A esposa de um militar reflete sobre a vida ao longo de duas décadas de guerra – e o que se segue

Sem saber como era ser esposa de um militar, uma fotógrafa começou a documentar o que significa ir para a guerra.

Publicado 14/09/2021, 16:26
Filhos de Arin Yoon e John Principe

Arin Yoon, fotógrafa e esposa do oficial de infantaria do Exército dos EUA John Principe, tem documentado o fardo invisível que a guerra tem sobre as famílias dos militares, incluindo a dela. Nesta fotografia, Teo, o filho de Arin e John, segura num boneco que tem a fotografia do pai, enquanto que a filha, Mila, brinca com um boneco de peluche.

Fotografia de Arin Yoon

“A guerra acabou. Como é que te sentes?” perguntei ao meu marido John no dia 31 de agosto, um dia após as últimas tropas americanas abandonarem o Afeganistão. John é oficial de infantaria do Exército dos EUA e eu sou a esposa de um militar. Durante o nosso tempo na comunidade militar, houve sempre guerra. “Sinto-me bem, acho eu”, respondeu John.

O fim da guerra foi tão abrupto que os militares e as suas famílias ainda estão a processar o que aconteceu. Nos últimos 20 anos, foram enviados para o Afeganistão cerca de 800.000 americanos. Este conflito chegou a ser chamado de guerra longa, ou guerra esquecida. Agora, com a retirada dos EUA e o 20º aniversário dos ataques de 11 de setembro, o resto da América recordou-se do Afeganistão, mas nós na comunidade militar temos lidado com isto todos os dias.

Arin conheceu John através de amigos em comum em 2011, pouco depois de John ter regressado de um destacamento para combater no Afeganistão. John, que era o fotógrafo não oficial da sua unidade, tirou esta fotografia do soldado Michalik a observar a paisagem em Kunduz, no Afeganistão. 

Fotografia de John Principe

As famílias militares mudam-se para novas instalações a cada dois ou três anos. Durante os destacamentos, as esposas cuidam geralmente sozinhas dos filhos. Nesta fotografia, filhos de militares sobem para um tanque de batalha no Family Range Day em Fort Stewart, no estado da Geórgia, EUA.

Fotografia de Arin Yoon

Há oito anos que trabalho num projeto sobre famílias de militares chamado “Estar em Guerra”. Todas as pessoas têm uma opinião sobre a forma como os militares se envolvem na guerra, mas eu quero que as pessoas pensem sobre o que significa ir para a guerra, o que significa estar em estado de guerra e quem está em guerra. O que significa o fim desta guerra para as famílias dos militares?

A nossa força militar atual representa o segmento populacional mais pequeno de sempre na história dos Estados Unidos. Na Segunda Guerra Mundial, 14% dos americanos serviram no conflito, no Vietname foram 9.7%. Agora, estes valores são inferiores a 1%. Mais de metade destes militares tem família. O fardo da guerra não recai apenas sobre os 1.3 milhões de militares que estão no ativo, afeta também 1.6 milhões de familiares.

E também existem muitas famílias de sucessão – cerca de 80% dos atuais membros destacados vêm de uma família onde pelo menos uma pessoa serviu no exército. Esta comunidade isolada está a tornar-se cada vez mais autossuficiente, aumentando o abismo entre civis e militares.

Conheci o John através de amigos em comum em 2011. Eu não sabia muito sobre os militares. Ele tinha acabado de regressar de um destacamento de combate no Afeganistão. Demo-nos logo muito bem. Naquele verão, eu estava a trabalhar numa organização artística em Carriacou, Granada, nas Caraíbas. Quando o John teve uma licença de duas semanas, telefonou-me e perguntou se podia vir ter comigo. Ele acabou por coordenar as atividades e desportos para as crianças locais.

Quando nos casámos, mudei de Los Angeles para Fort Irwin, na Califórnia, que é o Centro Nacional de Treino do Exército dos EUA antes de os militares serem destacados. Mudar de uma comunidade artística vibrante para um ambiente super militarizado foi um choque.

Um relâmpago atinge a zona de treino em Fort Irwin, na Califórnia. Quando Arin foi viver para o apartamento de John, fotografou os soldados a fazerem treinos físicos matinais e os veículos militares que passavam.

Fotografia de Arin Yoon
Esquerda: Superior:

Jiyeong Laue e a filha, Serenity, posam no seu quintal em Fort Irwin, na Califórnia. Conhecer outras esposas de militares fez Arin perceber o quanto a guerra afeta as famílias dos militares.

