Ötzi, o Homem do Gelo: o que sabemos passados 30 anos da sua descoberta

Considerada “a múmia mais famosa da Europa”, os restos mortais de um homem assassinado nos Alpes há 5.000 anos continuam a revelar detalhes sobre a vida neolítica – e informações sobre a saúde moderna.

Publicado 17/09/2021, 11:59

Faz este mês trinta anos que a múmia mais famosa da Europa foi descoberta no gelo, à beira de um lago a pouco mais de três mil metros de altitude nos Alpes de Ötztal, que fazem fronteira entre a Áustria e a Itália.

Preservados naturalmente ao longo de mais de 5.000 anos ao sol, vento e temperaturas negativas, os restos de Ötzi, o Homem do Gelo, rapidamente se tornaram numa sensação global – têm sido tema de incontáveis livros e documentários e até mesmo de uma longa-metragem que reconstrói a sua vida na Europa neolítica e a sua violenta morte.

Hoje, Ötzi é tratado cuidadosamente pelos investigadores do Museu de Arqueologia Tirol do Sul em Bolzano, Itália, onde o seu corpo enrugado é mantido numa câmara fria personalizada a uma temperatura constante de 6 graus negativos. Durante quatro ou cinco vezes por ano, os seus restos mortais são borrifados com água esterilizada para criar um exoesqueleto protetor e gelado que garanta que Ötzi permanece uma “múmia húmida” (uma múmia preservada naturalmente num ambiente húmido em vez de seco).

Anualmente, cerca de 300.000 visitantes viajam para Bolzano para se maravilhar com o antigo Homem do Gelo através de uma janela de vidro espesso que permite uma visão sobre a sua câmara gelada. Ötzi é igualmente procurado pelos cientistas, que aproveitam esta rara oportunidade para estudar os restos mortais incrivelmente bem preservados de um homem que viveu muito antes da ascensão das primeiras cidades europeias, antes até da construção da primeira pirâmide do Egito.

“O Ötzi, a meu ver, é o corpo humano mais bem investigado do mundo”, diz Oliver Peschel, patologista forense sediado em Munique que é responsável pela conservação de Ötzi.

Eis o que três décadas de investigação revelaram sobre a vida e morte do Homem do Gelo – e o que os futuros estudos sobre os seus extraordinários restos mortais podem vir a revelar.

QUEM ERA ÖTZI?

Ötzi era magro, baixo (1,57 metros de altura) e tinha cerca de 46 anos quando morreu. Este homem era canhoto e calçaria um tamanho 41. Os seus olhos – ainda preservados nas órbitas – foram considerados azuis durante muito tempo, mas a análise genómica revelou um resultado diferente. “Conseguimos provar que ele tinha olhos e cabelos castanhos escuros e um tom de pele típico do Mediterrâneo”, diz Albert Zink, chefe do Instituto EURAC de Estudos de Múmias em Bolzano, que realizou grande parte da pesquisa básica em Ötzi.

Descubra como foi a escalada final de Ötzi, o Homem do Gelo.

O Homem do Gelo tinha sangue tipo O, era intolerante à lactose e tinha uma anomalia genética rara que impedia a formação do seu 12º par de costelas. Ötzi sofria de cáries, parasitas intestinais, doença de Lyme e dor nos joelhos, ancas, ombros e costas. As suas 61 tatuagens contornam os lugares onde os seus ossos e articulações mostram mais desgaste (representando pontos modernos de acupuntura). Ötzi partiu várias costelas e o nariz durante a sua vida, e os sulcos horizontais que tem nas unhas indicam que teve repetidos ataques de stress físico – provavelmente devido à desnutrição – poucos meses antes de morrer. Ötzi era geneticamente predisposto à arteriosclerose. Uma tomografia computadorizada confirma que este é o caso mais antigo de que há conhecimento de uma doença cardíaca no mundo.

Com base nas datações por carbono, Ötzi viveu há cerca de 5.200 anos (3350–3110 a.C.)

QUEM ERA O SEU POVO?

