O festival de música mais popular do qual provavelmente nunca ouviu falar

Imagens recuperadas do Festival Cultural de Harlem de 1969 mostram artistas desde Nina Simone a Sly e Family Stone.

Publicado 24/08/2021, 13:13
Sly Stone

Sly Stone estava entre os artistas que subiram ao palco durante o Festival Cultural de Harlem em 1969. Este evento lendário é o foco do documentário "Summer of Soul (...Ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada)", disponível no Disney+.

Fotografia de Searchlight Pictures/Entertainment Pictures/Alamy

Em agosto de 1969, Dorinda Drake e algumas das suas amigas tinham planos para ir ao aclamado concerto de Woodstock com alguns rapazes, mas os rapazes foram sem elas e as raparigas ficaram em casa para assistir a um concerto de verão em Harlem.

Dorinda, na época com 18 anos, lembra-se de estar nos bastidores com os artistas a contemplar um mar de 50.000 negros reunidos no Parque Mount Morris (atual Parque Marcus Garvey).

O Festival Cultural de Harlem serviu como uma espécie de interregno para a agitação racial e civil que assolou os Estados Unidos durante o final dos anos 1960, incluindo motins, os assassinatos de Martin Luther King e Robert F. Kennedy e protestos contra a guerra.

“Dadas as circunstâncias, era exatamente o que precisávamos, porque estavam a acontecer muitas coisas negativas aos negros, com os assassinatos e todo esse tipo de coisas”, diz Dorinda. “Ter um fim de semana inteiro com boas experiências para as pessoas se esquecerem do que estávamos a enfrentar, mesmo que fosse apenas durante alguns momentos, foi espetacular, porque aconteceu no momento perfeito.”

Apesar de Woodstock, que aconteceu ao mesmo tempo a 160 quilómetros de distância mais a norte no estado de Nova Iorque, se ter tornado num dos festivais de música mais celebrados da cultura americana, a história do Festival Cultural de Harlem foi quase apagada. A maior parte das filmagens deste evento ficou trancada numa cave durante 50 anos, longe dos olhos e da consciência do público.

Esquerda: Superior:

Count Basie no palco durante o Festival Cultural de Harlem de 1969 no Parque Mount Morris (agora Parque Marcus Garvey).

Direita: Fundo:

O quinteto Chambers Brothers no dia 29 de junho de 1969.

Fotografia de Jack Clarity, NY Daily News / Getty Images(Esquerda)(Superior)
Fotografia de CBS / Getty Images(Direita)(Fundo)

A história desta série de concertos, um momento cultural chave na história americana, foi agora apresentada no novo documentário "Summer of Soul (...Ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada)". O documentário de duas horas, disponível no Disney+, é realizado por Ahmir “Questlove” Thompson, baterista da banda The Roots que já venceu um Grammy e líder da banda do Tonight Show de Jimmy Fallon.

A atriz Butterfly McQueen (E Tudo o Vento Levou) acena a um fotógrafo enquanto fala com Dorinda Drake, no dia 30 de agosto de 1975, no Dia de Harlem. “Fui uma das organizadoras do dia original de Harlem e estava a tentar indicar a [McQueen] o lugar onde ela devia estar e o que devia fazer” recordou Dorinda recentemente. “O que me lembro mais dessa época foi a dificuldade em organizar um festival como aquele pela primeira vez com patrocínios, necessidades culturais e de entretenimento, apostando no sucesso, para que o pudéssemos realizar de novo, maior e melhor.”

Fotografia de Willie Anderson, NY Daily News Archive/Getty Images

Com a participação de mais de 300.000 pessoas durante seis semanas, desde o dia 29 de junho até ao dia 24 de agosto de 1969, os concertos de domingo apresentaram alguns dos melhores artistas e músicos do mundo – desde Stevie Wonder a Sly e Family Stone, Gladys Knight e Pips, Nina Simone e BB King. Para além dos convidados musicais também havia políticos como o presidente da câmara de Nova Iorque, John Lindsay, que designou o festival como uma celebração das artes e cultura negra, e também participaram líderes dos direitos civis como o reverendo Jesse Jackson e Marcus Garvey Jr.

Ativistas e políticos acreditavam que o festival era o local perfeito para debater os problemas que os negros enfrentavam naquela época. Numa das cenas do documentário, o reverendo Jesse Jackson fala sobre o assassinato de Martin Luther King, seguido por Mahalia Jackson e Mavis Staples a cantar “Take My Hand, Precious Lord”, que era a música favorita de Martin Luther King.

O festival é considerado o festival de música mais popular do qual nunca ouvimos falar. Mesmo algumas das pessoas que participaram no evento só se lembraram do festival quando viram as filmagens no documentário.

Agora com 70 anos, Dorinda Drake, que participa no documentário, descreve o festival como um bonito encontro de negros que se juntaram de forma pacífica e com o simples objetivo de desfrutar da música.

“Todos os rostos felizes, as famílias, é disso que me lembro mais, e as multidões estavam tão felizes”, diz Dorinda. “E ver tantos rostos negros felizes assim... sei que atualmente não vemos muito aquelas imagens, mas mesmo assim foi uma coisa linda.”

O grupo 5th Dimension.

Fotografia de CBS / Getty Images

A atriz Abbey Lincoln.

Fotografia de CBS / Getty Images

“Nós precisávamos realmente de algo para melhorar o nosso estado de espírito e os nossos sentimentos, e todos saíram de lá felizes. E depois regressaram nos fins de semana seguintes”, acrescenta Dorinda.

