A história dos ‘doces ou travessuras’ e como se tornou uma tradição de Halloween

Crianças mascaradas que andam de porta em porta a pedir guloseimas é uma tradição relativamente moderna – mas as suas origens podem ser rastreadas até aos celtas e a uma tradição de Natal há muito perdida.

Por Emily Martin
Publicado 29/10/2021, 12:53
Um ator disfarçado distribui doces durante o passeio de Halloween "HAUNTOWEEN LA" através da experiência em ...

Os “doces ou travessuras” espalharam-se pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial, uma atividade impulsionada pela suburbanização do país que permitiu às crianças andarem em segurança de porta em porta a pedir doces aos seus vizinhos. Em 2020, esta tradição foi um pouco diferente devido à pandemia de coronavírus. Nesta imagem, uma atriz mascarada distribui doces num drive-through de Halloween em Woodland Hills, na Califórnia.

Fotografia de Mario Anzuoni, Reuters

O Halloween foi um pouco diferente em 2020: em vez dos tradicionais doces ou travessuras, as crianças receberam sacos com doces que as pessoas davam através de rampas no quintal, ou ficaram em casa a decorar abóboras e a participar em concursos de máscaras online. Mas este ano, Anthony Fauci, consultor médico da Casa Branca, disse que brincar aos “doces ou travessuras” seria, em princípio, uma atividade segura.

Apesar desta atividade ser uma tradição de Halloween da atualidade, os historiadores dizem que as origens destes atos, onde crianças pedem comida aos seus vizinhos, podem remontar às celebrações celtas da antiguidade ou até mesmo a uma tradição de Natal há muito perdida. E a própria frase “doces ou travessuras” remonta à década de 1920, quando as partidas de Halloween costumavam deixar cidades inteiras em estado de alerta.

A origem do Halloween

Acredita-se que o Halloween tenha mais de 2.000 anos, remontando ao Samhain, o dia de Ano Novo celta que era celebrado no dia 1 de novembro. Os celtas acreditavam que na noite anterior os demónios, fadas e espíritos dos mortos caminhavam pela Terra, quando a linha que separava o mundo dos vivos e dos mortos era mais ténue.

Em 2017, uma cerimónia ao pôr do sol celebrava o Samhain em Glastonbury, Inglaterra. Este festival celta – que mais tarde se tornou no Halloween e que normalmente inclui um desfile, danças e fogueiras – marca a divisão entre a metade mais agradável do ano, o verão, e a escuridão do inverno.

Fotografia de Matt Cardy, Getty

Os celtas acendiam fogueiras e distribuíam presentes sob a forma de alimentos, na esperança de cair nas boas graças dos espíritos de entes queridos que tinham partido no ano anterior. E também se disfarçavam para que os espíritos dos mortos não os conseguissem reconhecer.

Mais tarde, no século VII, o Samhain transformou-se no Dia de Todos os Santos, quando os líderes cristãos adotaram os feriados pagãos. Mas a noite anterior continuou a ser celebrada com fogueiras, máscaras e desfiles sob o novo nome de “All Hallows 'Eve” – mais tarde adaptado para “Halloween”.

Os emigrantes europeus levaram depois o Halloween para os Estados Unidos, e esta celebração tornou-se popular no século XIX, quando a imigração de irlandeses aumentou exponencialmente. As suas tradições e crenças populares fundiram-se com as tradições agrícolas já existentes nos EUA, o que significa que o Halloween, apesar de estar ligado ao ocultismo, permanece firmemente enraizado nas colheitas de outono. Com o passar dos anos, o Halloween tornou-se numa época em que as crianças se mascaram de fantasmas – os mesmos fantasmas que os seus antepassados receavam.

Uma fotografia antiga mostra uma jovem e cinco rapazes em trajes completos de Halloween em Lexington, no Oklahoma, por volta de 1890.

Fotografia de L Cranson via Transcendental Graphics/Getty

(Halloween: Costumes, história, mitos e muito mais.)

Como os doces ou travessuras se tornaram tradição

Como é que estas tradições celtas evoluíram para uma atividade infantil com máscaras e guloseimas – sem o propósito de proteção dos espíritos?

De acordo com a quinta edição do livro Holiday Symbols and Customs, no século XVI já era costume em Inglaterra os mais pobres pedirem comida no Dia de Finados, e as crianças acabaram por assumir este hábito. Naquela época, era comum dar bolos às crianças com cruzes no topo, os chamados “bolos da alma”, em troca de orações.

Lisa Morton, autora de Trick or Treat: A History of Halloween, atribui uma das primeiras menções às comemorações típicas do Halloween a uma carta da Rainha Vitória sobre um Halloween passado em torno de uma fogueira na Escócia em 1869.

“Tendo feito o circuito do castelo”, dizia a carta, “as tochas restantes foram atiradas para uma pilha no canto sudoeste, dando corpo a uma grande fogueira, que foi rapidamente alimentada com outros combustíveis até formar uma fogueira de grandes proporções, em torno da qual continuava uma dança animada.”

Lisa Morton escreve que as pessoas da classe média americana queriam frequentemente imitar os seus primos britânicos, algo que pode explicar um conto impresso em 1870 que ilustrava o Halloween como um feriado inglês celebrado por crianças, uma celebração com videntes e jogos onde os prémios eram guloseimas.

