COVID-19 ultrapassa a gripe de 1918 enquanto pandemia mais mortífera da história dos EUA

Durante mais de um século, a gripe de 1918 manteve a distinção sombria de pandemia mais mortífera. Eis o que tornou esse surto tão devastador.

Publicado 24/09/2021, 09:24
Criança segura uma bandeira no memorial em Washington D.C.

Bandeiras brancas no National Mall assinalam cada uma das mais de 675.000 vidas perdidas para a COVID-19 – doença que agora ultrapassou o número de mortos da pandemia de gripe de 1918. Em setembro de 2021, voluntários plantaram centenas de milhares de bandeiras numa instalação de arte memorial em Washington D.C.

Fotografia de Stephen Wilkes, National Geographic

A COVID-19 é agora a doença mais mortífera da história americana, ultrapassando o número de mortos da devastadora pandemia da gripe de 1918. Nos Estados Unidos, no último ano e meio desde que a Organização Mundial de Saúde declarou pela primeira vez a COVID-19 uma pandemia – no dia 11 de março de 2020 – mais de 675.000 pessoas perderam a vida devido à doença.

Durante mais de um século, o surto de gripe de 1918 manteve a distinção sombria de pandemia mais mortífera. Em três vagas distintas, o vírus infetou mais de um quarto da população dos EUA e fez com que a esperança média de vida tivesse uma redução de 12 anos. Segue-se um olhar sobre os danos catastróficos que essa pandemia provocou enquanto se propagava rapidamente pelo mundo inteiro – e as respetivas implicações para as pandemias modernas.

Pandemias históricas cujo número de mortes foi ultrapassado pela COVID-19

A primeira vaga

Apesar de ser conhecida informalmente por gripe espanhola, os primeiros casos registados do surto de gripe de 1918 foram nos EUA, não em Espanha. No início de março de 1918, o último ano da Primeira Guerra Mundial, um soldado apresentou-se na enfermaria de um campo de treino do Exército em Fort Riley, no Kansas, com febre e outros sintomas semelhantes aos da gripe. De acordo com a revista National Geographic History, mais de cem soldados apresentaram sintomas semelhantes em poucas horas.

A doença percorreu rapidamente o mundo quando centenas de milhares de soldados americanos foram destacados para a linha da frente europeia na Primeira Guerra Mundial. A censura em tempos de guerra impediu a imprensa norte-americana e europeia de relatar os surtos. Mas Espanha, porém, foi neutra no conflito. Os jornais espanhóis falaram tanto sobre a doença que esta rapidamente ficou conhecida por gripe espanhola.

Contudo, o surto inicial não foi particularmente grave. A maioria das pessoas recuperou em poucos dias e alguns médicos questionaram se era realmente gripe. Como escreveu uma agência de notícias espanhola num telegrama enviado para Londres na época: “Uma estranha forma de doença de caráter epidémico apareceu em Madrid. A epidemia é de natureza moderada, não há registo de mortes.

Os visitantes podem escrever mensagens pessoais para os seus entes queridos nas bandeiras brancas do National Mall. Esta bandeira tem uma dedicatória a Dominique Warren Stephenson e diz: “Centenas de milhares de mortes desnecessárias devido à incompetência. Graças a Deus pelo presidente Joe Biden. Que Deus nos abençoe a todos.”

Fotografia de STEPHEN WILKES, NATIONAL GEOGRAPHIC

A segunda vaga

Mas tudo mudou naquele outono. Em setembro de 1918, uma segunda vaga muito mais mortífera da pandemia emergiu noutro campo de treino do Exército dos EUA, nos arredores de Boston, em Massachusetts. Em outubro, a segunda vaga matou cerca de 125.000 americanos – mais do que o total de baixas militares americanas na Primeira Guerra Mundial. O historiador Pete Davies descreveu o cenário num campo de treino do Exército dos EUA no seu livro The Devil's Flu: “... à medida que os seus pulmões falhavam e os seus corpos ficavam sem oxigénio, os homens ficavam azuis, roxos ou cinzentos. Os corpos estavam empilhados como se fossem troncos nos corredores da morgue.

