As vidas extraordinárias das ‘mulheres mais corajosas’ da América

Depois de anos na obscuridade, as histórias das mulheres faroleiras emergem das sombras.

Publicado 14/05/2021, 11:54 , Atualizado 23/06/2021, 10:13
Postal Ida Lewis

Um postal antigo mostra Ida Lewis, “a mulher mais corajosa da América”, com o seu cão Dewey em frente ao Farol de Lime Rock em Newport, Rhode Island.

Fotografia de Collection of Jeremy D'Entremont

Dois soldados agarraram-se ao barco que se virou devido às águas agitadas do cais de Newport em Rhode Island. Estávamos em março de 1869 e o mau tempo tinha transformado uma curta viagem num desastre perigoso. O proprietário da embarcação já se tinha afogado, e os dois homens, que se dirigiam para Fort Adams após uns dias de licença, provavelmente teriam o mesmo destino.

Mas a ajuda estava a caminho na forma de Idawalley Zoradia Lewis, de 27 anos. Remando habilmente o seu esquife de madeira, “Ida” avistou os homens e puxou-os para a segurança do seu barco. Era um dia normal de trabalho para Ida, que salvou a vida de 25 pessoas durante os 54 anos em que trabalhou como faroleira no Farol de Lime Rock em Newport.

Embora tenha sido reconhecida internacionalmente, recebendo uma medalha do Congresso e ficando com a reputação de “mulher mais corajosa da América” pelos seus resgates ousados, Ida foi apenas uma entre centenas de mulheres que cuidaram de faróis nas costas dos Estados Unidos entre os séculos XVIII e XX. Enquanto os jornais discutiam entre si se o facto de Ida remar um barco ou cuidar de um farol numa zona rochosa era “pouco feminino”, as faroleiras estavam sempre atentas aos naufrágios e subiam quilómetros (acumulados) para manter as lâmpadas acesas durante tempestades traiçoeiras numa época que restringia os papéis das mulheres e desvalorizava o seu trabalho.

“As mulheres fazem parte dos faróis desde que estes existem”, diz Shauna MacDonald, professora adjunta de comunicações na Universidade de Cape Breton na Nova Escócia, no Canadá, que estuda faroleiras.

Ida Lewis, na imagem, salvou a vida de 25 pessoas durante os seus 54 anos enquanto faroleira.

Fotografia de Library of Congress/Getty Images

As mulheres americanas cuidam de faróis desde os tempos coloniais. Hannah Thomas tornou-se na primeira faroleira dos Estados Unidos em 1776, depois de assumir as funções do seu marido, John, quando este partiu para servir na Guerra da Independência. Embora algumas mulheres – como Ida Lewis – tenham sido famosas durante as suas vidas, as contribuições da maioria das faroleiras foram mantidas na obscuridade durante séculos até que os estudiosos contemporâneos começaram a iluminar as suas histórias.

Na década de 1990, a historiadora Candace Clifford e a sua mãe, a autora Mary Louise Clifford, identificaram quase 200 mulheres faroleiras e funcionárias do Serviço de Faróis dos EUA, a agência federal que supervisionava todos os faróis nos Estados Unidos. As outras mulheres que trabalharam em conjunto com parceiros homens ou membros da sua família, ou que trabalharam durante curtos períodos de tempo, podem ser centenas e ainda não receberam o devido reconhecimento.

Vida no farol: solitária e traiçoeira

Cuidar de um farol pode ser uma tarefa solitária, e muitos postos avançados foram propositadamente localizados em territórios remotos e traiçoeiros. As luzes eram acendidas ao pôr do sol e apagadas ao nascer do sol. Havia buzinas de nevoeiro para soprar e assistência para fornecer aos marinheiros encalhados ou naufragados. A manutenção era constante. E numa era que antecedeu a eletricidade, tudo isto era ainda mais desafiante. 

Os primeiros faróis dos Estados Unidos dependiam de fogueiras a carvão ou madeira. Depois surgiram as velas e lâmpadas a óleo. A luz era refletida através de lentes poderosas que precisavam de estar meticulosamente limpas. Noite após noite, o faroleiro tinha de subir as escadas e manter o lume aceso.

A maioria das mulheres tornava-se faroleira por nascimento ou casamento, ou assumiam as funções do seu marido após este adoecer ou falecer. Os faróis juntavam lar e local de trabalho – e havia muito trabalho para fazer. “A única forma de aprender a manter um farol era seguir alguém de perto”, diz Shauna MacDonald. Embora alguns “faróis veado” em postos avançados extremamente remotos fossem mantidos por homens solteiros, a maioria dos outros faróis eram um negócio de família, envolvendo todos, desde crianças a adultos, e eram transmitidos de geração em geração.

Abbie Burgess é um exemplo dos deveres – e força de caráter – das raparigas que cresceram em faróis. Em 1853, Abbie tinha 14 anos quando a sua família se mudou para Matinicus Rock, um rochedo estéril a 40 quilómetros da costa do Maine. Três anos depois, o pai de Abbie viajou para o continente para procurar mantimentos, deixando para trás as mulheres da família Burgess – a mãe inválida de Abbie e três irmãs.