Marilyn McCoo e Billy Davis Jr., membros da banda 5th Dimension, disseram que sentiram uma ligação imediata com a comunidade quando chegaram ao parque para atuar.

“Assim que saímos do carro, sabíamos que estávamos no lugar certo”, disse Billy Davis ao The Undefeated. “A única diferença era a de que o anfiteatro não estava ali naquela época. Era apenas um parque e as pessoas estavam lá connosco, algo que tornou tudo ainda melhor.”

O objetivo de Questlove ao fazer o documentário era revelar uma história negra que corria o risco de ser apagada. Passariam mais de 50 anos após os concertos até as filmagens do festival serem novamente apresentadas ao público.

“O facto de 40 horas de filmagens terem sido ocultadas do público é uma prova viva de que a história revisionista existe”, disse Questlove quando "Summer of Soul (...Ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada)" estreou este verão. “Quero garantir que este tipo de rasura não acontece durante o meu tempo de vida... e o documentário foi uma oportunidade para trabalhar nesse sentido.”

Joseph Patel, um dos produtores do documentário, trabalha em estreita colaboração com Questlove e conhece-o desde os anos 1990. Embora Joseph não tivesse a certeza de que se iria juntar à equipa de produção, depois de conversar com Questlove antes de o documentário ser feito, percebeu a importância de revelar este festival.

Joseph recorda que Questlove “estava a explicar o evento e disse que, se soubesse deste festival quando era mais novo, qual seria o impacto que isso teria provocado nele enquanto músico?” Quando ele disse aquilo, fiquei realmente comovido, esta era uma história que precisava de ser contada.”

O ex-presidente da câmara de Nova Iorque, John Lindsay, com a cantora de gospel Mahalia Jackson à porta do seu camarim durante o Festival Cultural de Harlem em Nova Iorque, no dia 13 de julho de 1969. Durante seis fins de semana no verão de 1969, o festival, que ficou conhecido por “Black Woodstock”, atraiu mais de 300.000 pessoas.

Fotografia de Donal F. Holway, The New York Times / Redux
Esquerda: Superior:

Crianças ouvem a banda de Tony Lawrence no Festival Cultural de Harlem em Nova Iorque.

Direita: Fundo:

O ex-presidente da câmara de Nova Iorque, John Lindsay, à esquerda, é escoltado pelos Panteras Negras, que ajudaram a assegurar a segurança no Festival Cultural de Harlem em Nova Iorque, no dia 13 de julho de 1969.

Fotografia de William Sauro, The New York Times / Redux(Esquerda)(Superior)
Fotografia de Donal F. Holway, The New York Times / Redux(Direita)(Fundo)

Multidões reunidas para assistir ao especial de televisão da CBS, o Festival Cultural de Harlem, que apresentava artistas negros do mundo do entretenimento. O festival foi patrocinado pela Maxwell House.

Fotografia de CBS / Getty Images

Um produtor de televisão de sucesso na época, chamado Hal Tulchin, sabia que estes artistas famosos e talentosos estavam a ir para Harlem para atuar no festival cultural e sabia que os espetáculos deviam ser filmados.

Hal comprou quatro câmaras e uma quantidade significativa de fita de gravação na esperança de que o festival recebesse a mesma atenção da imprensa que o festival de Woodstock.

“Ele filmou com a ideia de transformar o evento em cinco especiais nacionais de televisão e para criar um momento cultural; foi uma espécie de clarividência da sua parte, mas não teve realmente sucesso. Era como se ninguém quisesse estes especiais ao nível nacional”, diz Joseph. “Ele acabou por vender um especial a uma filial local da CBS que ia para o ar muito tarde na noite de sábado. E era só sobre o primeiro fim de semana.”

Hal até apelidou as filmagens de “Black Woodstock” para tentar chamar a atenção para este momento transformador, mas muitas das redes televisivas da época estavam focadas em Woodstock, e o documentário ficaria numa cave durante pelo menos mais uma década. Hal tentou vender as filmagens novamente 10 anos depois do festival e um potencial comprador abordou-o novamente no início dos anos 2000, mas o negócio não se concretizou.

Apesar das tentativas feitas anteriormente para se realizar um documentário sobre o festival, nenhuma foi bem-sucedida.

Bryan Greene, que trabalhou como consultor no documentário, publicou um artigo em 2017 onde destacava o Festival Cultural de Harlem e sugeria a realização de um documentário. O festival ainda não tinha sido divulgado e as reportagens de Bryan Greene começaram a chamar a atenção de cineastas.

“Foi no mesmo ano de Woodstock e no mesmo ano do concerto Gimme Shelter, mas esses dois espetáculos ou festivais estão agora gravados na nossa consciência porque houve um documentário”, disse Bryan. “E eu escrevi sobre isto antecipando que alguém iria perceber que esta é a história mais incrível por contar na história dos festivais de música.”

A ausência de filmagens do Festival Cultural de Harlem levou algumas pessoas que estiveram no evento a questionar se este tinha realmente acontecido. Até Dorinda Drake, que ainda vive a dois quarteirões do local do festival, hesitou em participar no documentário. Dorinda não estava certa sobre as suas memórias. Mas as memórias regressaram quando ela viu as filmagens.

“Quando fui abordada para fazer isto, fiquei inicialmente relutante porque não tinha a certeza se me lembrava... até que me sentei, vi as imagens e fiquei, ‘uau, eu lembro-me disto!’”

O Festival Cultural de Harlem no Parque Mount Morris (atual Parque Marcus Garvey).

Fotografia de NY Daily News / Getty Images


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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