João Zilhão: “Aquilo que nós vemos do passado é uma ínfima parte do que existiu”

Conversámos com João Zilhão, um dos mais notáveis arqueológos portugueses, sobre aquilo que já se sabe acerca dos neandertais, as teorias que foram caindo ao longo do tempo e a importância da proteção do património arqueológico.

Galerias Leves (rede cársica da nascente do Almonda, Torres Novas), em 2018. João Zilhão na descoberta por prospeção espeleo-arqueológica de uma nova jazida do período Acheulense (com mais de 250.000 anos).

Fotografia de João Zilhão
Publicado 26/10/2021, 15:58

Ao longo de 30 anos de carreira, dirigiu a criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa e do Instituto Português de Arqueologia, liderou a descoberta do esqueleto da Criança do Lapedo e tantas outras. João Zilhão tem marcado a história da arqueologia com descobertas que mudaram a perceção da evolução humana, como as provas de que a mais antiga arte rupestre em grutas foi pintada por neandertais.

Após estrear o documentário “Neandertais: O Último Refúgio”, relatado por João Zilhão e outros peritos, a National Geographic conversou com o arqueólogo sobre a narrativa dos neandertais e as teorias que erradamente se foram perpetuando.

 

Quais são as diferenças já conhecidas entre os neandertais e os humanos modernos?
A diferença é que moderno significa recente, atual. Portanto, a principal diferença entre uma pessoa atual e uma pessoa de há 40 mil anos, é que as pessoas de há 40 mil anos já morreram. 

E relativamente às capacidades cognitivas e à fisionomia? 
Pois aí também temos outra questão, o que é que se entende por cognição? 

Há várias maneiras de utilizar a palavra. Por exemplo, os psicólogos falam muitas vezes em diferenças cognitivas entre populações ou até setores da sociedade que andaram na escola e aprenderam a ler e escrever, e outros que não. Isso evidentemente reflete-se na maneira como as pessoas pensam, agem e fazem, portanto, há aí uma diferença cognitiva. 

Se estamos a falar deste tipo de diferenças, as diferenças são enormes. Da mesma maneira que são enormes as diferenças entre qualquer pessoa que viva no século XXI e saiba ler e escrever e um caçador-recoletor do Amazonas que nunca aprendeu a ler e escrever, não sabe Matemática, não estudou Filosofia, etc. E as diferenças são enormes, não porque as pessoas que andaram na escola sejam mais inteligentes, ou porque só os inteligentes é que conseguem andar na escola, ou porque só os inteligentes é que conseguem aprender a ler e escrever. Qualquer pessoa consegue desde que vá à escola. Imaginemos que o Einstein tinha nascido no século XV; ele tinha podido inventar a teoria da relatividade? Não. Não há a teoria da relatividade sem Newton, sem uma série de pessoas que viveram depois do século XV e antes do Einstein.

Jazida de Cueva Antón (Murcia, Espanha), em 2011. João Zilhão a escavar lareira de um habitat neandertal com 80.000 anos.

Fotografia de João Zilhão

Essa pergunta das capacidades cognitivas, geralmente, é uma pergunta envenenada, porque é feita por colegas que têm uma visão da evolução humana que se baseia no suposto, não demonstrado, mas que eles assumem, que a humanidade atual é uma espécie diferente de todas as outras, que tem uma origem relativamente recente em África há 150 ou 200 mil anos e que todos os outros humanos que existiam nessa altura nos outros continentes, incluindo os neandertais, pertenciam a espécies diferentes que se extinguiram sem descendência. Portanto, para sustentar este raciocínio, é preciso explicar porque é que os que se extinguem são os neandertais e outros, e os que não se extinguem e que ganham na competição entre espécies são os tais a que se chama modernos e que aparecem em África há 150 ou 200 mil anos.

