Estes monstros subaquáticos inspiraram medo, superstições, filmes – e investigações

O grau de detalhe com que mapeámos os reinos subaquáticos do nosso planeta deixa muito espaço para surpresas. E, ao longo dos tempos, muitos – incluindo cientistas – procuraram essas surpresas.
Publicado 16/06/2021, 13:06 WEST

Existem monstros marinhos? Depende do que consideramos um monstro. Se mostrarmos um cachalote, um dragão de Komodo ou um tamboril das profundezas a alguém pela primeira vez, essa pessoa pode achá-los tão sensacionais quanto qualquer criatura de ficção ou mito. E até mesmo os cientistas acreditam que, quando se trata de desmistificar as áreas mais hostis do nosso planeta, provavelmente há muito mais vida bizarra para descobrir.

Contudo, há uma coisa que parece inevitável: quando se trata de criaturas grandes e inesperadas que são inéditas para a ciência, é provável que venham das profundezas do oceano. Muitos dos recantos dos nossos mares permanecem inexplorados e, com novas espécies descobertas em todas as grandes expedições às profundezas – um lugar difícil de alcançar mesmo para os humanos mais interessados – os nossos oceanos são um território fértil para novas descobertas.

A Carta marina et descriptio septentrionalium terrarum – nomeada em latim de acordo com as convenções cartográficas da época – foi o primeiro mapa detalhado da Escandinávia, impresso em 1539 e criado pelo cartógrafo sueco Olaus Magnus. Este mapa revela que era normal acreditar que todos os animais em terra tinham um equivalente marinho – e que havia monstros à espera nas águas.

Fotografia de Domínio público

Relativamente aos monstros marinhos da imaginação popular, as inúmeras representações na literatura e no grande ecrã provam que – com exceção talvez de Splash: A Sereia e das personagens aquáticas de Luca, da Disney e Pixar – estas criaturas raramente são amigáveis. O mistério em torno das profundezas, juntamente com a imaginação e os receios daqueles que as navegam, formam um elenco impressionante de criaturas do fundo do mar que aterrorizam as águas da história há séculos. (A The Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic Partners).

Algumas destas lendas são tão intrigantes e historicamente interessantes que a ciência as investigou de forma longa e rigorosa. Alguns mitos podem ter sido exagerados a partir de animais que agora sabemos serem reais. Mas, ocasionalmente, a natureza produz as suas próprias surpresas. Eis alguns dos monstros marinhos mais famosos da história – e os seus equivalentes reais.

Cefalópodes colossais

Na Idade Média, para os marinheiros dos mares gelados do norte, o kraken não era uma piada. Nascido do mundo da mitologia escandinava, esta criatura com tentáculos – cujo nome vem do antigo termo nórdico para polvo – escondia-se no oceano entre a Noruega e a Gronelândia, subindo ocasionalmente à superfície para petiscar um navio ousado que se atravessasse no seu caminho.

A fábula do kraken foi bastante desenvolvida: por exemplo, pescar sobre a zona onde a criatura descansava no fundo do mar dava uma boa captura, pois os peixes eram atraídos pelas suas regurgitações. O próprio animal (acreditava-se que havia pelo menos dois) era imenso: do tamanho de uma ilha, e confundia os marinheiros ao aparecer e desaparecer na névoa. As descrições do kraken sugerem uma combinação de criaturas de tamanhos fantásticos, e parecia ter características de uma lula-gigante, tubarão-frade, cachalote e caranguejo.

Uma gravura de 1801 de Pierre Denys de Montfort mostra um polvo colossal que supostamente atacou um grupo de marinheiros ao largo de Angola. Os maiores cefalópodes da vida real estão muito longe desta escala: o polvo-gigante do Pacífico pode ter uma envergadura de cerca de quatro metros, enquanto que a maior lula-gigante alguma vez examinada tinha pouco mais de 13 metros desde o manto até à ponta do tentáculo. Mas esta lula pode atingir comprimentos muito maiores.

