O turismo de Portugal e a origem dos caminhos de ferro

A história do turismo de Portugal converge com a origem dos caminhos de ferro. A construção da rede ferroviária impulsionou novos padrões de mobilidade e o desenvolvimento da sociedade.

Publicado 14/06/2021, 17:18
Estação Ferroviária do Rossio

A Estação Ferroviária do Rossio, localizada no centro de Lisboa, começou a ser construída na década de 1880.

Fotografia de Filipa Coutinho, National Geographic

A origem dos caminhos de ferro e as novas possibilidades de viajar, proporcionaram um impulso ao turismo de Portugal. Embora uma Companhia das Obras Públicas de Portugal tenha nascido em 1844, para promover a construção dos caminhos de ferro, foi apenas em 1852 que surgiu a Companhia Central Peninsular dos Caminhos de Ferro de Portugal, em Londres.

Nesse mesmo ano, a Companhia assinou um termo de concessão provisória, com o governo português, para a construção do caminho de ferro de Lisboa a Santarém, assim como, até à fronteira.

Ainda em 1852, também foi criado o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, tendo o governo autorizado a construção de um caminho de ferro que partia da cidade do Porto, convergia com a linha férrea de Lisboa e ia até à fronteira de Espanha.

Dificuldades técnicas e financeiras não impediram o crescimento da rede ferroviária

O início da construção dos caminhos de ferro, pela Companhia Peninsular, representou o início da transformação da economia nacional, algumas dessas atividades económicas, orientadas ao turismo de Portugal.

Em 1856, concluiu-se o primeiro troço de caminho de ferro que ligava Lisboa ao Carregado, contudo, apenas em 1863 se concluiu a via que ligava Lisboa à fronteira. Entre a construção de alguns troços da linha do Norte, foi em 1868 que se inaugurou o serviço direto entre Lisboa e Madrid, e se iniciou o serviço entre Lisboa e Vigo.

As dificuldades técnicas e financeiras da época, que obrigavam a recorrer a técnicos e capitais estrangeiros, na implantação da rede ferroviária nos anos que se seguiram, não impediram a extensão dos ramais do caminho de ferro pelo país.

O impulso do turismo de Portugal e a transformação dos padrões de mobilidade

Ainda que apenas servindo os principais centros urbanos, no final de 1907, as vias-férreas elevavam-se a 2.388 quilómetros de via larga e 365 quilómetros de via estreita. Este crescimento alterou significativamente os padrões de mobilidade da população no interior do país, permitindo percorrer maiores distâncias e em menos tempo.

Desta mudança na forma de viajar entre cidades, surgiu a necessidade de criar estações para o embarque e desembarque de pessoas e mercadorias. As construções levadas a cabo para este efeito eram consideradas as portas das cidades, pelo que as técnicas de arquitetura aplicadas eram as mais modernas e vanguardistas, contribuindo para a educação do gosto estético do povo, tal como os templos já o faziam.

O turismo de Portugal foi assim impulsionado pela construção dos caminhos de ferro no país, uma vez que o aumento de circulação de pessoas através deste meio de transporte revelou-se bastante significativo. Devido às obras de redes ferroviárias exigirem elevados capitais, foi essencial obter economias de escala, que permitissem a retribuição do capital investido. A utilização mais intensa e diversificada dos comboios tornou-se uma necessidade diária e constante.

Propagandas e incentivos ao turismo de Portugal

As Companhias ferroviárias começaram por propor tarifas diferenciadas, entre as viagens destinadas aos locais de lazer como praias, termas e outros, e as viagens ditas recorrentes.

Por outro lado, organizavam-se comboios especiais (por exemplo, a preços mais baratos durante a época balnear) com o objetivo claro de atrair um maior número de turistas.

O turismo de Portugal, pela promoção dos caminhos de ferro das Companhias, investiu em várias iniciativas como publicações de guias de viagem, tarifas especiais durante os meses de verão, organização de viagens de acordo com acontecimentos particulares, como exposições, congressos e feiras, viagens com destinos a monumentos e viagens circulatórias.

