Como tudo começou no Teatro em Portugal

Em 1836, Passos Manuel assumiu a direção do Governo após a revolução, e uma das medidas que tomou foi encarregar o escritor e político Almeida Garrett de apresentar um plano para a fundação de um teatro nacional. O Teatro Nacional D. Maria II viria a ser inaugurado a 13 de abril de 1846, em Lisboa, durante as comemorações do 27.º aniversário da rainha Maria II (1819-1853).

Fotografia de Filipa Coutinho, National Geographic
Publicado 15/06/2021, 10:51

Uma viagem em torno da história do teatro em Portugal, leva-nos a recuar alguns séculos. A Grécia, na sua primeira época, já contava com poetas como Homero, Hesíodo e Safo. Entre os povos mais bárbaros, acharam os viajantes e descobriram poesias e cantigas. O teatro estava ligado aos festivais religiosos em honra do deus Dionísio, o deus da alegria.

Na época primeira, que remonta ao século XV e início do século XVI, ao reinado de D. João II e princípio de D. Manuel, avistam-se uns vislumbres teatrais que, apesar de monstruosos, eram o melhor do tempo.

Nessa época, chamavam-se Autos e eram quase sempre sagrados. Realizaram-se os Autos “Da vida de Adão” e outros, representados e impressos em Lisboa. Pela altura da Quaresma, representavam-se as vidas de Santos e, no Teatro do Porto, puseram-se em cena os milagres de Santo António.

Um vício também fora de Portugal

As ações teatrais também passaram por Itália, com o Paraíso de Milton, cujo protagonista era Lucifer e o Poeta Inglês quis imitar, mas sendo mais sensato transformou-o em Epopeia. Os franceses tiveram Boileau e os espanhóis fizeram composições.

Pelos finais do século apareceram, em Portugal, as Comédias de Gil Vicente e as de seu pai. Nesta altura descobria-se a boa comédia. O género Trágico era ainda absolutamente desconhecido. Embora se pudesse ler Eurípides, Sófocles, Ésquilo ou Séneca, ninguém se atrevia ou menosprezava imitá-los.

O Instituto Nacional de Estatística revelou uma quebra na ordem dos 4,8 mil milhões de euros, para a cultura, em 2019. Em 2020, o colapso provocado pela pandemia levou a sessões de teatro anuladas, alterações de horário e salas com lotação reduzida a um terço. Para além disso, as companhias e profissionais viram-se confrontados com um enorme gasto na higienização das salas.

Os teatros comerciais, como o Maria Vitória e o Politeama, em Lisboa, fecharam as suas portas de forma temporária. E o ano foi mesmo considerando de ruína, para o teatro em Portugal e para toda a cultura.

De acordo com o diretor do D. Maria II, Tiago Rodrigues, a situação dos artistas já é historicamente muito precária, e a pandemia veio revelar as fragilidades existentes, transformando-se numa situação dramática para muitos artistas e técnicos.


Os Autos e Comédias representavam pequenos versos e rimados, algumas vezes em prosa. O Auto era, muitas vezes, a vida toda de um homem. No tempo, tudo era heroico, e apenas se conheciam dois géneros teatrais: tragédia e comédia.

No século XV, com o Cristianismo, o teatro profano entra em declínio e, por sua vez, cresce a popularidade dos dramas religiosos. As representações de caráter profano, sobretudo cómico e de crítica, ocorriam sobretudo nos palácios, na corte, nos castelos e praças públicas.

Restauração das Letras e boas artes

A época segunda do teatro em Portugal, inicia-se no século XVI, pela restauração das Letras. Foi a época onde se descobriram dos maiores sábios, entre heróis e poetas, como Leão X, Vasco da Gama, Camões, Tasso, Galileu, Miguel Ângelo e Rafaelo.

Era denominado por Século de Ouro, da boa literatura portuguesa. Nenhuma outra potência europeia se equiparava. As descobertas e conquistas da Ásia, o vantajoso e exclusivo comércio de especiarias da Índia, engrandeciam Portugal. A par da abundância, surgiu uma nova vida para as artes e Os Lusíadas, a Malaca Conquistada e outros tantos são, ainda hoje, admiradas.