Direita: Fundo:

Veículos blindados protegem um posto de planeamento tático no Centro Nacional de Treino em Fort Irwin, na Califórnia. Mudar de uma comunidade artística vibrante para um ambiente super militarizado foi um choque para Arin.

Fotografia de Arin Yoon(Esquerda)(Superior)
Fotografia de John Principe(Direita)(Fundo)

John e o filho, Teo, observam tanques a disparar no Family Range Day em Fort Stewart, no estado da Geórgia, EUA.

Fotografia de Arin Yoon

Eu olhava pela janela do apartamento e interrogava-me onde estava. Do lado de fora, grupos de soldados faziam os treinos físicos matinais e veículos militares passavam ruidosamente. Comecei a tirar fotografias pela janela atrás das cortinas. Não tinha a certeza se o podia fazer ou se estava a ser vigiada. Pesquisei no Google “esposa de militar” e “famílias de militares” e encontrei muitas imagens patrióticas e algumas histórias sobre stress pós-traumático. Olhei para as fotografias e pensei: “Não é isto que eu sinto”.

Comecei a fotografar equipamento militar no apartamento, o meu novo espaço doméstico. Colocava os óculos de visão noturna do John e tirava um autorretrato. Estes objetos de guerra rapidamente se tornaram parte do meu quotidiano. Depois, comecei a sair e a tirar fotografias. E também comecei a perceber que havia toda uma guerra a acontecer na qual a sociedade civil não estava realmente envolvida. Comecei a conversar com novos amigos sobre as suas experiências. Percebi que as famílias dos militares também estão a viver esta guerra; não são apenas os que a combatem no terreno.

O John não fala muito comigo sobre as suas experiências. Não sei se ele não as quer reviver ou se não quer que eu também passe por isso. A uma determinada altura, descobri que ele era o fotógrafo não oficial da sua unidade no Afeganistão. Ele tirou milhares de fotografias. São mundanas, engraçadas e sem qualquer agenda. Quando estávamos a ver as suas fotografias, o John chorou quando viu uma imagem de uma cerimónia com botas e uma espingarda. Eu não sabia o que simbolizavam, mas depois percebi: pertenciam a um membro da sua unidade morto em combate. Eu estava a descobrir a história do John sem que ele tivesse de falar sobre isso.

Um serviço fúnebre realizado em 2010 na Base Operacional de Kunduz, no Afeganistão. O militar Brian “Bucky” Anderson tinha sido morto em combate três dias antes por um explosivo improvisado.

Fotografia de John Principe
Esquerda: Superior:

Soldados vigiam o movimento da sua unidade em Kunduz, no Afeganistão. John não falava muito sobre as suas experiências, mas Arin descobriu a sua história através das fotografias que ele tirava.

Direita: Fundo:

Os soldados só descansam quando podem. Nesta fotografia, um gatinho aninha-se no ombro de um soldado exausto em Kunduz, no Afeganistão.  

Fotografia de John Principe

Os militares dão algumas aulas de formação para preparar os cônjuges para a vida militar. Existe até um guia chamado “livro azul”, mas fala mais sobre como organizar um almoço do que como lidar com traumas secundários. As famílias dos militares suportam muitos fardos – desde a ameaça cada vez mais presente de um ente querido poder ser morto ou ferido até ao abuso de substâncias e crises de saúde mental. Pode ser incrivelmente difícil.

Rei Manneck, o marido da minha amiga Kerry, regressou da guerra com uma lesão cerebral traumática. “Uma parte dele ainda está no Afeganistão”, disse Kerry. “Eu sei que, por baixo disto tudo, ele ainda me ama e às nossas duas filhas. Mas este não é o Rei por quem eu me apaixonei e casei.”

Quando conheci o John, ele tinha pesadelos. Ele gritava coisas como “enviem os helicópteros” e “temos de encontrar uma rota de fuga”. O John assusta-se com sons muito altos, como o barulho do fogo de artifício no dia 4 de julho. Isso fez-me pensar se os traumas seriam herdados pelos membros da família. Será que estavam embutidos nos genes dos nossos filhos?

O que as pessoas veem sobre a vida militar nas notícias são as batalhas, o stress pós-traumático e muitos regressos a casa. Mas o regresso a casa é apenas um momento – tudo o que leva a esse momento e tudo que vem depois é o que realmente compõe este tipo de vida. A realidade é que mudamos de casa a cada dois ou três anos, criando os nossos filhos sozinhas durante os destacamentos e vivemos longe das nossas famílias e amigos.

John posa para uma fotografia em 2011, alguns meses depois de ter sido destacado para combater no Afeganistão.

Fotografia de Arin Yoon
Esquerda: Superior:

Meses depois de ter sido novamente destacado em 2015, John celebrou o primeiro aniversário do seu filho Teo, um marco importante na cultura coreana, no FaceTime com a sua família.

Direita: Fundo:

Em 2015, John celebrou o seu aniversário com Arin com uma mensagem a partir de Jalalabad, no Afeganistão, durante o seu primeiro destacamento depois de ser marido e pai. Enquanto John estava destacado, Arin mudou-se de Fort Leavenworth para a casa da sua mãe. Arin rapidamente percebeu que tinha formado um vínculo profundo com a comunidade militar, que compreendia realmente o que ela estava a passar.

Fotografia de Arin Yoon (Esquerda)(Superior)
Fotografia de John Principe(Direita)(Fundo)

Em Hinesville, na Geórgia, John pinta as unhas da sua filha Mila com uma lanterna frontal. John tinha acabado de regressar de um destacamento de nove meses em 2018.

Fotografia de Arin Yoon

Em 2015, o John foi novamente mobilizado para o Afeganistão, a sua primeira vez enquanto marido e pai. O nosso filho, Teo, tinha 10 meses. O John celebrou o primeiro aniversário de Teo no FaceTime – somos coreano-americanos e o primeiro aniversário é muito importante na nossa cultura, por isso foi bom.

Quando os militares regressam a casa, precisam de se reintegrar nas suas famílias e também na sociedade civil. Pode parecer que estamos novamente num primeiro encontro. Pode haver um desconforto engraçado. O nosso filho tinha 15 meses, portanto não foi uma grande mudança para ele. Mas tenho amigas cujos filhos choraram a perguntar quem era aquela pessoa.

Nesta comunidade, os cônjuges de militares ajudam-se mutuamente. Quando o meu marido estava mobilizado, o meu vizinho cortava a nossa relva. No Dia de Ação de Graças, eu estava sozinha e não tinha energia para cozinhar, mas uma amiga nossa veio cá deixar comida sem eu pedir. As pessoas oferecem-se para tomar conta dos nossos filhos e estão lá se precisarmos de alguma coisa. Todos compreendem o que estamos a passar.

Finalmente senti que fazia parte desta comunidade quando fui passar uns tempos com a minha família em Nova Jersey e percebi que os meus amigos civis não compreendiam realmente o que eu estava a passar. O John tinha sido enviado para o Afeganistão e eu percebi que me sentia mais confortável no mundo militar, onde existe uma noção comum de propósito. Eu via as notícias com atenção, mas os meus amigos e família estavam desligados dessa realidade.

Tenho vindo a descobrir diariamente o que é a vida enquanto esposa de um militar. Já nos mudámos quatro vezes desde 2013. O Exército chega e diz: vocês vão para o Kansas, Alemanha, ou Geórgia. Quando os nossos filhos eram pequenos, eles não se importavam. Agora, com cinco e sete anos, começam a perceber que têm de se separar dos amigos. Mas todos os seus amigos também se vão embora. Eu digo: “Podemos ir para uma base onde os vossos amigos também estão. É uma aventura.”

Esquerda: Superior:

Veículos de mudanças alinhados nas ruas de Fort Leavenworth, no Kansas. Poucas semanas depois, todas as famílias deste quarteirão já se tinham mudado para um novo posto de serviço.

Direita: Fundo:

Os filhos de Arin e John, Teo e Mila, já têm idade suficiente para perceber quando têm de se separar dos seus amigos, ou se os amigos também vão mudar de casa. Nesta fotografia, uma vizinha chamada Alexandria Lyles despede-se dos amigos enquanto a sua família se dirige para um novo posto de serviço.

Fotografia de Arin Yoon

Arin tira um autorretrato através dos óculos de visão noturna de John. Os objetos de guerra que Arin começou a fotografar na Califórnia rapidamente se tornaram parte do seu quotidiano.

Fotografia de Arin Yoon
Esquerda: Superior:

Dana Abella, esposa de um militar, abre as cortinas enquanto o seu filho, Nathan Abella, brinca pela última vez na sua casa em Fort Leavenworth, no Kansas. Cada mudança significa fazer novos amigos, tanto para os pais como para os filhos.

Direita: Fundo:

Soldados em Fort Irwin praticam uma operação de limpeza num ambiente urbano. Fort Irwin é o Centro Nacional de Treino para as unidades do Exército dos EUA antes de os militares serem destacados.

Fotografia de Arin Yoon(Esquerda)(Superior)
Fotografia de John Principe(Direita)(Fundo)

Na idade adulta, fazer novos amigos a cada dois ou três anos também é difícil. É como sair num encontro, ficamos expostos. Nós apresentamo-nos aos vizinhos, mesmo que não gostemos de fazer conversa ou tenhamos questões de ansiedade. Existem clubes de cônjuges em todas as instalações e grupos de mães e de caminhadas. Existe uma página no Facebook para cada base, onde podemos encontrar tudo o que precisamos depois de uma mudança: um novo dentista, uma cabeleireira, um psicólogo.

Eu trabalhei neste projeto fotográfico ao longo de dois destacamentos e depois de ser mãe de duas crianças porque quero aproximar a divisão entre civil e militar. Eu sabia muito pouco sobre a vida militar antes de conhecer o John. Os militares contaram-me sobre o que é perder amigos na guerra, o que é testemunhar outros a serem feridos e depois regressar para um mundo onde as pessoas nem sequer estão cientes das operações militares. Eles eram obrigados a interrogar-se se ainda havia sequer uma guerra a acontecer. Era como um murro no estômago.

No ano passado, organizei workshops de fotografia com esposas e filhos de militares e fiz uma exposição de arte pública com os seus trabalhos num parque em Leavenworth, no Kansas, a cidade nos arredores da instalação militar onde vivemos atualmente. Eu queria criar uma plataforma onde as pessoas pudessem contar as suas histórias e sararem através da fotografia e das ligações. Uma das esposas disse: “A minha história é tão entediante. Eu sou apenas uma mãe que fica em casa.” Isto não é verdade. A sua história também é importante.

Teo e Mila correm para abraçar o pai quando ele regressa do seu destacamento em 2018. O regresso a casa é um marco na vida militar, embora o quotidiano destas famílias seja frequentemente ignorado pela imprensa.

Fotografia de Arin Yoon

Agora, o Afeganistão domina as notícias. Apesar de ser difícil ouvir falar sobre a quantidade de pessoas que ficaram para trás, também há muitas coisas boas a acontecer. Milhares de refugiados estão a chegar, e alguns dos meus vizinhos e amigos foram destacados ou enviados para ajudar no realojamento.

Vejo uma fotografia do meu amigo David Kim num avião C-17 lotado com os soldados da 82ª Divisão Aerotransportada, a última unidade a sair do Afeganistão. Quase todos estão a dormir em cima dos seus equipamentos e em cima uns dos outros. Estes homens trabalharam incansavelmente para retirar o máximo de pessoas possível. Eles não se veem como heróis ou vilões. Estão apenas a tentar fazer o seu trabalho e estão exaustos. Penso na esposa de David, a Alice, que também está no exército, e nos seus três filhos, e sei que também eles estão cansados.

No Facebook, a minha amiga Andria Williams publicou uma mensagem do seu marido David Johanson, que está no Bahrein a testemunhar a chegada de homens, mulheres e crianças afegãos: “Estes são os primeiros passos para uma nova vida”, escreveu David Johanson, “uma vida completamente diferente, que é uma ideia avassaladora.” Depois de ver tantas publicações de ódio, comecei a sentir alguma esperança.

Talvez nunca exista outro conflito como a Segunda Guerra Mundial, em que podemos realmente dizer que vencemos! Em vez disso, as guerras podem terminar como aconteceu no Afeganistão, com civis deixados para trás, veteranos a tentar ajudar, pessoas a cair de um avião que levantava voo em Cabul. Essa visão fez-me lembrar o 11 de setembro de 2001 e aquilo que originou tudo: civis inocentes a mergulhar para a morte.

Para a comunidade militar, o facto de a guerra ter acabado não significa que vão poder regressar à vida civil. Os militares continuam a fazer exercícios de combate e treinos que lhes podem salvar a vida. Eles – e os seus familiares – estão sempre em estado de preparação para a guerra. Nunca podemos dizer: “Ok, acabou.” Para nós, a questão é: “O que se segue?”

A National Geographic Society, empenhada em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho da Exploradora Arin Yoon sobre as famílias de militares.

A coreano-americana Arin Yoon é fotógrafa documental, artista visual, educadora de arte e vive na área metropolitana de Kansas City. Veja mais trabalhos de Arin no seu site ou siga-a em @arinyoon.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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