Os primeiros guias surgiram nas primeiras décadas do século XIX, relacionados com o desenvolvimento dos caminhos de ferro. Reuniam informações sobre hotelaria, o valor da moeda, a distância a postos de correio, meios de transportes e principais vias de ligação a outras localidades, entre outros, relacionados ao turismo de Portugal.

Foi em 1882 que se iniciou a publicação quinzenal de O Guia Oficial dos Caminhos de Ferro de Portugal onde, entre outras informações, era possível saber a lista das estações e tarifas, assim como descontos para época estival, destinos de lazer e excursões organizadas.

Turismo de Portugal recomendado a todas as classes sociais

Para motivar a um turismo com maior comodidade, as Companhias atraíam uma classe mais elevada, através da garantia de melhor conforto e diferenciação, avaliada como 1.ª classe. Esta tarifa era, em média, 23% mais cara que os da 2.ª, e 55% mais cara do que a 3.ª classe. Apesar da iniciativa, entre 1877 e 1904, o número dos viajantes em 1ª classe era reduzido, representando entre os 5 e 8% de ocupação. A 2.ª classe representava entre os 18 e 20% e, a 3.ª classe, entre os 72 e 77%.

No entanto, quanto à taxa de ocupação nos meses de julho a outubro, nas linhas do estado, do Leste, do Norte, do Minho, do Douro, da Beira Alta, do Porto à Póvoa e Guimarães, já subia exponencialmente para 30%, 30% e 40%, correspondendo respetivamente à 1.ª, 2.ª e 3.ª classe.

Os caminhos de ferro do Sul e Sueste tiveram um maior crescimento nas tarifas de banhos entre 1908 e 1913, num aumento de cerca de 33%, embora nos últimos três anos as receitas se tenham estagnado. Por outro lado, houve algum crescimento nas excursões e comboios especiais.

As viagens circulatórias, os itinerários, os bilhetes quilométricos e os Comboios Mistério

No final da década de 1880, a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses criou as viagens circulatórias em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente em Espanha e França. Em 1891 foram apresentados dois itinerários diferentes, onde todos tinham início e fim em Lisboa.

As diferentes formas de viagens de lazer, com vista a impulsionar o turismo, foram alvo constante das Companhias, de forma a aumentar o tráfego nas suas linhas de ferro. A partir de 1887, também para contemplar mais excursões, foram criadas as tarifas reduzidas para grupos escolares e os seus docentes.

Em 1906 surge mais uma proposta, com os bilhetes quilométricos, onde cada utente pagava pelos quilómetros percorridos, independentemente do destino da sua viagem. Os viajantes deixaram de estar condicionados a itinerários previamente definidos, obtendo a liberdade de, a qualquer momento, modificarem a sua viagem.

O turismo de Portugal estagna, por volta de 1915, onde se verifica a fraca promoção de iniciativas às viagens, muito graças à situação de conflito militar da época. Apenas em 1932 volta a surgir uma nova iniciativa, desta vez os “Comboios Mistério”. Nestes, os viajantes desconheciam o destino e partiam à aventura.

A história dos caminhos de ferro aflui no incremento do turismo

A rede de caminhos de ferro veio proporcionar viagens mais rápidas, mais seguras, cómodas e baratas, ligando uma grande diversidade de locais em pouco tempo. A mobilidade não foi mais a mesma e, as diferentes iniciativas promocionais, campanhas publicitárias, entre outras ações, promoveram de forma significativa o turismo de Portugal.

Qualificar e diversificar a oferta cultural foi o que permitiu aproximar as comunidades e atrair turistas. A história dos caminhos de ferro vai para além da característica dos transportes e das suas estações. Além disso, trata-se um registo de pessoas, vivências e experiências quotidianas, tendo os caminhos de ferro um papel fundamental no desenvolvimento da sociedade, da vida quotidiana, dos hábitos, costumes, e no próprio turismo de Portugal.

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