A história brutal das Olimpíadas Populares de 1936 – um boicote ao fascismo e a Hitler

Os atletas pegaram em armas quando os jogos alternativos, que protestavam contra as Olimpíadas na Alemanha nazi, foram atingidos pela guerra.

Por James Stout
Publicado 29/07/2021, 11:51
Cartaz da candidatura espanhola aos Jogos Olímpicos de 1936

Atletas de raças diferentes seguram uma bandeira das Olimpíadas Populares, que iriam acontecer em Barcelona em 1936 como protesto antifascista contra os jogos oficiais na Alemanha nazi.

Fotografia de Photo12/Universal Images Group/Getty

No dia 3 de julho de 1936, um mês antes do evento que ficou conhecido por Olimpíadas Nazi em Berlim, um grupo de atletas americanos embarcou num navio com destino à Europa. A equipa dos EUA incluía velocistas negros do bairro de Harlem, ginastas judaicas de Manhattan e um pugilista birracial de Pittsburgh. O treinador da equipa era Abraham Alfred “Chick” Chakin, um imigrante cuja família tinha fugido da perseguição na Rússia. Abraham, um lutador de wrestling aposentado, regressou ao ativo para liderar os atletas, mas estes não se dirigiam para os jogos oficiais na Alemanha. Os atletas iam para Espanha, para as Olimpíadas Populares, que prometiam ser “o maior espetáculo antifascista alguma vez visto”.

Embora os Jogos Olímpicos de 1936 sejam recordados como os jogos onde o velocista afro-americano Jesse Owens envergonhou a ideologia racista nazi ao vencer o maior número de medalhas de ouro, os atletas nas Olimpíadas Populares esperavam que os seus jogos demonstrassem a força do movimento antifascista. E rapidamente descobriram que a competição contra o fascismo era muito mais brutal do que antecipavam.

As Olimpíadas Populares, com inauguração agendada para o dia 19 de julho de 1936, surgiram de um movimento global que boicotava o evento na Alemanha, a primeira tentativa de boicote deste tipo na história olímpica. Mas esta não era a primeira vez que as Olimpíadas eram afetadas por eventos mundiais. Os jogos foram cancelados em 1916 durante a Primeira Guerra Mundial; e seriam novamente cancelados durante a Segunda Guerra Mundial e adiados em 2020 devido à pandemia. No verão de 1936, muitas pessoas já não conseguiam ignorar o que estava a acontecer na Alemanha: Hitler tinha remilitarizado a Renânia, uma clara violação do tratado de Versalhes que encerrou a Primeira Guerra Mundial, e começou a prender judeus, ciganos, militantes de esquerda, homens acusados de serem homossexuais e pessoas com deficiências e a enviá-las para campos de concentração.

As Olimpíadas de 1936 em Berlim foram um golpe de propaganda para os nazis. Durante a cerimónia de abertura, a tocha olímpica foi transportada pelas fileiras da Juventude Hitleriana.

Fotografia de Getty

Ainda assim, a campanha de boicote não conseguiu convencer os países a manter os seus atletas em casa. A Conferência Internacional pelo Respeito do Ideal Olímpico, realizada em abril desse ano em Paris, apresentou outro plano – um evento alternativo que apresentaria a Frente Popular, a aliança de militantes de esquerda, liberais, comunistas e socialistas unidos para impedir a propagação do fascismo. O governo catalão em Barcelona ofereceu-se para organizar os jogos, embora Espanha estivesse numa espiral de conflito. No início daquele ano, tinham sido eleitos governos da Frente Popular em Barcelona e Madrid – uma afronta aos monarquistas, fascistas, extremistas católicos e proprietários de terrenos de direita. Mesmo assim, cerca de 20.000 atletas e adeptos antifascistas decidiram participar nos jogos.

Os eventos alternativos não eram uma ideia nova. A Olimpíada Internacional dos Trabalhadores tem sido realizada a cada quatro anos desde 1921 para conter a tendência aristocrática dos jogos oficiais, mas um esforço socialista excluiu anarquistas e outros membros da Frente Popular deste evento. Os Jogos da Macabeia foram lançados em 1932 e continuam até hoje, mas é uma competição principalmente dirigida para atletas judeus e, posteriormente, israelitas.

As Olimpíadas Populares seriam diferentes, sobretudo dos eventos oficiais em Berlim. Durante a cerimónia de abertura, judeus exilados da Europa e povos colonizados do Norte de África entrariam no estádio com equipas que representavam estados-nação e nações sem estado, acompanhados por uma música composta por um judeu alemão exilado com letra escrita por um poeta catalão. A assistência era composta por pessoas de 21 nações, e o primeiro evento atlético dos jogos seriam os 10x100 metros estafetas, uma corrida de estafetas com 10 pessoas projetada para recompensar as nações por elevarem a aptidão dos seus trabalhadores, em vez de celebrarem o talento individual.

