‘A vossa maldita revolução’: Como uma música inspirou os protestos em Cuba

‘Patria y Vida’ vira do avesso um slogan de Fidel Castro, inspirando milhares de pessoas a exigir reformas nesta nação insular.

Por Nancy San Martín, Mimi Whitefield
Publicado 15/07/2021, 13:00
Cantor Yotuel Romero fala aos manifestantes em Miami

O cantor Yotuel Romero fala aos manifestantes reunidos em frente ao restaurante Versailles, no bairro de Little Havana, em Miami, numa demonstração de solidariedade para com os milhares de cubanos que saíram às ruas no dia 11 de julho de 2021 para exigir liberdade, reformas, vacinação contra a COVID-19 e mais. Yotuel faz parte do grupo de artistas que escreveu a canção Patria y Vida, o hino não oficial das pessoas que exigem uma mudança em Cuba.

Fotografia de Joe Raedle, Getty Images

O movimento começou com uma melodia, Patria y Vida. É este o título de uma canção lançada em fevereiro deste ano por um grupo de artistas cubanos de hip-hop e reggaeton – uma canção que fala por si e que evoluiu para se tornar num grito de guerra para exigir mudança. No domingo, milhares de pessoas saíram às ruas das cidades de Cuba para proferir estas palavras, dando origem ao maior protesto nacional em décadas. Outras centenas de pessoas reuniram-se em Miami numa demonstração de solidariedade.

“Patria y Vida”, cantavam os cubanos em vídeos que se tornaram virais e que serviram de megafone para que mais pessoas se juntassem aos protestos conforme o dia avançava. O povo cubano exigia liberdade, acesso a vacinas COVID-19, alimentos, o fim da miséria. As multidões representavam uma imagem transversal da população, mas muitos dos rostos nas publicações partilhadas nas redes sociais eram de jovens, como os artistas que escreveram a canção – que contém um discurso contra um governo que tem mantido um controlo firme desde que o falecido Fidel Castro ascendeu ao poder em 1959.

Naquela época, o governo emitiu o seu próprio decreto de três palavras, Pátria ou Morte. A letra da música de 2021 é uma resposta de revolta a este antigo slogan revolucionário.

No más mentiras
Mi pueblo pide libertad, no más doctrinas

“Acabaram-se as mentiras. O meu povo pede liberdade, não mais doutrinas.” O vídeo que acompanhou o lançamento da música no YouTube no início deste ano tem imagens de atos menores de protesto que terminaram com detenções violentas. “Não vamos gritar mais ‘pátria ou morte’, mas sim ‘pátria e vida’”, dizem os cantores, “e começar a construir o que sonhamos, o que eles destruíram.”

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, foi rápido a culpar os Estados Unidos pelos protestos que aconteceram por toda a ilha, referindo o embargo comercial dos EUA como o catalisador para as adversidades vividas em Cuba. O presidente rotulou os manifestantes de rebeldes financiados por pessoas de fora que estão determinadas a fraturar “a unidade do nosso país”. E exortou os cidadãos “revolucionários” a tomarem as ruas em contraprotestos, havendo relatos de ativistas de direitos humanos e publicações nas redes sociais que documentam detenções por toda a ilha.

“Devemos deixar claro ao nosso povo que as pessoas podem estar insatisfeitas, isso é legítimo, mas devemos conseguir ver claramente quando estamos a ser manipulados”, disse na segunda-feira Miguel Díaz-Canel durante um discurso transmitido pela televisão nacional controlada pelo regime. “Eles querem mudar um sistema para impor que tipo de governo em Cuba?”

Esquerda: Superior:

Uma manifestação contra o governo cubano em Havana, no dia 11 de julho de 2021. Milhares de cubanos participaram nestes raros protestos contra o governo comunista, marchando por várias cidades a gritar “abaixo a ditadura” e “queremos liberdade”.

Direita: Fundo:

Ramon Espinosa, fotógrafo espanhol da Associated Press, foi agredido pela polícia enquanto fazia a cobertura de uma manifestação contra o governo cubano em Havana, no dia 11 de julho de 2021.

Fotografia de Yamil Lage, AFP/Getty Images(Esquerda)(Superior)
Fotografia de Adalberto Roque, AFP/Getty Images(Direita)(Fundo)

Em Washington, a Casa Branca emitiu uma declaração de solidariedade para com o povo cubano.

“Estamos ao lado do povo cubano no seu clamor por liberdade e alívio das trágicas garras da pandemia e das décadas de repressão e sofrimento económico a que foi submetido pelo regime autoritário de Cuba”, dizia a declaração. “O povo cubano está corajosamente a defender direitos fundamentais e universais. Estes direitos, incluindo o direito ao protesto pacífico e o direito de determinar livremente o seu próprio futuro, devem ser respeitados. Os Estados Unidos pedem ao regime cubano para ouvir o seu povo e servir as suas necessidades neste momento vital, em vez de enriquecer indevidamente.”

