À medida que os talibã ganham poder, a incerteza paira sobre os tesouros históricos do Afeganistão

Alguns especialistas em património cultural estão otimistas; mas outros estão cada vez mais preocupados com a partida das tropas americanas e europeias do país.

Fotografias Por Robert Nickelsberg
Publicado 25/05/2021, 11:28 WEST
cabeça de Buda

Um símbolo do legado budista do Afeganistão, esta cabeça de Buda é mantida no Palácio Presidencial em Cabul devido a questões de segurança.

Fotografia de ROBERT NICKELSBERG

Em setembro, quando as últimas forças da NATO abandonaram o Afeganistão, muitos recearam que o país pudesse mergulhar noutra guerra civil brutal que terminasse com o colapso do governo apoiado pelos EUA e culminasse no triunfo dos talibã. Essa perspetiva parece uma possibilidade particularmente sombria para aqueles que têm a tarefa de proteger o património cultural invulgarmente diverso desta nação.

Em 2001, no último ano em que os talibã estiveram no poder, as maiores estátuas do mundo – os Budas de Bamiyan – foram destruídas, e o Museu Nacional de Cabul e muitos outros sítios antigos foram saqueados. Esta devassidão de destruição sem precedentes, dirigida particularmente aos vestígios pré-islâmicos, fez dos talibã párias a nível internacional.

Forças talibã pilharam o Museu Nacional do Afeganistão no início de 2001, destruindo imagens como esta cabeça de Buda que vemos nas mãos de um curador.

Fotografia de Robert Nickelsberg, Getty Images

Contudo, mais recentemente, os talibã – que se autodenominam Emirado Islâmico do Afeganistão – prometeram respeitar a história do Afeganistão. Através de uma declaração surpreendente, os talibã instruíram os seus seguidores para “proteger, monitorizar e preservar vigorosamente” relíquias, interromper escavações ilegais e salvaguardar “todos os sítios históricos”.

Mais importante ainda, acrescentaram que iriam proibir a venda de artefactos nos mercados de arte. “Ninguém deve tentar perturbar estes sítios ou pensar em usá-los para fins lucrativos”, diz o comunicado. O anúncio dos talibã não foi uma surpresa para Cheryl Benard, que dirige a Aliança para a Restauração de Património Cultural (ARCH), uma organização sedeada em Washington D.C. Cheryl diz que o seu grupo pressionou ambos os lados no outono passado para lidarem com o problema.

Noor Agha Noori, que lidera o Instituto de Arqueologia do Afeganistão, está cético em relação ao facto de os talibã terem mudado de posição. “Para ser sincero, estamos muito preocupados com o futuro do património cultural caso os talibã cheguem ao poder”, diz Noor, salientando que há evidências de que os islamistas ainda estão a saquear locais para gerar receitas.

Esquerda: Construído no século IV, este santuário budista, ou estupa, na província de Parwan, no leste do Afeganistão, já foi um repositório de relíquias sagradas. Há trabalhos a decorrer para estabilizar e restaurar esta estrutura antiga.

Direita: Um percurso ao longo da coluna de paredes de terra que cercavam a antiga cidade de Balque, um oásis na Ásia Central conhecido por Mãe de todas as Cidades. Os arqueólogos estão a desenvolver um plano para preservar estas paredes.

Mohammad Fahim Rahimi, diretor do Museu Nacional de Cabul, também não está convencido. “Infelizmente, o comunicado não é claro, sobretudo no que diz respeito à herança pré-islâmica. Sabemos bem o que aconteceu com esta coleção durante a guerra civil e em 2001.” Os conservadores do museu demoraram anos a juntar as várias esculturas de madeira e pedra que os saqueadores destruíram intencionalmente.

Mas outros estão mais otimistas de que as negociações entre os talibã e o governo afegão irão levar em consideração a necessidade de se proteger o passado da nação em qualquer acordo de paz. Em dezembro, funcionários do governo concordaram em debater “a segurança de sítios históricos e islâmicos” durante as negociações, e a declaração de fevereiro indicava a disposição dos talibã para se envolverem na polémica questão.

“É um grande e positivo passo”, diz Nasratullah Hewadwall, que representa a ARCH em Cabul. Nasratullah diz que o grupo islâmico repudiou no ano passado a destruição dos Budas de Bamiyan em 2001. Outros culpam a Al Qaeda e a sua vertente mais radical do Islão, que se opõe à reprodução artística de formas humanas ou animais.

Fotografias tiradas na década de 1920 documentam cabeças e moldes de Buda de barro descobertos há um século por arqueólogos franceses. Apesar de agora ser quase completamente muçulmano, o Afeganistão já foi um importante centro de ensino, artes e atividades missionárias budistas.

Fotografia de ROBERT NICKELSBERG

Agora, de acordo com Nasratullah, a liderança dos talibã parece compreender tanto a importância económica dos locais antigos enquanto potenciais atrações turísticas, como os problemas que podem surgir da destruição desenfreada.

Ainda há muitas relíquias que se podem perder. Enquanto encruzilhada geográfica da Ásia Central, o Afeganistão atraiu mercadores, peregrinos e exércitos desde que Alexandre, o Grande, aqui chegou e se casou com uma princesa afegã.

A partir desta região, o budismo espalhou-se pela China, enquanto o zoroastrismo, o cristianismo, o judaísmo e o hinduísmo floresceram antes e depois da chegada do islamismo no século sétimo d.C. Enquanto artéria importante na Rota da Seda, que ligava a Índia, o Irão e a China, o Afeganistão está repleto de ruínas de cidades antigas, mosteiros e caravançarais que hospedavam viajantes – incluindo Marco Polo no seu caminho para a cintilante corte de Kublai Khan.