Para explicar porque é que isso acontece vai-se buscar a questão da superioridade cognitiva. Porque eram mais inteligentes, mais capazes, tinham melhores tecnologias, exploravam melhor os recursos do meio ambiente, tinham uma organização social mais sofisticada. E da mesma maneira que os europeus aniquilaram os índios americanos a partir do século XVI, o mesmo teria acontecido há 40 mil anos quando estes supostos “super-homens” vêm e tomam conta da Europa. Isto é uma versão da Bíblia, do livro do Génesis. Algumas palavras são trocadas, mas no fundo é a mesma coisa. Temos o jardim do paraíso, o povo eleito que através da comunicação com o divino adquire uma superioridade que lhe outorga o direito a ter a Terra toda para si. Esta teoria da superioridade cognitiva do Homem chamado moderno, e a razão pela qual os neandertais e outras populações contemporâneas desapareceram, é no fundo uma maneira “científica” de contar uma história de contornos bíblicos. Mas até podia ser verdade. Se calhar há 20, 30, 40 anos havia alguns dados que permitiam sustentar essa teoria porque realmente a pergunta ‘Porque é que uns ficaram e outros desapareceram?’ precisava de resposta. Como tudo em ciência tem o chamado teste da realidade, a gente tem umas teorias, das teorias extraem-se umas consequências, que se se verificarem na prática fortalecem a teoria. Se as predições derivadas da teoria falharem a contrastação com a prática, a teoria tem de ser abandonada.

O que é que acontece com a superioridade cognitiva do homem moderno? Acontece que dela se podiam derivar as seguintes proposições… Primeiro, haverá certas coisas que do ponto de vista tecnológico e cultural os tais africanos de há 150 ou 200 mil anos atrás faziam e que são indicadoras de uma inteligência semelhante à da humanidade atual, nomeadamente a posse do pensamento abstrato e da linguagem como forma de comunicação e de estruturação do pensamento. A predição que tem de ser confrontada com a realidade é a de que aquilo que essas populações faziam ou teriam feito, os neandertais e outros contemporâneos não faziam, logo os neandertais e outros contemporâneos dessas populações africanas não teriam, por isso, as mesmas faculdades que os tais antepassados africanos. 

“Estas duas predições nos últimos 20 a 25 anos foram falsificadas 20 vezes ou mais.”

A segunda predição é que, se realmente são espécies diferentes e entraram em competição, e há uns que levaram os outros à extinção, não devemos encontrar vestígios de miscigenação. Há uma população que se diferencia, passa por um processo que tecnicamente se designa por especiação, que tem uma vantagem competitiva sobre as suas contemporâneas que não passaram por esse processo. Como tem esta vantagem competitiva, demograficamente expande-se, entra em competição com as outras por território e recursos, leva as outras à extinção e pouco a pouco toma conta de tudo; mas não se misturam. 

Estas duas predições nos últimos 20 a 25 anos foram falsificadas 20 vezes ou mais. Hoje sabemos que se misturaram, que isso foi regra e não exceção, e que não se pode falar de espécies diferentes no sentido biológico. Falamos de populações diferentes que, numa época em que o mundo era muito menos povoado do que é atualmente, durante largos lapsos de tempo viveram relativamente isoladas umas das outras e por isso desenvolveram características rácicas próprias, que permitem que nós facilmente reconheçamos um neandertal quando o resto fóssil é suficientemente completo ou até através do ADN. Mas, como indicam os dados paleontológicos relativos a esqueletos datados de época imediatamente posterior ao momento do contacto no caso da Europa, como os fósseis da Roménia, ou da criança do Lapedo, o que há é uma mistura de traços anatómicos, uns ditos modernos, porque os africanos de há 50 mil anos eram mais parecidos em geral com os humanos atuais e foi o fenótipo deles que prevaleceu. Porque justamente África, não sei se era 14 vezes maior que a Europa ou algo assim… na Europa, durante a Idade do Gelo mais de metade do território era inabitado, estava coberto de gelo ou de deserto e as partes que eram habitadas, eram habitadas com densidades populacionais muito inferiores às que era possível em África, portanto multiplique este fator várias vezes e chegará facilmente à conclusão que em África deve ter havido, pelo menos até há 10 ou 15 mil anos, até ao fim da época da Idade do Gelo, talvez 100 vezes mais humanos do que na Europa.

A certo momento, as populações dos dois continentes vão aumentando de tamanho porque os humanos vão acumulando cultura, conhecimento, melhorando a tecnologia, vão sendo cada vez mais capazes de sobreviver e viver durante mais tempo. E se aumentam, nas zonas de contacto, nas fronteiras, o intercâmbio vai-se tornar cada vez mais intenso e vamos assistir a uma situação em que aquilo que eram dois reservatórios genéticos diferenciados, um em África e outro na Europa, se transforma num reservatório único e onde evidentemente vão acabar por predominar o genótipo e o fenótipo da população mais numerosa.