Os sintomas da segunda vaga também eram diferentes. Para além dos sintomas típicos de gripe da primeira vaga, os médicos relataram sintomas invulgares que iam desde hemorragias nasais e estomacais a paralisia. A segunda vaga também teve como alvo pessoas mais jovens, com a maioria das mortes registadas a serem de pessoas com idades a rondar os 20 e os 40 anos.

Conforme o número de casos de gripe aumentava por todos os Estados Unidos, as cidades começaram a adotar abordagens diferentes para mitigar a curva de infeções, de acordo com o trabalho feito por Nina Strochlic e Riley Champine para a National Geographic em 2020. A cidade de St. Louis proibiu rapidamente os ajuntamentos públicos e implementou quarentenas quando os primeiros casos foram relatados, ao passo que a cidade de Filadélfia organizou um desfile com cerca de 200.000 pessoas. No final da pandemia, Filadélfia registava uma taxa de 748 mortes por cada 100.000 habitantes – mais do que o dobro de St. Louis.

A terceira vaga

No final de 1918, muitas cidades dos EUA, incluindo Filadélfia, já tinham conseguido mitigar a segunda vaga da pandemia com a ajuda de medidas de distanciamento social. Mas em janeiro de 1919, surgiu a terceira e última vaga da pandemia de gripe.

Dois visitantes olham para as bandeiras brancas entre as centenas de milhares colocadas perto do Monumento de Washington. As bandeiras representam o enorme número de mortes por COVID-19 – agora o mais elevado de qualquer pandemia nos EUA.

Fotografia de STEPHEN WILKES, NATIONAL GEOGRAPHIC

Embora a agressividade da doença tenha diminuído na terceira vaga, os danos que conseguiu provocar foram consideráveis. Com as pessoas ansiosas para regressar ao normal após meses de quarentena, foram poucas as cidades dos Estados Unidos que restabeleceram as suas restrições, escreve o historiador John M. Barry. E os americanos continuaram a testemunhar surtos e mortes durante a primavera de 1919.

A terceira vaga também coincidiu com o fim da Primeira Guerra Mundial – e alguns historiadores até acreditam que a doença pode ter afetado as negociações do tratado de paz. Em abril de 1919, o presidente dos EUA Woodrow Wilson contraiu a doença enquanto estava em Paris para discutir os termos do fim da guerra. Alguns historiadores acreditam que, embora Woodrow Wilson tenha tentado diminuir as tensões, estava tão exausto devido à gripe que cedeu aos termos mais duros apresentados pelo primeiro-ministro francês.

Implicações modernas

As estimativas sugerem que, desde setembro de 1918 até junho de 1919, a chamada gripe espanhola matou cerca de 675.000 americanos – e entre 60 e 100 milhões de pessoas pelo mundo inteiro. Mas os historiadores alertam que as estimativas dos EUA não são precisas, mas sim uma extrapolação de uma amostra populacional composta por quantidades desproporcionais de pessoas brancas que viviam nas cidades.

Mais de cem anos depois, enquanto o mundo enfrenta outra doença mortal, historiadores e cientistas olham para a pandemia de gripe de 1918 à procura de evidências para combater a COVID-19. Em particular, os cientistas citam a importância das medidas de saúde pública, como o distanciamento social e o uso de máscara. Mas as lições que se podem retirar têm as suas limitações.

“Olhando para o último século, conseguimos ver que a ‘guerra que ia acabar com todas as guerras’ não acabou, de facto, com as guerras, e que a pandemia mais mortífera de todas não acabou com as pandemias mortíferas”, escreveu Anthony Fauci e dois outros funcionários do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infeciosas dos EUA num artigo publicado na revista American Journal of Public Health. “Um século depois, as guerras trágicas e as pandemias trágicas continuam a acontecer, e continuamos a ter dificuldade em lidar com elas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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