O espectro do caos

Os especialistas em património cultural podem estar divididos em relação às intenções dos talibã, mas concordam que o caos, em vez de uma invasão islamista, representa um perigo maior.

Esquerda: Um Buda esculpido em argila, agora no Palácio Presidencial, revela influências da Índia e também da Grécia.

Direita: Uma construção intrincada de pedra adorna as ruínas da mesquita Noh Gunbad do século VIII, a estrutura islâmica mais antiga do Afeganistão. Foi construído um telhado para proteger as suas ruínas vulneráveis.

“Os nossos receios não são tanto sobre uma possível ameaça representada pelos talibã, mas sim pelo desrespeito da lei e ordem”, diz Jolyon Leslie, conservacionista que atualmente trabalha na recuperação de uma antiga estupa budista nos arredores de Cabul. Jolyon trabalhou para envolver as comunidades locais que estão em melhor posição para proteger estes monumentos.

Nasratullah Hewadwall argumenta que o caos já prevalece, principalmente nas regiões rurais. A falta de segurança e as alianças em constante mudança permitiram aos saqueadores – quer sejam aldeões pobres, grupos criminosos, talibãs ou várias milícias – roubar artefactos que depois são contrabandeados para mercados de arte como o Dubai. Os sítios budistas, muitas vezes repletos de estátuas de alto valor, foram particularmente atingidos. (Veja 20 dos templos budistas mais belos do mundo.)

Apesar dos receios de um regime dominado pelos talibã, os Estados Unidos devolveram no mês passado ao Afeganistão mais de 33 artefactos avaliados em 1.8 milhões de dólares. Estes objetos tinham sido roubados na última década e faziam parte de uma extensa coleção de um negociador de arte de Nova Iorque.

“As obras recuperadas são peças insubstituíveis da rica e diversificada cultura e história do Afeganistão”, disse a embaixadora afegã, Roya Rahmani, na cerimónia de repatriamento em Nova Iorque. “É uma honra enorme ajudar a facilitar o seu regresso a casa.”

A cúpula detalhada do túmulo de Shahzada Abdullah em Herat, uma cidade perto da fronteira com o Irão, foi estabilizada e conservada nos últimos anos.

Herat era uma das maiores cidades da Ásia Central no século XVI, ostentando santuários elegantes como este dedicado a Shahzada Abdullah.

Será que irão sobreviver nos próximos anos? Fredrik Hiebert, arqueólogo da National Geographic que ajudou a identificar os artefactos, disse estar confiante de que as autoridades afegãs, que muitas vezes enfrentaram o encarceramento e até a morte para protegerem sítios arqueológicos e museus durante o último regime dos talibã, são mais do que competentes para manter o passado do país em segurança. “Eles são bons zeladores”, disse Fredrik. “Tenho toda a confiança neles.”

Novo ataque levanta receios

Três dias depois da cerimónia em Nova Iorque, as forças talibã emboscaram e mataram vários soldados do governo que guardavam Mes Aynak, um antigo complexo budista nos arredores da capital. Este local inclui um depósito que originalmente continha cerca de 8.000 artefactos budistas, diz Noor Noori. Devido à falta de segurança, as autoridades já tinham transferido cerca de 3.000 destes artefactos para o Museu Nacional. (Descubra o que o mundo pode perder com um conflito no Irão.)

Mas Noor Noori acrescenta que algumas escavações arqueológicas continuam os seus trabalhos por todo o país, incluindo uma escavação franco-afegã na Cidadela de Cabul. Em março, o Ministério da Informação e Cultura anunciou que, com o apoio da Turquia, tinha começado a reconstruir a cidade natal do poeta Rumi do século XIII na cidade de Balque, no norte do país.

Elevando-se sobre o mercado da cidade velha de Herat, a Cidadela serviu durante séculos como forte, palácio, tesouraria, arsenal e prisão. Hoje, após um trabalho de restauração apoiado pela Embaixada dos Estados Unidos e outros, é o lar de um museu.

“Assim que o nosso país tiver uma paz duradoura, estamos ansiosos para partilhar esta herança com o mundo”, diz Murtaza Azizi, alto funcionário do ministério. “Esperamos que a nossa indústria de turismo – juntamente com a economia – cresça, não só em Balque, mas por todo o Afeganistão.”

“Para o património cultural ameaçado do país conseguir emergir da atual crise praticamente intacto, é necessário proteger mais do que objetos e edifícios antigos”, diz Omar Sharifi, chefe do Instituto Americano de Estudos do Afeganistão da Universidade de Boston. “Trata-se de preservar o nosso povo.

 

Andrew Lawler é jornalista e autor que escreveu sobre as controversas escavações em Jerusalém para a National Geographic. O seu livro mais recente, Under Jerusalem, vai ser publicado em novembro.

Robert Nickelsberg trabalhou como fotógrafo para a revista Time durante quase 30 anos, com especialização em alterações políticas e culturais em países em desenvolvimento. Robert é o autor de Afghanistan – A Distant War, publicado em 2013 pela Prestel, uma obra que representa os seus 25 anos de trabalho no Afeganistão. O livro mais recente de Robert, Afghanistan’s Heritage: Restoring Spirit and Stone, feito em parceria com o Departamento de Estado dos EUA, foi publicado em inglês, dari e afegão em maio de 2018.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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