1910.

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Como ativista, militante e dirigente de diversas organizações, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP), as Ligas de Bondade ou a Liga Portuguesa Abolicionista, acabou por se destacar como Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), o qual fundou em 1914.

O CNMP apresentava-se como uma instituição feminina, apolítica e não religiosa, mas todo o seu conceito e história baseava-se no feminismo. Entre vários objetivos, a associação pretendia proteger as mulheres e as crianças desfavorecidas, assegurar a higienização das grávidas e das puérperas, e abolir a prostituição regulamentada.

O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas agitou o poder político

Nos anos 20, o CNMP afiliou-se a movimentos femininos internacionais como o International Council of Women (ICW) e o International Women Suffrage Alliance (IWSA). As mulheres que o constituíam eram de origem burguesa, de escolaridade elevada ou com ensino superior, chegando a assistir-se à adesão de mulheres republicanas, que pertenciam à Maçonaria.

Adelaide Cabete foi um dos rostos mais marcantes do feminismo português.

Fotografia de Coleção do Arquivo Fotográfico do Centro de Documentação Anselmo Braamcamp Freire – Museu Municipal de Loures

O CNMP foi a organização feminista mais duradoura no século XX, entre 1914 e 1947, em Portugal. Adelaide Cabete, que sempre se debateu por igualdades justas e humanas, queixava-se de perder mais tempo a explicar o que o feminismo não é, do que a enunciar o que defendiam.

A década de 1920 permitiu ainda a realização de dois congressos feministas, em 1924 e 1928, a adesão ao feminismo de uma nova geração de mulheres e a consolidação do CNMP, passando por um período de florescimento a nível internacional. Um movimento do feminismo, que transitou de um carácter pacifista e republicano, para um mais destemido e distante de partidos políticos.

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Pelos direitos das mulheres, dos animais e pela paz

Adelaide Cabete foi inspirada pela luta pelos direitos políticos, cívicos, económicos, educacionais e laborais das mulheres de Portugal e, a emancipação das mulheres portuguesas, inscrevia-se na marcha pela emancipação das mulheres no mundo.

Entre grandes feitos, foi pioneira na reivindicação dos direitos das mulheres, como o voto e um mês de período de descanso antes do parto. Na sua biografia consta ainda que foi a primeira e única mulher em Angola a votar na Constituição Portuguesa, contra a ditadura do Estado Novo, da qual se confrontou.

Entre os rostos influentes do feminismo no país durante o século XX, encontravam-se médicas, enfermeiras, farmacêuticas, advogadas, professoras, jornalistas, escritoras, artistas, entre muitas mulheres domésticas.

Os direitos dos animais, como pela oposição à realização de touradas, eram também outras batalhas enfrentadas entre algumas feministas. Ao longo de três décadas, 24 associações filiadas no CNMP atuaram em áreas diversas, tais como no apoio à maternidade, assistência ao parto, criação de cantinas escolares, atribuição de bolsas, defesa dos direitos da docência, entre muitas outras.

Os rostos do feminismo frente a frente com o Estado Novo

Numa sociedade em mudança, Adelaide Cabete foi fundamental na influência do movimento feminista em Portugal, sempre moderado, nunca declaradamente subversivo nem violento. Para a ilustre figura, o feminismo é mais do que alguma coisa de grande e sublime, é a dignificação da mulher, a consequência de uma evolução. Para a médica e socióloga, o fim do feminismo estará no mesmo local onde acabam todas as aspirações injustas.

Entre os vários rostos do feminismo do século XX, a par da primeira mulher a declarar-se publicamente feminista, Adelaide Cabete, encontramos os nomes de Ana de Castro Osório, Maria Clara Correia Alves, Aurora de Castro e Gouveia, Virgínia de Castro e Almeida, Alice Pestana (pseudónimo: Caiel), Emília de Sousa Costa, Elina Guimarães e Carolina Michaëlis de Vasconcelos.

Continuar o trabalho que grandes mulheres iniciaram, assegura que temas em torno da cultura da opressão, da desigualdade de género, da imposição da maternidade, da cultura da violação, precisam de ser debatidos de forma urgente, em vez do seu silenciamento, para a sua conscientização.

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