Nesta época, surge uma das maiores figuras do teatro em Portugal, Gil Vicente, autor do Auto da Barca do Inferno. Considerado o pai do teatro literário português, teve o seu reconhecimento durante o reinado de D. Manuel, até por volta do reinado de D. João III, tendo iniciado as suas primeiras produções em 1502.

Os seus antecessores são as produções teatrais do período medieval, divididas em encenações litúrgicas, com influência direta da igreja, e encenações profanas, realizadas fora do templo religioso, tendo como temas festas e a vida popular. Eram consideradas as farsas, soties, momos, entremezes, sermão burlescos e éclogas.

A obra de Gil Vicente divide-se entre Autos Pastoris (Auto da Fé), Autos de Moralidade (Auto da Barca do Inferno), Farsas (A Farsa de Inez Pereira), Autos Cavaleirescos (Comédia do Viúvo) e Autos alegóricos do tema profano (Cortes de Jupter). A sua escrita inovadora também fez dele o pai do teatro moderno.

Edificação do Teatro Nacional D. Maria II

É no século XIX, no Romantismo, que os cânones barrocos e rococós são colocados de lado, e que Almeida Garrett, a pedido de Passos Manuel, ressuscita o teatro em Portugal. Do seu engenho, surgem peças como Frei Luís de Sousa e Falar Verdade a Mentir.

Almeida Garrett contribuiu para a redação da Constituição de 1838, fundou o Conservatório de Arte Dramática, edificou o Teatro Nacional D. Maria II e organizou a Inspeção-Geral dos Teatros, revolucionando por completo a política cultural portuguesa.

Do liberalismo à ditadura

Luiz Francisco Rebello foi uma figura central e decisiva na vida do teatro em Portugal, tendo sido um dos principais renovadores da literatura dramática e, crítico e historiador do teatro.

Em 1946, participou na fundação do Teatro Estúdio do Salitre onde, no ano seguinte, se estreou com a sua fábula num ato “O mundo começou às 5 e 47”. A sua obra conserva uma invulgar atualidade. Paralelamente à criação dramatúrgica, concretizou o auto de “O fim na última página”, desenvolvendo um trabalho no domínio da investigação da história do teatro em Portugal.

Depois da II Guerra Mundial, o teatro em Portugal teve como autores Alves Redol, Jorge de Sena, Bernardo Santareno, e outros tantos autores da questão social do Existencialismo. Alves Redol era um revolucionário liberal que escreveu tragédia, tornando-se o primeiro tragediógrafo português.

O teatro perante uma pandemia mundial

O teatro é o espelho da sociedade, a forma de expressão artística, social e política, mais inerente ao ser humano. Os textos e encenações são reflexos de formas de pensamento, épocas e vivências sociais.

Através dos textos dramáticos, fábulas e metáforas, o teatro consegue ser introduzido em qualquer época, tratando das relações entre os homens, que podem ser revisitadas a qualquer momento. A vida diária é uma constante inspiração para o teatro, sendo este um instrumento de reflexão.

Face à pandemia mundial provocada pelo SARS-CoV-2, resultou também a paralisação da cultura, estendendo-a a todas as áreas e representando perdas superiores a 70%, em relação ao ano de 2019.

O Instituto Nacional de Estatística revelou uma quebra na ordem dos 4,8 mil milhões de euros para a cultura em 2019. Em 2020, o colapso provocado pela pandemia levou a sessões de teatro anuladas, alterações de horário e salas com lotação reduzida a um terço. Para além disso, as companhias e profissionais viram-se confrontados com um enorme gasto na higienização das salas.

Os teatros comerciais, como o Maria Vitória e o Politeama, em Lisboa, fecharam as suas portas de forma temporária.

Com condições historicamente precárias, a pandemia veio dar palco às fragilidades existentes neste meio, transformando-se numa situação dramática para os artistas. O ano de 2020 foi considerando um ano de ruína para o teatro em Portugal e para toda a cultura.

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