Escultura de uma cobra da Idade da Pedra encontrada na Finlândia

Os cientistas estão a tentar compreender o significado e o propósito desta descoberta singular feita nas margens de um lago com 4.000 anos.

Publicado 1/07/2021, 12:12 WEST
 Escultura de cabeça de cobra

Esta cobra com 4.000 anos foi feita a partir de ramos de madeira onde atualmente fica o sudoeste da Finlândia. Os investigadores especulam que pode representar uma cobra-de-água ou uma víbora europeia.

Fotografia de Satu Koivisto

As cobras têm sido receadas, veneradas e retratadas na arte ao longo da história da humanidade – quer seja no panteão dos deuses egípcios ou astecas, ou na forma dos antigos deuses cobra da Índia e do Mediterrâneo.

Agora, a mais recente adição a esta galeria mundial de arte de cobras da antiguidade vem dos campos alagados da Finlândia.

O artefacto de madeira único com 4.000 anos foi descoberto no ano passado em Järvensuo I, uma zona no sudoeste da Finlândia que abrange um trecho de turfa e lama, de acordo com um artigo publicado na revista Antiquity.

A estatueta de 53 centímetros de comprimento foi encontrada a cerca de meio metro de profundidade numa camada de turfa. Os traços da cobra foram cuidadosamente esculpidos num ramo, e o artista teve o cuidado de incorporar as curvas sinuosas do ramo para dar um efeito serpenteante.

Em entrevista à National Geographic, Satu Koivisto, arqueóloga da Universidade de Turku, na Finlândia, e autora principal do artigo, descreve como a descoberta do modesto artefacto “até nos fez arrepiar”.

“Ficámos em choque”, diz Satu.

Os investigadores salientam que a estatueta de madeira é um achado único no norte neolítico da Europa. Embora tenham sido ocasionalmente encontradas cobras feitas de madeira, de ossos, de âmbar ou de argila entre o leste do Báltico e os montes Urais, estas figuras são menos comuns do que as de outras criaturas, como aves aquáticas ou alces.

 

Esquerda: Superior:

Arqueólogos escavam o sítio pantanoso em Järvensuo I, no sudoeste da Finlândia, onde foram encontrados artefactos orgânicos do Neolítico bem preservados. O local está em perigo devido à drenagem.

Direita: Fundo:

Fotografias da cobra logo após a descoberta. Este achado raro “até nos fez arrepiar”, recorda a arqueóloga e investigadora-chefe Satu Koivisto.

Fotografia de Satu Koivisto

Artefacto inescrutável

Tanto o tipo de madeira como o tipo de cobra que representa ainda não foram identificados, mas os investigadores acreditam que se assemelha a uma cobra-de-água (Natrix natrix) ou a uma víbora europeia (Vipera berus).

Embora a cobra encontrada em Järvensuo I seja uma obra de arte neolítica, o seu propósito é inescrutável: Seria um brinquedo para crianças, ou um objeto de rituais? Será que foi acidentalmente abandonada, ou colocada deliberadamente onde foi encontrada cerca de 40 séculos depois?

Satu refere que o local onde a estatueta foi encontrada era uma pradaria exuberante e pantanosa, de difícil acesso e travessia.

As cobras tinham um enorme significado simbólico nas posteriores culturas fino-úgricas e Sámi do norte da Europa, e acreditava-se que os xamãs se transformavam em cobras, segundo os investigadores.

As cobras também estão representadas na arte rupestre da região, onde por vezes surgem nas mãos de figuras humanas. Não se sabe, no entanto, se estes exemplos representam estatuetas de cobras como a encontrada em Järvensuo I.

“Parece haver uma ligação entre cobras e pessoas”, disse o coautor do estudo, Antti Lahelma, da Universidade de Helsínquia, através de comunicado de imprensa. “Isto faz lembrar o xamanismo nórdico daquele período histórico, onde as cobras tinham um papel especial enquanto animais que ajudavam espiritualmente o xamã.”

“Mesmo que o intervalo temporal seja enorme, a possibilidade de algum tipo de continuidade é tentadora: Será que é um bastão de xamã da Idade da Pedra?”

Corrida contra o tempo

Após a sua descoberta acidental por escavadores de valas na década de 1950, Järvensuo I foi brevemente escavado na década de 1980, revelando materiais de pesca, cerâmica pertencente ao que se conhece por Cultura da Cerâmica Cordada e uma pá de madeira com uma alça em forma de cabeça de urso. A datação dos artefactos por radiocarbono mostrou que as pessoas ocuparam esta região há 4.000 a 2.000 anos, quando estava localizada nas margens de um lago que desapareceu há muito tempo.

Devido à natureza do local, muitos dos objetos orgânicos que normalmente se deteriorariam com o tempo, como a madeira, ficam preservados na turfa e na gyttja (lama de turfa decomposta). Contudo, os restos mortais parecem dissolver-se rapidamente neste ambiente ácido.

Graças a uma bolsa de três anos da Academia da Finlândia, a equipa de Satu Koivisto regressou ao local no ano passado. Devido à natureza do trabalho ao ar livre e à baixa prevalência de coronavírus na Finlândia, a equipa conseguiu realizar o trabalho de forma relativamente normal.

A maioria dos artefactos encontrados até agora estão relacionados com a pesca, incluindo flutuadores de redes e chumbadas feitas de casca de pinheiro e casca de bétula, bem como estacas de madeira que foram marteladas no fundo do antigo lago.

Os arqueólogos têm mais um ano de bolsa para investigar este local pantanoso único, e cada vez mais parece que estão numa corrida contra o tempo.

“Fiquei surpreendida com a quantidade de artefactos orgânicos que conseguimos recuperar em 2020. Mas as terras parecem muito cultivadas na região. Existe um sistema de drenagem sistemática de águas subterrâneas que está sempre em ação”, diz Satu.

“Alguns dos primeiros sinais de destruição destes materiais já são evidentes. Portanto, não temos muito tempo para fazer este tipo de descobertas.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

 

 

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