De acordo com a sua assinatura de ADN, Ötzi fez parte da migração de agricultores neolíticos que passaram pela Anatólia (atual Turquia) entre há 8.000 e 6.000 anos, substituindo os caçadores-coletores do Paleolítico na Europa. A sua herança genética materna já não existe nas populações modernas, mas a sua linhagem paterna sobrevive em grupos encontrados nas ilhas mediterrânicas, sobretudo na Sardenha.

O QUE VESTIA?

Ötzi foi encontrado com um só sapato, mas muitos dos seus pertences foram posteriormente recuperados no local onde foi encontrado. As suas perneiras e casacos – um mais leve e outro mais pesado – eram feitos com peles de ovelhas e cabras locais. Os seus sapatos eram estofados com relva selvagem e enfeitados com couro de auroque. O seu chapéu era feito com pele de urso-pardo.

O QUE TRAZIA CONSIGO

O Homem do Gelo caminhou pelos Alpes de Ötztal com uma mochila de madeira e uma aljava de pele de veado com 20 hastes de flechas, das quais apenas duas tinham pontas. A sua adaga de sílex tinha sido afiada com uma ferramenta feita de madeira de tília e uma ponta de chifre endurecida pelo fogo. Um recipiente de casca de bétula, semelhante aos que ainda são feitos atualmente na região, continha carvão em brasa embrulhado em folhas de ácer frescas que o teriam permitido fazer uma fogueira rapidamente.

Um dos objetos mais importantes de Ötzi é o seu sublime machado de cobre. Presa a um cabo de teixo com couro de vaca e alcatrão de bétula, a lâmina foi fundida a partir de um molde e contém cerca de 99.7% de cobre puro. Este item era extraordinariamente luxuoso para a época, e a sua descoberta fez recuar o início da Idade do Cobre na Europa em cerca de mil anos.

A SUA ÚLTIMA REFEIÇÃO

Nas horas que antecederam a sua morte, Ötzi fez uma refeição farta de trigo einkorn, veado e íbex. Os investigadores demoraram 18 anos a identificar o seu estômago – através de uma tomografia computadorizada em 2009 – porque este órgão mudou de posição para a zona onde os pulmões estão localizados.

Descubra mais sobre a última refeição de Ötzi.

A SUA MORTE

Um corte entre o polegar e o indicador da mão direita revela que Ötzi foi esfaqueado alguns dias antes de morrer. É um ferimento defensivo, o que significa que Ötzi provavelmente tentou agarrar a lâmina. A ferida ainda estava a cicatrizar quando o Homem do Gelo foi novamente atacado por uma flecha que atingiu uma artéria no seu ombro esquerdo. Ötzi pode ter tido tempo para se sentar e talvez até tentar retirar a flecha, mas é pouco provável que a tivesse conseguido remover antes de sangrar até à morte em poucos minutos.

O Homem do Gelo também tinha uma hemorragia cerebral substancial, mas os especialistas discordam sobre as suas causas. Será que alguém o atacou com um golpe na cabeça? Será que caiu e bateu com a cabeça numa rocha? Oliver Peschel diz que não há boas evidências para qualquer um destes cenários.

MUMIFICAÇÃO NATURAL DE ÖTZI

Com base nas análises feitas ao pólen e às folhas de ácer que transportava, Ötzi morreu no início do verão. Uma das teorias especula que os ventos quentes do verão o secaram. Mas Oliver diz que devem ter sido as temperaturas frias das montanhas altas que preservaram o Homem do Gelo, porque o cérebro, que normalmente se liquidifica juntamente com outros órgãos alguns dias após a morte, congelou depressa, ficando preservado em forma desidratada.

O QUE REVELAM OS SEUS INTESTINOS

Apesar de Ötzi já ter sido alvo de centenas de estudos, há mais em andamento. Agora que o Instituto de Estudos de Múmias sequenciou o genoma de Ötzi, os investigadores estão a analisar geneticamente o seu microbioma intestinal. “Gostávamos de compreender toda a comunidade de bactérias que vivia dentro do seu estômago e intestinos”, diz Albert Zink.

A diversidade da nossa flora intestinal parece estar ligada à nossa saúde, pelo que os investigadores estão ansiosos para ver a composição de Ötzi. Uma das descobertas iniciais, integrada num estudo em andamento da Universidade de Trento que envolve Ötzi e 6.500 pessoas modernas, revela que o Homem do Gelo tinha três das quatro estirpes da bactéria Prevotella copri. Os povos indígenas de todo o mundo têm uma variedade de estirpes desta bactéria nos seus intestinos, mas os 30% dos ocidentais da atualidade que têm Prevotella copri só têm uma estirpe, que tende a ser dominante, reduzindo assim a diversidade.