A economia de Cuba tem estado numa espiral descendente nos últimos anos. Há pouco dinheiro nos cofres do governo para a importação de alimentos ou medicamentos, as dificuldades na importação de petróleo levaram a cada vez mais cortes de energia, a reforma monetária aumentou a inflação e as restrições às remessas vindas do estrangeiro reduziram o fluxo financeiro. O esforço que visava reabrir a indústria do turismo foi paralisado pela pandemia de COVID-19 e o número de casos positivos na ilha tem aumentado nas últimas semanas.

“Tudo o que podia correr mal, correu mal”, diz William LeoGrande, professor na Universidade Americana e especialista em Cuba. “[Miguel Díaz-Canel] está numa situação quase impossível. Não há nada que ele possa fazer a curto prazo que consiga resolver estes problemas.”

Apoiantes do regime gritam frases pró-governo enquanto manifestantes antigovernamentais marcham em Havana, Cuba, no domingo dia 11 de julho de 2021. Centenas de manifestantes saíram às ruas em várias cidades de Cuba para protestar contra a escassez de alimentos que dá origem ao aumento dos preços de produtos básicos entre outras questões.

Fotografia de Ismael Francisco, AP

As manifestações de domingo fazem parte de uma ação civil que tem vindo a crescer com o uso da tecnologia. O serviço de internet, que era rigorosamente controlado pelo governo, está agora mais acessível; os ativistas têm usado as redes sociais para documentar abusos, pedir liberdade de expressão e pressionar outras questões. Outros protestos esporádicos adicionais aconteceram novamente na segunda-feira, de acordo com as publicações nas redes sociais, e a polícia com equipamento anti-motim aumentou a sua presença nas ruas. O acesso à internet também foi temporariamente encerrado, segundo vários órgãos de comunicação.

Yotuel Romero, vocalista da banda Orishas e um dos dirigentes do projeto Patria y Vida, disse ao Miami Herald que a canção faz parte de um “despertar da juventude cubana”.

A música também sublinha o perfil dos afro-cubanos. Todos os cantores são negros. Isto é significativo para a população que cresceu na ilha, enquanto que os que têm recursos – muitos deles cubanos brancos ou de pele clara – fugiram. Para além de Yotuel, os outros artistas incluem Alexander Delgado e Randy Malcom da dupla de reggaeton Gente de Zona, o cantor e compositor Descemer Bueno e os rappers Maykel Castillo, conhecido por Maykel Osorbo, e Eliécer “el Funky” Márquez. Alguns destes artistas estavam na ilha quando a música foi produzida, outros estão exilados.

Patria y Vida dá-lhes uma voz”, diz Alejandro de la Fuente, presidente do Programa de Estudos de Cuba da Universidade de Harvard. “É uma voz popular. É uma voz afro-cubana. Vem do barrio

Os protestos de domingo também apresentaram “exigências e uma frustração que ganhou uma nova vida”, diz Alejandro de la Fuente. “Será que isto tem pernas para andar? Sim, a conversa muda. As pessoas que tomaram as ruas, não há forma de argumentar que estas pessoas são financiadas pelos EUA. Este é mais um evento que vai exigir uma reflexão no âmago de Cuba. Isto cria uma narrativa diferente e é uma narrativa poderosa.”

A última vez que uma grande multidão tomou as ruas de Cuba em protesto foi em 1994, uma ação conhecida por Maleconazo devido às centenas de cubanos insatisfeitos que encheram a marginal de Havana, chamada Malecón. Porém, esta manifestação limitou-se a Havana. Fidel Castro livrou-se da inquietação latente ao permitir que aqueles que queriam partir partissem para o mar num êxodo massivo. Mais de 35.000 cubanos fugiram naquele verão, um evento que ficou conhecido por crise balsero devido às embarcações precárias. Fidel Castro morreu em 2016 e o seu irmão mais novo, Raúl Castro, assumiu o poder, deixando o cargo de chefe do Partido Comunista em abril, quando Miguel Díaz-Canel foi nomeado seu sucessor, atuando como presidente e líder do partido.

Em Miami, na noite de domingo, o cantor de Patria y Vida, Yotuel Romero, apareceu para participar num protesto de solidariedade em Little Havana. De pé no tejadilho de uma carrinha, Yotuel levantou as mãos no ar e pediu às centenas de pessoas para se unirem a ele em oração por Cuba. Muitos ajoelharam-se.

Um homem agita uma bandeira de Cuba na rua perto de Versailles, um restaurante cubano no bairro de Little Havana, em Miami, na Flórida, numa manifestação de apoio aos protestos feitos em Cuba no dia 11 de julho de 2021. Milhares de pessoas saíram às ruas em Cuba numa rara manifestação que exige reformas.

Fotografia de Anna Moneymaker, Getty Images


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados