Como o movimento Paralímpico evoluiu para um enorme evento desportivo

Fundados inicialmente como uma competição de tiro com arco para 16 veteranos com deficiências, estes jogos rivalizam agora com os Jogos Olímpicos enquanto espetáculo atlético.

Publicado 6/09/2021, 12:07
Jogos Paralímpicos de 2020 - Dia 7

Jardenia Felix Barbosa da Silva, da seleção brasileira, celebra a medalha de bronze conquistada nos 400 metros Femininos – T20 nos Jogos Paralímpicos de 2020, em Tóquio, no Japão. O termo T20 refere-se à classificação de deficiência da corrida.

Fotografia de Kiyoshi Ota, Getty Images

Jessica Long é uma das atletas mais condecoradas dos Estados Unidos. Esta nadadora de 29 anos venceu quatro medalhas nos Jogos Paralímpicos de Tóquio em 2020, elevando a sua contagem total para 28 medalhas. Durante anos, os jogos deram a Jessica a oportunidade de competir ao mais alto nível – e algo pelo qual ansiar a cada quatro anos.

“Desde os meus 12 anos, quando venci a minha primeira medalha de ouro em Atenas, que eu queria que as pessoas soubessem o que eram os Jogos Paralímpicos”, diz Jessica, cujas pernas foram amputadas quando ela era bebé devido a uma doença congénita. “Todos os anos, o entusiasmo e a preparação para os Jogos Paralímpicos aumentam cada vez mais. Tóquio foi um dos melhores Jogos Paralímpicos em que alguma vez participei.”

A participação nos Jogos Paralímpicos mais recentes foi uma das mais elevadas de sempre. Nos jogos de Tóquio, que começaram no dia 24 de agosto, após o encerramento dos Jogos Olímpicos, marcaram presença mais de 4.500 atletas de 163 países, assinalando o maior número de atletas a competir nos jogos ao mesmo tempo.

Jessica Long, da seleção dos Estados Unidos, compete durante a prova feminina de estafeta 4x100m estilos – conseguindo os 34 pontos na final, onde venceu a medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020.

Fotografia de Naomi Baker, Getty Images

Os Jogos Paralímpicos são relativamente recentes em comparação com os Jogos Olímpicos. Mas este evento evoluiu dramaticamente desde o seu início. A cada quatro anos, o Comité Paralímpico Internacional (CPI) tem cada vez mais atletas com uma gama mais vasta de deficiências, vindos de um maior número de países, que praticam modalidades mais variadas.

Os primeiros Jogos Paralímpicos foram disputados em 1948, embora as atividades desportivas para atletas com deficiências físicas já existissem há pelo menos 60 anos. Os atletas surdos já tinham criado os seus próprios clubes desportivos em Berlim em 1888.

Mas a ideia de competições para atletas com deficiências só se propagou amplamente depois da Segunda Guerra Mundial, quando se tornou numa forma de ajuda para os veteranos e civis feridos. Ludwig Guttmann, um médico que dirigia um centro de lesões da medula espinal na Grã-Bretanha, foi o líder deste movimento. Ludwig acreditava que a participação no atletismo seria uma forma de reabilitação física e mental. Preocupado com o facto de as pessoas com deficiências serem frequentemente negligenciadas, Ludwig encarou o desporto como uma forma de “reintegração social dos deficientes na sociedade”.

“Descobri que o desporto para as pessoas com deficiências tinha um efeito tremendo do ponto de vista social”, disse Ludwig Guttmann em entrevista dada ao CPI. “Quando vi como o desporto era aceite pelas pessoas com deficiências, pareceu-me lógico começar um movimento desportivo.”

A seleção italiana reunida na Aldeia Olímpica antes do início dos primeiros Jogos Paralímpicos internacionais em Roma, Itália, em 1960. Quatrocentos atletas de 23 nações participaram nesta competição.

Fotografia de Keystone, Hulton Archive/Getty Images

Em 1948, no mesmo dia da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, Ludwig organizou a primeira competição para atletas com deficiências, à qual chamou Jogos Internacionais de Cadeira de Rodas. Dezasseis ex-militares em cadeiras de rodas – incluindo homens e mulheres – competiram em tiro com arco.

Os jogos tornaram-se num evento anual, expandindo-se todos os anos para acolher cada vez mais atletas. O lançamento do dardo foi rapidamente adicionado às modalidades. O nome da competição mudou para Jogos de Stoke Mandeville, homenageando o hospital onde Ludwig Guttman trabalhava e, em 1952, os Países Baixos também participaram com a sua seleção, tornando a competição internacional.

Em 1960, os Jogos de Stoke Mandeville tornaram-se oficialmente nos Jogos Paralímpicos. Nesse ano, mais de 400 atletas de 23 países reuniram-se no Estádio Olímpico de Roma após a conclusão dos Jogos Olímpicos. As modalidades incluíam tiro com arco, basquetebol, natação, esgrima, lançamento do dardo, lançamento do peso, ténis de mesa, pentatlo e até snooker.

Desde então, os Jogos Paralímpicos realizam-se imediatamente após os Jogos Olímpicos na mesma cidade anfitriã. O nome “Paralímpicos” reflete a natureza paralela dos jogos: vem da preposição grega “para”, que significa “ao lado”. Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos coexistem em paralelo.

Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020, Larissa Klaassen e a piloto Imke Brommer, da seleção dos Países Baixos, competem numa sessão de qualificação feminina B 3000 metros Perseguição Individual. Para esta classificação de corrida, um ciclista com visão serve de piloto na bicicleta para um companheiro de equipa com deficiência visual.

Fotografia de David Fitzgerald, Sportsfile/ Getty Images

A ascensão dos Jogos Paralímpicos foi muito rápida. Nos jogos de 1976, em Toronto, participaram mais de 1.500 atletas de 40 países em 13 modalidades diferentes. Nesse ano também foram realizados os primeiros Jogos Paralímpicos de Inverno na Suécia. Nos Jogos Paralímpicos de Seul, em 1988, os atletas usaram as mesmas instalações usadas nos Jogos Olímpicos. Em 1996, os Jogos Paralímpicos de Atlanta foram classificados como “O Segundo Maior Evento Desportivo do Mundo” e a competição foi transmitida pela televisão.

O exposição deste evento levou a mais inclusão. Os jogos de Ludwig Guttman tinham sido projetados para veteranos com lesões na medula espinal. Mas os jogos foram eventualmente abertos para civis, ainda que limitados a participantes com lesões na medula espinal. Em 1976, atletas com outras deficiências – amputados e pessoas com deficiência visual, por exemplo – foram convidados a competir.

Esta inclusão levantou questões sobre como se podia tornar a competição mais justa – para que as pessoas com menos deficiências não ganhassem sempre. Os organizadores dos Jogos Paralímpicos começaram a classificar os atletas pela extensão e tipo das suas deficiências. As classificações enquadram três categorias amplas – física, visual e intelectual – e determinam se os atletas são elegíveis para competir num determinado desporto e como são agrupados nos eventos.

Para Jessica Long, os jogos têm sido uma bênção. Jessica detém agora o segundo maior número de medalhas de qualquer atleta paralímpico – e o mesmo número de medalhas que o nadador olímpico Michael Phelps. “Não sei qual vai ser o meu futuro”, diz Jessica, “mas o movimento paralímpico proporcionou-me toda esta jornada incrível.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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