Quanto mais próximo se está do momento do contacto, maior é a percentagem de contribuição neandertal que se deteta no genoma das populações europeias - ao ponto de hoje, passados 40 mil anos, ainda se encontrar, em cada indivíduo, entre 2% a 4% da parte do nosso genoma que é especificamente humana é de origem Neandertal. A parte que temos neandertal não é sempre a mesma. Se em centenas de milhões de europeus e asiáticos que há atualmente somarmos a parte neandertal que cada um tem chegamos à conclusão de que entre 50% a 70% daquilo que era especificamente neandertal ainda existe na humanidade atual. 

Portanto, ao contrário do que o modelo da superioridade cognitiva implica, misturaram-se, misturaram-se de forma regular e sistemática, e ainda hoje o sinal dessa mistura é potente. Agora vamos à segunda predição. Era dado como prova que estas populações de origem africana eram já como nós dotadas de linguagem, pensamento abstrato, etc. Porquê? Porque nas jazidas arqueológicas associadas aos restos dessas populações ou dessa cronologia encontram-se objetos de adorno pessoal, contas de colar, ocre e outras rochas utilizadas para pintura corporal, e inclusivamente alguns fragmentos de ocre vermelho ou lajes, pequenos fragmentos de pedra ou fragmentos de ovo de avestruz marcados com traços geométricos lineares que se podem interpretar como uma decoração — uma forma de transmitir por símbolos determinadas ideias, o que supõe linguagem e pensamento abstrato como o nosso. Isto em África já lá está há 100 mil anos; e os neandertais nunca teriam feito nada disto. Mas hoje sabemos que na realidade os objetos de adorno mais antigos que se conhecem e a arte das grutas mais antiga que se conhece é feita pelos neandertais.

Gruta de El Castillo (Santander, Espanha), em 2012. A equipa do projeto de datação da arte das grutas que descobriu que a mais antiga arte rupestre foi feita por neandertais há mais de 65.000 anos. Da esquerda para a direita, Daniel Garrido, Marcos García-Diez, Alistair Pike, Dirk Hoffmann, Carola Hoffmann e João Zilhão.

Fotografia de João Zilhão

Numa jazida que estudei no sul de Espanha temos conchas perfuradas e pintadas com ocre com 120 mil anos, mais antigas que em África. E temos também, em três grutas de Espanha, arte parietal sob a forma de símbolos ou de mãos em negativo, datadas como mínimo de há 65 mil anos, que é a idade da calcite que se formou por cima delas. Não há nada em África sequer remotamente comparável em cronologia a isto, o que não quer dizer que não venha a ser descoberto um dia. Aliás, na minha opinião, um dia será descoberto, porque isto são desenvolvimentos culturais que mais ou menos vão acontecendo em paralelo em todos os continentes. Nem sempre exatamente ao mesmo tempo, mas para todos os efeitos práticos com a pouca resolução dos nossos métodos de datação um intervalo de 10 mil anos é quase como dizer que foi ao mesmo tempo, em África na Ásia e na Europa, independentemente das características rácicas das populações de neandertais, denisovanos, africanos.

Independentemente de se tinham um nariz maior ou mais pequeno, se tinham o queixo mais marcado ou menos marcado, se tinham arcadas supraciliares mais espessas ou menos espessas, se eram pretos ou se eram brancos, na realidade quando olhamos para aquilo que faziam e aquilo que nós encontramos como provas arqueológicas das suas faculdades estão todos ao mesmo nível. As coisas mudam... hoje, a única conclusão que se pode tirar é que, fossem neandertais ou modernos, eram todos, antes do mais, humanos.

Quais são as questões arqueológicas ainda sem resposta que mais o inquietam?
Não me inquieta nada. Inquieta-me que nunca mais se saia desta história que vivemos há quase dois anos... felizmente há sempre coisas por descobrir, a gente sabe muito pouco. Os fósseis que nós temos e as sequências genéticas e o ADN antigo sobre os quais trabalhamos … é como estar ali no Altice Arena com 20.000 pessoas a assistir a um concerto… todos com o isqueiro aceso e de repente apagam-se os isqueiros todos, só há dois ou três que ficam acesos, alguém tira uma fotografia e diz que só havia duas pessoas no concerto. Aquilo que nós vemos do passado é isso, é uma ínfima parte do que existiu. Portanto, a nossa visão é sempre relativamente enviesada. Vamos corrigindo os erros, aproximamo-nos cada vez mais… há 20 anos ninguém imaginava, nem eu próprio imaginava, que um dia estaríamos a descobrir que a mais antiga arte das grutas era feita pelos neandertais, foi uma surpresa para toda a gente, inclusivamente para a minha equipa quando descobrimos isso. Coisas desse género podem ainda acontecer, há ainda muito trabalho para fazer.

