O primeiro desfile do Orgulho LGBTQ – um protesto ruidoso pela libertação homossexual

Em 1970, ativistas LGBTQ reuniram-se em cidades dos EUA para exigir os seus direitos civis. “Quem esteve lá não consegue falar sobre isso sem se arrepiar.”

Publicado 1/07/2021, 12:35 WEST
primeiro desfile de orgulho

No dia 28 de junho de 1970, o primeiro desfile do Orgulho LGBTQ – ou marcha de libertação homossexual, como era chamada na época – teve lugar na cidade de Nova Iorque. A adesão surpreendeu os próprios organizadores do desfile, incluindo Foster Gunnison e Craig Rodwell (na fotografia). Agora, o Orgulho é celebrado em todo o mundo.

 

Fotografia de Fred W. McDarrah, Getty

Quando John D’Emilio descobriu que um grupo de ativistas LGBTQ iria marchar pelas ruas de Nova Iorque em junho de 1970, contou ao namorado e a vários dos seus amigos homossexuais. Eles nem conseguiam acreditar no que ouviam. “A ideia... fez com que desatassem a rir loucamente”, recordou John D'Emilio durante uma entrevista ao site OutHistory. “Eles simplesmente não conseguiam imaginar algo assim.”

O seu ceticismo era fundamentado: até 1969, a ideia de um grupo enorme de pessoas LGBTQ a celebrar a sua orientação sexual em público era impensável. Durante séculos, a homossexualidade foi estigmatizada, criminalizada e perseguida. “Sair do armário” fazia-se acompanhar por ameaças de violência e ostracismo social.

Mas tudo mudou depois da revolta de Stonewall em 1969 – quando um grupo de pessoas LGBTQ se revoltou contra uma rusga da polícia no Stonewall Inn, um bar de homossexuais na cidade de Nova Iorque. No rescaldo de Stonewall, milhares de pessoas LGBTQ saíram à rua para exigir os seus direitos civis. Agora considerados os primeiros desfiles do Orgulho LGBTQ, as marchas de libertação homossexual que aconteceram em Nova Iorque e noutras cidades dos Estados Unidos em 1970 foram celebrações barulhentas de identidade – e um vislumbre provocador das décadas de ativismo que se seguiriam.

Stonewall desencadeia um movimento

Apesar da crescente homofobia no início do século XX, a comunidade LGBTQ já se tinha tornado visível antes. Em 1965, por exemplo, membros da organização ERCHO começaram a fazer piquetes todos os anos no dia 4 de julho à porta do Independence Hall de Filadélfia. Estes eventos, a que chamaram Lembretes Anuais, concentraram-se na obtenção de direitos básicos de cidadania e foram moderados. Receando a violência, os organizadores estabeleceram um código rigoroso de indumentária e encorajaram que se marchasse numa linha ordenada para mostrar um rosto não ameaçador.

Mas no dia 28 de junho de 1969, a revolta de Stonewall enviou ondas de choque por toda a sociedade heterossexual e galvanizou as pessoas LGBTQ. De repente, o movimento de libertação homossexual que estava a aquecer começou a ferver. Ativistas cansados começaram a organizar-se, gerando novos grupos e planeando manifestações em grande escala. (Os primeiros ativistas LGBTQ usaram uma tática de protesto chamada ‘zapping’.)

Craig Rodwell, um ativista que ajudou a organizar os Lembretes Anuais, foi um dos participantes nos motins de Stonewall. Numa conferência da organização ERCHO, no final de 1969, Craig propôs que as manifestações de Filadélfia se transformassem em algo novo para “serem mais relevantes, alcançar um maior número de pessoas e englobar os ideais da luta mais ampla em que estamos emprenhados – a luta pelos nossos direitos humanos fundamentais”.

A ERCHO concordou. Os ativistas resolveram realizar anualmente em junho uma marcha em Nova Iorque para comemorar a revolta de Stonewall e incentivaram outros grupos por todo o país a reunirem-se no mesmo dia.

Em Nova Iorque, o evento iria ficar com o nome de Marcha do Dia da Libertação de Christopher Street, em homenagem à localização de Stonewall Inn em Greenwich Village. Ao contrário dos Lembretes Anuais, a marcha não teria um código de indumentária – e os seus participantes concentrar-se-iam menos na boa educação e mais no orgulho.

“Um homossexual que queira viver uma vida de autorrealização na nossa sociedade atual tem tudo alinhado contra si”, dizia um artigo sobre a marcha publicado no Gay Liberation Front News em 1970. “A libertação homossexual é para o homossexual que se recusa a aceitar tal condição. A libertação homossexual é para o homossexual que se levanta e luta.”