Também se descobriu que os intestinos de Ötzi continham Helicobacter pylori, uma bactéria encontrada atualmente em metade da população mundial e que tem consequências graves ou fatais para a saúde de cerca de 10% das pessoas. A atual estirpe dominante de H. pylori na Europa é um híbrido de estirpes asiáticas e africanas. A estirpe de Ötzi é quase puramente asiática, o que sugere que a estirpe africana chegou à Europa após a sua morte. Isto tem implicações no debate sobre se a H. pylori é um membro natural da nossa flora intestinal ou se precisa de ser tratada com um antibiótico assim que é identificada.

Outro estudo sobre o seu microbioma intestinal descobriu o antepassado da estirpe patogénica Clostridium perfringens, que atualmente é uma das causas comuns de intoxicação alimentar.

UM ÖTZI MAIS ECOLÓGICO

A cidade de Bolzano planeia construir um novo museu de arqueologia nos próximos anos para acolher Ötzi e uma coleção mais rica de artefactos tiroleses. A cidade também espera conseguir melhorar a eficiência energética do sistema da câmara fria, que já tem 22 anos e sustenta os seus restos mortais. (Uma segunda câmara de prevenção está a postos caso a principal falhe.)

IMITAR A NATUREZA

Para compreender melhor os processos naturais que preservaram Ötzi ao longo de cinco milénios – sobretudo a exposição aos elementos e às ações de micróbios – os investigadores do Instituto de Estudos de Múmias estão agora a analisar os restos preservados naturalmente de uma camurça, uma espécie de antílope-cabra, descoberta no verão de 2020 na mesma região onde Ötzi foi encontrado. Embora a camurça tenha apenas algumas centenas de anos, o seu estado de preservação é semelhante ao do Homem do Gelo, e os cientistas estão a variar a humidade e a temperatura de armazenamento dos restos do animal para perceber melhor como é que estes fatores afetam a sua preservação. Estão também a estudar a comunidade microbiana da camurça, tanto por dentro como por fora. “Sabemos que existem bactérias e fungos que conseguem resistir às baixas temperaturas, ou seja, talvez possam começar a crescer novamente se mudarmos alguma coisa”, diz Albert Zink.

A INVESTIGAÇÃO INIMAGINÁVEL DE 2050

Os avanços tecnológicos vão ser fundamentais para os cientistas desvendarem mais segredos sobre Ötzi. O seu genoma com 5.000 anos foi descodificado em 2012, exatamente quando o sequenciamento de próxima geração se estava a tornar mais comum e acessível. Porém, Albert diz que não esperava que um dia os investigadores também conseguissem reconstruir o microbioma do Homem do Gelo. “Estes métodos desenvolveram-se muito rapidamente e agora conseguimos obter muito mais dados”, diz Albert.

As futuras investigações podem vir a concentrar-se na funcionalidade do corpo de Özti, incluindo proteínas, lípidos e enzimas encontradas nos seus tecidos que podem revelar informações sobre o seu sistema imunitário. De momento, porém, a análise de proteínas de amostras antigas continua a ser um processo muito complexo.

Enquanto isso, os responsáveis pela preservação de Ötzi precisam de encontrar um equilíbrio cuidadoso entre disponibilizar a múmia para investigação e garantir que as pesquisas não são muito invasivas ou frequentes. O museu recebe cerca de 10 a 15 pedidos para estudar Ötzi todos os anos. Um comité de especialistas de várias universidades e do museu avalia cada solicitação. Cerca de uma vez por ano, amostras de superfície são recolhidas para investigações microbiológicas. Ötzi raramente é descongelado – a última vez que isso aconteceu foi em 2019.

“Não fazemos ideia de como serão os métodos científicos disponíveis para os cientistas em 2050”, diz Oliver Peschel. “Faz bastante sentido manter Ötzi nas melhores condições para tornar possíveis as investigações daqui a 20 ou 30 anos.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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