Fotografia de PIERRE DENYS DE MONTFORT / WIKIMEDIA COMMONS

Embora a crença nesta criatura fosse aparentemente universal entre os marinheiros, os naturalistas também levaram o kraken a sério: fez parte da primeira versão de Carl Linneaus do Systema Naturae – categorizado Microcosmus marinus – bem como de uma história natural norueguesa de 1752, onde o autor Erik Pontoppidan descreveu a criatura como sendo ‘redonda, achatada e repleta de braços ou ramos’; Erik também encontrou espaço para sereias e serpentes marinhas, mas o conhecimento dos mares na época era, na melhor das hipóteses, duvidoso.

É compreensível: nos tempos que antecederam os submersíveis e equipamentos de mergulho, a maioria das noções sobre os grandes animais marinhos baseava-se em vislumbres parciais no mar ou em carcaças inchadas que davam à costa – portanto, é compreensível que uma determinada conjectura estivesse presente durante grande parte dos primeiros dias da navegação marítima. Os mapas da época retratavam águas repletas de todos os tipos de monstros que ameaçavam navios, e este conceito demoraria muitos anos até se afundar teimosamente.

Na parte inferior desta imagem, captada a 730 metros de profundidade em Kaikoura Canyon, um fosso na Ilha Sul da Nova Zelândia, um tubarão é atacado por uma lula de alto-mar. As lulas – como a lula-de-humboldt – são predadores formidáveis, mas o seu comportamento no fundo do mar tem sido pouco observado. Este comportamento inédito sugere que as lulas dominam o seu ambiente, e algumas teorias sugerem que é completamente possível existir gigantismo entre os animais que raramente saem das profundezas.

Fotografia de EMORY KRISTOF / NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

Em 1809, o botânico George Shaw ainda falava abertamente sobre o kraken nas suas palestras de zoologia para a Royal Institution, citando que os chocos do Oceano Índico (provavelmente estava a confundi-los com lulas), que eram parentes europeus da espécie ‘extremamente grande’, eram os responsáveis pela lenda: “Um naturalista moderno escolhe distinguir esta espécie tremenda com o título de choco Colossal, e parece amplamente disposto a acreditar em tudo o que foi relatado sobre as suas devastações.” George Shaw continuou a descrever um ataque a um barco em ‘mares africanos’, onde três marinheiros foram capturados e mortos por tal ‘monstro’. Um tentáculo cortado durante a luta tinha a espessura de um mastro de navio e as ventosas eram do tamanho de tampas de panela.

As descrições posteriores, que reduziram as dimensões extremas, desmistificaram de forma consistente este animal, chegando a um ponto em que se tornou na criatura reconhecível que sabemos existir – embora continue envolta em mistério.

Vídeo raro de uma lula gigante viva

A lula-gigante, por exemplo – tal como a sua contraparte austral mais volumosa, mas mais pequena, a lula-colossal – mantém uma mística inebriante e conta apenas com meia dúzia de avistamentos registados. O que sabemos é extrapolado a partir das análises de parentes temíveis, como a lula-de-humboldt, da carcaça ocasional e das cicatrizes observadas em criaturas como tubarões e cachalotes que lutam contra estas lulas nas profundezas.

Com ventosas dentadas, um bico assustador e olhos do tamanho de pratos, estes invertebrados fazem lembrar muitos dos relatos do kraken. No entanto, as suas proporções ainda ficam um pouco aquém: o maior espécime de lula-gigante registado até agora mede 13 metros de comprimento, com alguns especialistas a especularem que podem atingir os 27 metros, e outros a sugerirem tamanhos ainda maiores. No entanto, são apenas conjecturas – o que significa que, tal como qualquer verdadeiro monstro marinho, não sabemos realmente o que pode estar lá em baixo.

Esta imagem inquietante do período Edo, do artista japonês Utagawa Kuniyoshi, retrata o Umibozu a erguer-se no mar para enfrentar ‘o marinheiro Tokuso’. As representações do Umibozu variam, mas a cabeça escura e os olhos proeminentes são recorrentes. Surgindo quando a água está calma e provocando uma tempestade, o Umibozu está associado a nuvens de tempestade e a outros fenómenos atmosféricos.

Fotografia de Domínio público

Manifestações sinistras

Entre os fenómenos marinhos mais assustadores está o Umibozu do Japão – que emerge nos mares noturnos como uma aparição negra, muitas vezes quando as águas estão a ficar agitadas. Com uma cabeça arredondada que faz lembrar a nuca de um monge budista – daí o nome, que significa “sacerdote do mar” – o Umibozu é referido de várias formas no folclore japonês desde o século XVII, embora as suas origens sejam ambíguas.

No folclore, o Umibozu é um presságio para uma tempestade que se aproxima, e a sua lenda muitas vezes mistura-se com a dos funa yueri – as almas de marinheiros afogados – onde pede uma concha para inundar um barco com água, para o afundar. As explicações para este fenómeno incluem ondas de tempestade, “mammatus”, ou nuvens de tempestade, e até mesmo miragens.

Tubarões gigantes

Os tubarões monstruosos já foram bastante reais, e talvez seja por isso que algumas pessoas continuam a acreditar que ainda podem existir. Também há boas razões para que isso aconteça, mas provavelmente não com os tamanhos que se imagina. Saberíamos, por exemplo, se o Megalodonte – um tubarão pré-histórico de 18 metros com dentes do tamanho de tijelas para salada – ainda estivesse ativo quase 4 milhões de anos depois da sua última aparição no registo fóssil. (O Megalodonte está definitivamente extinto – e o tubarão-branco pode ser o culpado.)

As marcas de dentadas em carcaças à deriva e o rasto de migalhas no fundo do mar ofereceriam muitas evidências de que um predador de águas temperadas com uma dieta tão exigente ainda estaria à solta nos mares. Mas as águas mais frias e profundas, que abrigam criaturas mais adaptáveis, ainda podem conter muitas surpresas.

Um tubarão-boca-grande, raramente avistado vivo, fotografado ao largo da costa da Califórnia. O tubarão-boca-grande, o mais pequeno dos tubarões que se alimentam através de filtragem, é um peixe enorme, atingindo os cinco metros de comprimento e, como o próprio nome indica, está equipado com uma enorme boca repleta de dezenas de fileiras de pequenos dentes.

Fotografia de BIOSPHOTO / ALAMY

Por exemplo, o tubarão-boca-grande, um tubarão enorme e impressionante que vive em águas tropicais e que se alimenta através de filtragem, tem cinco metros de comprimento e 50 fileiras de dentes minúsculos. Este tubarão foi descoberto pela primeira vez em 1976 – estava emaranhado nos cabos de um barco de investigação ao largo do Havai. Conhecido apenas pelos espécimes capturados em redes, ou pelas carcaças que dão à costa em estado de inchaço, estas criaturas raramente foram observadas vivas, sendo um bom exemplo das curiosidades que ainda podem estar escondidas nas profundezas.

Tubarão-Boca-Grande Extremamente Raro Filmado em Vídeo

Podem não existir plesiossauros ou tubarões gigantes, mas se fossem necessárias evidências de que os mares fornecem aparições surpreendentes de criaturas consideradas mortas há muito tempo, basta olhar para o celacanto. Até 1938, acreditava-se que este estranho peixe de 1,80 metros tinha morrido com os dinossauros, até que foi encontrado um espécime vivo na costa da África do Sul.

A anatomia do celacanto despertou muito interesse quando o peixe foi redescoberto em 1938. Este predador enorme está equipado com um crânio articulado para digerir presas grandes.

Fotografia de WILLIAM H. BOND / NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

Ostentando uma série de características primitivas, como um crânio articulado, espinha oca, oito barbatanas com lóbulos grossos que se movem como as pernas de criaturas terrestres e olhos pálidos aperfeiçoados para ambientes sem luz, o celacanto também ganhou uma segunda espécie em 1998, que foi encontrada na Indonésia – contribuindo para o renascimento de uma linhagem há muito considerada extinta.

Sereias

Por vezes, quando uma lenda está bastante enraizada na mente de uma pessoa, basta uma pequena semelhança passageira para a mente preencher as lacunas. Pode ter sido o que aconteceu quando Cristóvão Colombo se aproximou da costa da República Dominicana em 1493 e avistou sereias. “Elas não são tão bonitas quanto dizem”, escreveu Colombo no seu diário, “pois os seus rostos tinham alguns traços masculinos”.

“Traços masculinos”: Um manatim das Índias Ocidentais investiga a câmara. Os manatins movem-se lentamente e não têm predadores naturais, mas são frequentemente feridos inadvertidamente por humanos e enfrentam desafios consideráveis.

Fotografia de SHUTTERSTOCK / NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

É quase certo que o que Colombo estava a descrever era um manatim que – para além dos traços faciais – tem muito mais para se distinguir das sereias das lendas. Atingindo os 3,6 metros de comprimento e envoltos em gordura, os manatins podem pesar até 500 quilos e têm um focinho largo com narinas que se fecham debaixo de água, barbatanas e uma cauda em forma de remo. No entanto, a associação tornou-se tão intrínseca que o nome científico da família dos manatins e dos seus primos do Pacífico, os dugongos, passou a refletir o das suas homólogas míticas: sirenian. Em malaio, a palavra dugongo significa “senhora do mar”.

Monstros do lago

Poucos corpos de água no mundo romantizaram tanto um monstro aquático como o Lago Ness. Este lago de 37 quilómetros de comprimento – ligado através de canais ao mar e amplo o suficiente para abrigar todos os lagos e reservatórios de Inglaterra e do País de Gales juntos – foi analisado na imprensa como sendo o lar de uma criatura misteriosa durante quase um século. Embora as suspeitas sobre estas águas locais remontem aos tempos do missionário cristão São Columba – que alegadamente teve uma altercação com uma “besta aquática” no século VI – a saga moderna começou no dia 2 de maio de 1933, quando um artigo publicado no Inverness Courier apresentou o relato de uma testemunha ocular de um “animal enorme a girar e a mergulhar na superfície do lago”.

O tamanho do Lago Ness – com quase 40 quilómetros de comprimento e chegando a atingir os mais de 200 metros de profundidade em alguns locais – significa que tem território considerável para se conseguir rastrear qualquer coisa. Os rumores sobre um monstro nas suas profundezas persistem; a imagem mais recente a chamar a atenção foi encontrada nos mapas Apple.

Fotografia de EMORY KRISTOF / NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

Um ano depois, surgiu uma fotografia agora infame que aparentemente mostra uma criatura semelhante a um plesiossauro de pescoço comprido a emergir da água, e rapidamente provocou o furor na imprensa. Desde então, uma série de imagens impressionantes (e duvidosas) alimentaram o mito em torno da criatura conhecida por Nessie.

A maioria dos avistamentos compara a criatura a uma serpente, ou a uma espécie de lagarto aquático do tipo plesiossauro, sugerindo que os dinossauros de alguma forma continuaram a prosperar nas águas do lago ricas em peixe. É uma ideia tentadora, dado que o Lago Ness – com profundidades de até 220 metros em alguns lugares – é consideravelmente mais profundo do que a maior parte do Mar do Norte. As explicações mais prosaicas incluem um enorme tubarão de água doce, uma lula particularmente adaptável, enguias ou até mesmo uma lontra.

Fotógrafos e cientistas da National Geographic mergulham no Lago Ness para um artigo de 1977 que investigava o lago escocês e os seus antigos habitantes.

Fotografia de EMORY KRISTOF / NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

Para algo que representa a definição de criptozoologia – e com uma série de embustes na bagagem, incluindo a fotografia que possivelmente começou tudo – foi dada uma considerável atenção científica para estabelecer a existência, ou não, de uma criatura inesperada no Lago Ness. Isto inclui estudos de sonar feitos pela Universidade de Birmingham, e outro estudo patrocinado pela BBC e um perfil de ADN do lago que foi realizado por um trio de universidades europeias.

Em 1977, a National Geographic também entrou em ação, recrutando o fotógrafo subaquático David Doubilet e o explorador Robert Ballard para conduzir um estudo fotográfico sobre as profundezas do lago. Robert Ballard iria encontrar o Titanic oito anos mais tarde, mas nenhuma destas expedições encontrou qualquer evidência conclusiva de um “monstro” no Lago Ness. Contudo, apesar de tudo o que foi feito para refutar a sua existência, o rentável mistério local em torno do Lago Ness não dá sinais de desaparecer nas profundezas.

Luca, um filme da Disney e Pixar, está disponível em exclusivo no Disney+ a partir de 18 junho.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

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