“Temos de parar de contar estas histórias sobre mulheres faroleiras como se fossem excecionais. Estas mulheres não eram anomalias. ”

por SHAUNA MACDONALD, PROFESSORA ADJUNTA DE COMUNICAÇÕES NA UNIVERSIDADE DE CAPE BRETON NA NOVA ESCÓCIA, CANADÁ

O desastre aconteceu quando uma perigosa tempestade de inverno atingiu o rochedo, atrasando o regresso do pai e deixando o resto da família Burgess à mercê do destino. Abbie Burgess, agora com dezassete anos, que tinha aprendido o ofício com o pai e estudado cuidadosamente os registos dos faroleiros anteriores, preocupou-se com a situação da mãe durante a tempestade intensa e insistiu para ela mudar o seu quarto para a mais resistente das duas torres do farol.

Acabou por ser uma atitude presciente: durante a ausência do pai, a casa da família foi inundada e, de seguida, arrastada para o Atlântico. Abbie Burgess acabou a cuidar sozinha do farol durante um mês.

“Durante este tempo, ficámos sem o auxílio de qualquer membro do sexo masculino da nossa família”, escreveu Abbie mais tarde. “Embora por vezes ficasse extremamente exausta com o meu trabalho, as luzes nunca falharam.”

Alguns anos mais tarde, a família Burgess abandonou Matinicus Rock. Mas Abbie tinha-se apaixonado pelo farol – e pelo seu novo faroleiro assistente. Abbie casou-se com ele e viveu e trabalhou em faróis até morrer em 1892.

Tal como Abbie, muitas outras mulheres cuidaram de faróis até à velhice. Harriet Colfax, que manteve durante 43 anos o farol de Michigan City no Indiana, nas margens do Lago Michigan, assumiu o cargo após uma carreira de professora. Harriet vivia no farol com a sua companheira de longa data, Ann Hartwell, e só se aposentou em 1904, quando tinha 80 anos.

Quando o Chicago Tribune descreveu Harriet Colfax nesse mesmo ano, o repórter exclamou: “A querida faroleira sorridente, gentil e corajosa está tão velha!” Mas as aparências eram enganadoras e o trabalho de Harriet era árduo. Durante a maior parte da sua carreira, Harriet cuidou de dois faróis ao mesmo tempo e o segundo farol exigia uma caminhada estreita e perigosa, geralmente com tempo gelado e ventos fortes.

A única faroleira que resta na América é a voluntária auxiliar da Guarda Costeira dos EUA, Sally Snowman, que vemos na imagem a acenar para os turistas que visitam o Farol de Boston, o histórico farol que Sally mantém na baía de Massachusetts.

Fotografia de Boston Globe, Getty Images

Alimentar as ténues chamas da memória

Nas raras entrevistas e documentos que sobreviveram, as faroleiras minimizaram consistentemente os seus feitos. O mesmo fez o governo federal, que supervisionava todos os faróis dos EUA. A historiadora Virginia Neal Thomas escreve que, embora cerca de 5% dos faroleiros entre 1820 e 1859 fossem mulheres e recebessem salários iguais aos dos homens, as mulheres faroleiras “eram para todos os efeitos invisíveis” dentro da burocracia. No final do século XIX e início do século XX, as mulheres eram rotineiramente expulsas deste trabalho para favorecer candidatos do sexo masculino e, em 1939, o Serviço de Faróis dos EUA foi incorporado no exército.

Hoje, resta apenas uma faroleira – Sally Snowman, voluntária auxiliar da Guarda Costeira dos EUA que zela pelo Farol de Boston, um farol histórico na baía de Massachusetts. Ao contrário das suas antepassadas, Sally não tem de manter as lâmpadas acesas. Isto deve-se à automação, que levou a maioria dos faroleiros à obsolescência no século XX. Os faróis automatizados substituíram todos os faróis, e muitos dos faróis e locais históricos ficaram a cargo de museus e organizações de preservação, onde as mulheres, muitas vezes voluntárias, ajudam a manter a preservação de faróis e fazem muito do trabalho que visa homenagear as faroleiras.

Apesar do crescente reconhecimento sobre as mulheres que mantinham os faróis acesos, este trabalho deve continuar, diz Shauna MacDonald. “Nós mal arranhámos a superfície.” Este trabalho inacabado inclui uma compreensão mais aprofundada sobre os trabalhos forçados, a escravatura e as mulheres negras cujas histórias ainda estão por revelar. E isto implica procurar as mulheres que estão escondidas à vista de todos – as esposas, filhas, empregadas e vizinhas que ajudaram a manter as luzes acesas e colaboraram durante as emergências, mas cujas histórias estão em grande parte por contar ou são desconhecidas.

“Havia claramente muitas mulheres dentro e perto dos faróis”, diz Shauna. “Temos de parar de contar estas histórias sobre mulheres faroleiras como se fossem excecionais. Estas mulheres não eram anomalias.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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