As mulheres também iam competir, com mais oportunidades para demonstrar as suas aptidões do que as permitidas pelo Comité Olímpico Internacional em Berlim. “O quadro das Olimpíadas não estaria completo se uma mulher não ocupasse o seu devido lugar na competição”, proclamavam os organizadores, entre eles o Clube Desportivo Feminista Catalão.

As Olimpíadas Populares, planeadas em apenas três meses, não conseguiam oferecer os luxos dos jogos oficiais. Os atletas em Berlim ficavam na recém-construída Aldeia Olímpica (quando os atletas partiram, a aldeia abrigou a Legião Condor, a unidade militar alemã que um ano depois iria bombardear a cidade basca de Guernica, matando centenas de civis). Os atletas em Barcelona ficaram em casas, albergues e no recém renomeado Hotel Olympic. Nas semanas que antecederam os jogos, as autoridades catalãs percorreram a cidade a tentar desesperadamente encontrar mais quartos devido ao apetite inesperado por umas Olimpíadas antifascistas. Quando os jogos foram prolongados de quatro dias para uma semana, os cartazes já pendurados tiveram de ser atualizados individualmente.

A equipa dos EUA chegou a Barcelona no dia 15 de julho. Os atletas ouviam rumores de agitação em Espanha – rumores de um golpe de estado – mas a velocista Dot Tucker, a única mulher na equipa, recordou mais tarde que “não tínhamos medo”. Abraham Chakin tentou em vão manter os atletas longe dos bares e casas noturnas de Barcelona. No entanto, na noite anterior aos jogos, os atletas recolheram mais cedo aos seus aposentos.

Algumas horas depois, o velocista Frank Payton acordou com “o estrondo de canhões, vários milhares de metralhadoras e espingardas e o som de pés a marchar”. Da janela do hotel, os atletas observaram homens e mulheres a tirar pedras da calçada e a encher sacos de areia para construir barricadas. Pouco tempo depois, o exército espanhol entrou a marchar pela cidade, com a intenção de derrubar o governo catalão.

Combatentes da milícia republicana, que apoiavam o governo de esquerda, marcham no início da Guerra Civil Espanhola em 1936.

Fotografia de Universal History Archive/Universal Images Group/Getty

Os civis nas barricadas ripostaram. “Socialistas, comunistas e sindicalistas uniram-se para erradicar o fascismo”, disse Payton mais tarde em entrevista. “As mulheres defenderam barricadas; algumas até lideraram destacamentos de trabalhadores contra os fascistas.” Muitas destas mesmas mulheres formaram o Clube Desportivo Feminista, que convidava jovens mulheres catalãs para competir e lutar enquanto força igual à dos homens. Os anarquistas catalães chegaram a avançar sobre os militares com as mãos no ar, falaram com os soldados e convenceram-nos a virar a artilharia contra os seus próprios oficiais.

Esta batalha impressionou os jovens americanos. Charlie Burley, um pugilista campeão nacional de Pittsburgh, correu para a rua com os seus companheiros assim que o tiroteio parou e pegou numa pá para reforçar as barricadas. Alemães e italianos exilados também se juntaram à luta, porque sabiam que a única forma de regressar para casa seria derrotando o fascismo, primeiro em Espanha e depois em Berlim e Roma. Por toda a cidade, os trabalhadores muniram-se com armas pilhadas em arsenais e conseguiram repelir os esforços dos militares espanhóis.

Em poucas horas, o antifascismo passou de uma ideia para uma ação, terminando numa vitória esmagadora na capital catalã. O golpe estava derrotado, por enquanto, mas as Olimpíadas Populares não seriam realizadas. A Guerra Civil Espanhola tinha começado.

Quando os confrontos terminaram, as equipas de atletas marcharam pelas ruas a cantar o hino de esquerda “The Internationale” nas suas próprias línguas. Um atleta francês foi morto, o primeiro entre mais de 15.000 vítimas internacionais deste conflito. Muitos dos atletas partiram no final da semana. “Vocês vieram para os jogos e ficaram para assistir à vitória da Frente Popular”, disseram os organizadores. “Espalhem pelo mundo as notícias do que viram em Espanha.”

Nem todos os atletas iriam ficar em casa durante muito tempo. Abraham Chakin ficou abalado com o que testemunhou em Barcelona. No ano seguinte, Abraham e a sua esposa, Jennie Berman Chakin, regressaram a Espanha. Jennie estabeleceu um programa de terapia artística para as crianças deslocadas pela guerra, enquanto Abraham partiu para a frente de batalha, onde serviu no Batalhão Mackenzie-Papineau. Em março de 1938, Abraham foi capturado pelos nacionalistas e executado.

Entre os atletas que iriam competir nas Olimpíadas Populares, cerca de duzentos lutaram com os republicanos em Espanha. A maioria destes atletas morreu. George Orwell, que também participou no conflito, disse uma vez que o desporto era uma “guerra sem tiros”, mas os antifascistas que em 1936 foram a Barcelona para assistir aos jogos estavam realmente a participar numa competição de vida ou morte.

 


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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