As primeiras marchas de libertação homossexual

Por todo o país, vários grupos começaram a planear as suas próprias marchas comemorativas. A primeira não aconteceu em Nova Iorque, mas sim em Chicago, no dia 27 de junho de 1970. Cerca de 150 manifestantes marcharam desde o Civic Center Plaza até a Washington Square e entoaram frases como “Poder gay para os gays”. No mesmo dia, um pequeno grupo em São Francisco marchou pela Polk Street e, de seguida, fez um piquenique “gay-in” que foi interrompido pela polícia equestre.

A ERCHO e outras organizações nova-iorquinas passaram meses a planear o evento de Manhattan com a ajuda de organizadores como Brenda Howard, uma ativista bissexual que começou a organizar protestos durante o movimento anti-Vietname no final da década de 1960. Mas a adesão surpreendeu até os ativistas mais obstinados.

No dia 28 de junho, milhares de pessoas convergiram para Greenwich Village e começaram a marchar. De acordo com o New York Times, a multidão de participantes estendia-se ao longo de 15 quarteirões. (Embora os organizadores tenham dito ao jornal que havia entre 3 a 8 mil pessoas, ou até mesmo 20.000, um dos policias estimou “pelo menos mil”.) Homens sem camisa andavam de mãos dadas e beijavam-se publicamente. Os manifestantes levavam cartazes que declaravam a sua orientação sexual e gritavam slogans como “Poder Gay”, “Gay é Okay” e “Gay, gay, até ao fim!” A cobertura da imprensa concentrou-se principalmente nos manifestantes, mas referia os transeuntes que “clicavam freneticamente nas suas câmaras... muitos estavam obviamente surpreendidos com a cena”.

“À medida que avançávamos, a multidão crescia cada vez mais”, disse o ativista Jerry Hoose a Raven Snook da TimeOut, em Nova Iorque, numa entrevista feita em 2019. “Quem esteve lá não consegue falar sobre isso sem se arrepiar. Eu digo sempre que a libertação homossexual foi concebida em Stonewall em 1969 e nasceu naquela primeira marcha.” Os manifestantes desfilaram desde Greenwich Village até ao Central Park, onde fizeram uma reunião “gay-in”, discursaram e socializaram.

Porém, nem todas as comunidades acolheram bem os desfiles. Em Los Angeles, o desfile de 28 de junho encontrou resistência por parte da polícia, que se recusou a emitir a licença solicitada. De acordo com os jornalistas Dudley Cleninden e Adam Nagourney em Out for Good, o seu livro sobre o movimento pelos direitos dos homossexuais, o chefe do Departamento de Polícia de Los Angeles, Edward Davis, era conhecido por criticar a comunidade homossexual da cidade e comparava os ativistas a ladrões de bancos, e disse que o grupo teria de pagar 1.500 dólares e fazer uma apólice de 1.5 milhões de dólares para fazer o desfile. Os ativistas acabaram por ter de recorrer aos tribunais para obter a licença.

Para muitos, estas manifestações foram a primeira vez em que apareceram em público enquanto pessoas abertamente LGBTQ. Fossem grandes ou pequenos, cada encontro refletia o poder e a energia dos participantes. “A marcha era um reflexo nosso: em público, em voz alta e com orgulho”, lembrou o ativista Mark Segal, líder da marcha de Nova Iorque, em entrevista ao New York Times em 2020.

Um legado orgulhoso

Stonewall tinha desencadeado uma revolução. Mas o Desfile do Dia da Libertação de Christopher Street seria a chave para o futuro do movimento. Os desfiles do Orgulho continuaram, tornando-se mais organizados (e populares) a cada ano que passava.

Hoje, centenas de desfiles e festivais celebram em junho o orgulho LGBTQ pelo mundo inteiro. Um dos maiores desfiles é o de Nova Iorque. Em 2019, no 50º aniversário da revolta de Stonewall, cerca de 150.000 participantes marcharam num desfile com 12 horas e meia de duração, enquanto que cerca de cinco milhões de pessoas compareceram para o evento Orgulho da cidade.

Estes ajuntamentos que outrora eram arriscados são agora comuns na maioria das cidades. Mas, para muitos, os desfiles do Orgulho são tanto sobre as realizações e sacrifícios do movimento como sobre a oportunidade de auto-expressão.

“Mudou para sempre o meu conceito do que significava fazer parte da comunidade homossexual”, disse ao site OutHistory o Reverendo Joe Cherry, pastor unitarista-universalista, sobre o seu primeiro desfile do Orgulho em junho de 1995 em Lansing, no Michigan. “Quando estou cansado, ou quando me sinto oprimido, ou mesmo quando me interrogo se alguma coisa vai realmente mudar, penso... sobre a humanidade que vi lá, pela primeira vez em tão grande quantidade, ouço os cânticos, sinto o amor, e endireito os ombros e regresso ao trabalho.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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