Como inquietação é só o perigo do chamado desenvolvimento. Por um lado, ajuda porque há muitas jazidas arqueológicas importantes que só se descobrem porque se abrem estradas, constroem-se linhas de caminhos-de-ferro, fazem-se dragagens. Onde há mecanismos de intervenção e de acompanhamento pode-se dar resposta a descobertas que se façam neste contexto antes que haja destruição. Em muitos lados isso não acontece.

A inquietação é a gente saber que estamos continuamente a perder informação, mas também é mais ou menos inevitável. A única coisa que se pode fazer é divulgar e encorajar as pessoas a fazer o possível para que sejam postas em prática e respeitadas as normas e os mecanismos que existem para salvaguarda das jazidas arqueológicas e paleontológicas que existem já, e que não estão esgotadas. Isso é que é para mim a questão importante, que se proteja e se estude, porque o chamado desenvolvimento não vai parar. E ainda bem porque não podemos voltar à idade da pedra. Como isso não vai parar, vai haver cada vez mais afetação do património arqueológico, o que tem de haver são medidas para que ele seja estudado e protegido, mitigando e prevenindo as consequências negativas que vêm da atividade humana, que hoje em dia se faz com tratores, com maquinaria pesada, etc., e provoca mais “estrago” ou modificação do que quando se trabalhava de enxada ou se vivia da caça e da recoleção. As nossas cidades têm que estar preparadas para estar à altura desse desafio, sabendo que a atividade humana que se faz atualmente altera profundamente o ambiente. Isto tem consequências para as jazidas arqueológicas e temos de encontrar maneira de que a nossa atividade ajude a descobrir e a estudar em vez de acarretar perda e destruição. 

Pestera cu Oase (Banat, Roménia), em 2005. João Zilhão (à direita na fotografia) faz medições de radiação gama para efeito de datação por ESR (Ressonância Eletromagnética de Spin).

Fotografia de João Zilhão

Há alguma zona no país com potencial arqueológico que lhe traga mais curiosidade? 
A arqueologia estuda mais de 2 milhões de anos de história. Depende das épocas. Por exemplo, quem é que imaginava há 40 anos que tínhamos ali no Côa um sítio que hoje é Património da Humanidade? E, no entanto, apareceu e ninguém imaginava que era ali. De um modo geral, como para o estudo das épocas mais remotas são importantes as jazidas dos maciços calcários (grutas), toda aquela zona do Maciço Calcário Estremenho, no triângulo Leiria-Rio Maior-Tomar, é uma zona fundamental para a pré-história de Portugal. Para épocas mais recentes, já da época dos primeiros agricultores, há uma paisagem extraordinária de grande importância internacional, que é o megalitismo do Alentejo. Devia ser adequadamente protegido e valorizado, e não é, justamente porque está exposto em terrenos agrícolas e a maquinaria pesada, as despedregas que se fazem no Alentejo para se pôr olival ou para pôr vinha acarretam muita destruição que às vezes nem é deliberada. Simplesmente, às vezes os proprietários não sabem, portanto isso implica um investimento forte na informação e na prevenção.

As nossas cidades estão construídas sobre cidades mais antigas, por baixo da Sé de Lisboa está uma colónia fenícia das mais antigas do ocidente. Toda a gente conhece o templo de Diana em Évora e o teatro romano em Lisboa. As cidades da idade do ferro e da época romana e islâmica existem enterradas por baixo das nossas cidades atuais e, cada vez que fazemos obras temos que saber que elas estão lá e que têm de ser estudadas, e na medida do possível, conservados os vestígios. Portanto, isto depende do período que estamos a falar, das condições geológicas, das condições de conservação, não há uma resposta uniforme. Cada região do país por período cronológico tem as suas especificidades em termos de estudo e proteção, e prioridades também. 

Se pudesse viajar no tempo para fazer trabalho de campo durante uma época em que não viveu, quando é que seria?
Trabalho de campo com aquilo que sei hoje ou com aquilo que se sabia na época? 

Com aquilo que sabe hoje.
Isso com certeza que seria a segunda metade do século XIX, quando as grandes jazidas estavam ainda por descobrir, não tinham sido escavadas, muitas delas foram mal escavadas, ou escavadas à maneira da época. Hoje em dia fazem-se as coisas de outra maneira, extrai-se muito mais informação do que os pioneiros podiam fazer. Se a gente pudesse voltar ao século XIX e voltar a escavar certas jazidas como se escavam hoje, era o ideal; mas não se pode…

 

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza. 

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