A lenda do fantasma da estação de São Bento

A estação de São Bento é uma das mais belas estações ferroviárias do mundo e um dos marcos mais emblemáticos da cidade do Porto. E se lhe contássemos que, além disso, reza a lenda que por lá vive um fantasma?

Publicado 13/10/2021, 15:27
A estação de São Bento foi erigida no local onde anteriormente se encontrava o antigo convento de ...

A estação de São Bento foi erigida no local onde anteriormente se encontrava o antigo convento de S. Bento de Avé Maria. 

Fotografia de Turismo do Porto e Norte de Portugal

No início do século XVI, o rei D. Manuel I, mandou construir o convento de S. Bento de Avé Maria, dentro dos muros da cidade, no local designado Hortas do Bispo ou da Cividade, cuja inauguração teve lugar no dia de Reis, de 1535.

O convento, onde é a atual estação de São Bento, era seletivo e só mulheres com alguma condição podiam entrar, sobretudo nobres. Muitas pessoas ali quiseram recolher familiares, mas por falta de estatuto social não eram aceites, onde as religiosas desde convento eram reconhecidas como beneditas. Esta condição é recitada em vários romances, tal como se pode observar em Consolação, de Camilo Castelo Branco. Este convento era um espaço onde se realizavam muitos eventos e festas sociais, permitindo a muitas mulheres ali internadas encontrar marido.

A cada três anos, aquando da eleição das novas abadessas, realizavam-se os chamados Outeiros ou Abadessados para os quais eram convidados familiares e amigos das freiras e internas, figuras da sociedade e poetas famosos desse tempo, tais como Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, Xavier de Novais, Alberto Pimentel, Guilherme Braga e muitos outros.

O fim das ordens religiosas e a última abadessa do Convento de Avé Maria

Em 1834, Joaquim António de Aguiar, conhecido como “mata frades”, teve influência na saída de um decreto que ordena a extinção das ordens religiosas em Portugal. Assim, assiste-se à extinção imediata das ordens masculinas e consequente apreensão das suas propriedades, à proibição de que novas freiras professassem os seus votos e à extinção dos conventos após a morte da última freira que lá residisse.

O convento de S. Bento de Avé Maria viria então a dar lugar, nas antigas hortas do bispo, à estação de São Bento, a estação central dos caminhos-de-ferro da cidade, cuja portaria governamental que concedia a ordem, teria sido publicada a 5 de novembro de 1888.

Ainda por 1888, o pessoal das obras iniciou o apuramento de medidas, para dar início aos trabalhos de demolição e, o convento começou a ser arrasado após a morte da última abadessa, D. Maria da Glória Dias Guimarães, a 17 de maio de 1892.

Efetivamente pouca gente ouviu falar nesta freira, cuja história virou lenda da estação de São Bento, sendo recordada como um "fantasma" doce e recatado, teimoso em vida e deambulante em morte. Enquanto o edifício se desmoronava, as abadessas iam morrendo, uma a uma, sendo que a última apenas morreu mais de 58 anos após a extinção das ordens religiosas em Portugal.

Diz-se, portanto, que o fantasma teimoso, embora sereno, que prolongou a extinção dos conventos percorre, ainda hoje, os corredores da estação. Os ouvidos mais atentos afirmam ouvir as suas rezas nas horas mortas da estação, quando o movimento e ruído são menores.

A construção de um marco imponente da cidade do Porto

A primeira pedra da atual estação de São Bento, foi lançada em 1900 pelo rei D. Carlos I, dando origem ao antigo convento de S. Bento de Avé Maria. O projeto inicial foi do arquiteto Marques da Silva, denotando no exterior do edifício influências da arquitetura que se praticava em França na época.

A linha ferroviária, apesar de inaugurada em 1896, teve o seu primeiro comboio a chegar, sem que ainda tivesse alguma estação à sua espera, uma vez que as obras apenas se iniciaram quatro anos depois. O edifício foi posteriormente inaugurado a 5 de outubro de 1916, na presença de uma multidão eufórica.

Sobre o antigo convento, as imagens da igreja foram adornar altares de outros templos, a confraria do Senhor do Bonfim comprou o órgão e, os ossos das religiosas, que jaziam debaixo do soalho da igreja e sob o lajedo do claustro, foram levados para um sarcófago no cemitério do prado do Repouso. Contudo, ao longo dos anos foram-se perpetuando várias histórias, entre as quais de que em certas noites, ainda é possível ouvir as rezas da última abadessa a ecoar pelos corredores das alas da estação.

Um semblante repleto de estórias

O edifício da estação de São Bento surpreendeu pela sua beleza aquando da inauguração. No entanto, apenas no próprio dia do evento, o arquiteto deu conta de que se tinha esquecido de incluir no projeto, uma sala de espera para os passageiros e uma bilheteira.

Se a gare ferroviária é uma obra-prima da arquitetura do ferro, que traz à memória a arquitetura parisiense do século XIX, o seu interior é de cortar a respiração, frisando a verdadeira obra histórica e inigualável. No átrio principal, onde se localizava o claustro do extinto convento, as paredes estão cobertas por 20.000 azulejos pintados, da autoria de Jorge Colaço, que ilustram episódios da História de Portugal, assim como, os usos e costumes nortenhos.

A estação de São Bento atual serve os comboios urbanos do Porto, extensível à Linha de Aveiro, à Linha do Minho e à Linha do Douro. Esta última acompanha a subida do rio e permite apreciar as extraordinárias paisagens oferecidas pelas encostas vinhateiras sobre o Douro, um trajeto altamente recomendado e uma das mais famosas viagens de comboio em Portugal.

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