Contudo, Lisa Morton escreve que é possível que os doces ou travessuras sejam uma tradição mais recente que, de forma surpreendente, pode ter sido inspirada no Natal.

Um dos costumes populares de Natal nos séculos XVIII e XIX, chamado “belsnickling” nas áreas orientais dos EUA e do Canadá, era semelhante aos doces ou travessuras: grupos de participantes mascarados iam de casa em casa para realizar pequenas travessuras em troca de comida e bebida. Alguns “belsnicklers” até assustavam deliberadamente as crianças mais pequenas antes de perguntarem se estas se tinham portado bem o suficiente para receber uma guloseima. Outras descrições anteriores afirmam que as pessoas que davam as guloseimas tinham de adivinhar as identidades dos foliões disfarçados, dando comida aos que não conseguissem identificar.

No século XIX, as “travessuras” – como janelas a ranger e portas trancadas com cordas – pareciam muitas vezes ter sido obra de forças sobrenaturais. Algumas pessoas ofereciam doces para proteger as suas casas dos foliões, que podiam provocar estragos ao desmontar equipamento agrícola e colocando-o num telhado. No início do século XX, alguns proprietários começaram a ripostar e os legisladores incentivaram as comunidades a manter as crianças sob controlo para terem uma forma de diversão mais inofensiva.

Estas partidas provavelmente deram origem ao uso da frase “doce ou travessura”. O etimologista Barry Popik rastreou o uso mais antigo desta frase em ligação com o Halloween num artigo de um jornal de Alberta de 1927, que falava sobre os brincalhões que exigiam “doces ou travessuras” de casa em casa.

Como os doces ou travessuras se tornaram populares

Os doces ou travessuras espalharam-se pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial, quando terminou o racionamento de alimentos e os doces ficaram novamente disponíveis. O rápido desenvolvimento dos bairros suburbanos, onde era mais fácil do que nunca para as crianças andarem de casa em casa, também impulsionou o aparecimento desta tradição.

Na década de 1950, as imagens e os produtos relacionados com o Halloween começaram a refletir a sua popularidade, e o Halloween transformou-se num evento mais consumista. Os trajes passaram de fatos simples e caseiros, que imitavam fantasmas e piratas, a trajes produzidos em massa baseados em personagens de filmes e da televisão.

Com o aumento da popularidade dos doces ou travessuras, os adultos perceberam que era muito mais fácil distribuir doces embalados individualmente do que maçãs, nozes ou doces caseiros. Os doces apareceram pela primeira vez nas festas americanas de Halloween no século XIX sob a forma de caramelos que as crianças podiam puxar, e as guloseimas estão agora solidificadas como o “doce” de eleição.

Em meados do século XX, as antigas travessuras de Halloween já tinham praticamente desaparecido. As crianças só queriam doces e as pessoas que não tinham problemas em oferecer guloseimas deixavam as luzes das suas casas acesas. As pessoas que preferiam evitar a oferta de doces deixavam as luzes completamente apagadas.

Mas apesar de o Halloween se ter tornado numa atividade familiar inofensiva, na década de 1960 começaram a surgir mitos urbanos que questionavam a segurança das crianças que recebiam doces de estranhos. É difícil rastrear as origens destes mitos urbanos, que envolviam lâminas de barbear, maçãs ou doces misturados com drogas – porém, em 1964, uma dona de casa nova-iorquina apareceu nas capas dos jornais depois de achar que algumas crianças já eram demasiado crescidas para brincar aos doces ou travessuras e decidiu dar-lhes pacotes com comida para cão, veneno para formigas e lã de aço.

Este incidente deu origem a programas educacionais que diziam às crianças para descartar guloseimas desembrulhadas, favorecendo os doces comerciais embalados, gerando assim uma vitória para os fabricantes de doces.

A ascensão dos doces de Halloween

Desde o aparecimento das brincadeiras de doces ou travessuras, após a Segunda Guerra Mundial, que o chocolate é o rei supremo enquanto doce mais popular para oferecer. Em 2009, o Halloween já se tinha tornado no principal feriado nos EUA para as vendas de chocolate, e este número continua a aumentar.

O dia de Halloween tornou-se no segundo maior feriado comercial do país e, este ano, os americanos poderão gastar cerca de 3 mil milhões de dólares em doces para o Halloween, de acordo com a National Retail Federation. Uma boa parte deste dinheiro é gasta em Reese’s Peanut Butter Cups, que a Candy Store, o distribuidor nacional destas guloseimas, diz ser o doce de Halloween mais adorado na América.

O milho doce, produzido pela primeira vez na década de 1880, também continua a ser um clássico – embora seja consistentemente classificado como a guloseima de Halloween menos preferida da América. Anualmente são produzidos cerca de 15 milhões de quilos de doces em forma de cones laranja, amarelos e brancos, e a maioria é vendida durante o Halloween, de acordo com a Associação Nacional de Confeiteiros.

As vendas de doces desceram abruptamente em 2020, quando as restrições devido à COVID-19 forçaram as crianças ao confinamento. Mas agora que Anthony Fauci deu luz verde, as crianças americanas vão sair mais uma vez às ruas para pedir doces aos seus vizinhos – e talvez até pregar algumas partidas inofensivas – como outrora fizeram os celtas e os “belsnicklers”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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