Como evoluiu a tradição do Dia de Ação de Graças ao longo dos séculos

A história do Dia de Ação de Graças tem sido confusa, desmistificada e reescrita ao longo da história, mas vamos apresentar as razões pelas quais os americanos recheiam peru e fazem puré de batata todos os anos.

Publicado 24/11/2021, 12:51
Mesa da família Rawas para o Dia de Ação de Graças

O primeiro Dia de Ação de Graças, ao contrário do que se pensa, não foi exatamente um sinal de paz entre os peregrinos e os nativos americanos. Ao longo dos anos, a nossa compreensão da história do Dia de Ação de Graças evoluiu juntamente com as tradições e os alimentos que decoram as mesas dos norte-americanos neste feriado.

Fotografia de Romulo Yanes, The New York Times/Redux

Todos os anos, na quarta quinta-feira de novembro, os americanos reúnem-se em torno de mesas repletas de peru, batatas, amoras, recheios e muito mais. Durante esta celebração, as pessoas partilham as coisas pelas quais estão gratas no ano anterior. Algumas pessoas também celebram este dia a assistir ao desfile do Dia de Ação de Graças da Macy's, a um jogo de futebol ou até mesmo a participar numa corrida de cinco quilómetros.

Mas o Dia de Ação de Graças nem sempre foi celebrado desta forma. Tanto o feriado como as suas tradições evoluíram – desde uma mítica festa de colheita em 1621, que foi partilhada por peregrinos e pelos índios Wampanoag, passando por um encontro patriótico e religioso na era pós-Guerra Civil e terminando no feriado da atualidade, que se foca em boa comida e no tempo passado em família.

A história do Dia de Ação de Graças tem sido confusa, desmistificada e reescrita ao longo da história, mas vamos apresentar as razões pelas quais os americanos recheiam peru e fazem puré de batata todos os anos.

A verdadeira história do primeiro Dia de Ação de Graças

Os historiadores consideram que o primeiro Dia de Ação de Graças aconteceu em 1621, quando os peregrinos do famoso navio Mayflower, fundadores da Colónia de Plymouth no Massachusetts, se sentaram para uma refeição de três dias com os nativos Wampanoag. Contudo, esta refeição não assinalava um momento importante de paz como mais tarde foi retratado – provavelmente era apenas uma celebração rotineira praticada pelos ingleses para homenagear as colheitas.

As ilustrações mais antigas sobre o primeiro Dia de Ação de Graças mostram uma refeição amigável entre os peregrinos e os Wampanoag em 1621. Mas esta representação romântica esconde uma história de violência. Poucos anos depois, os colonos iniciaram uma guerra contra as tribos vizinhas e, por fim, massacraram-nos.

Ilustração de Photo12/Universal Images Group via Getty

Em 1841, o editor Alexander Young de Boston publicou um livro com uma carta do peregrino Edward Winslow, que descrevia a festa:

“Com a colheita feita, o nosso governador enviou quatro homens à caça de aves para que pudéssemos, de uma forma mais especial, celebrar juntos... [Havia] muitos índios entre nós, sendo que o de maior destaque era o Rei Massasoit, com cerca de noventa homens, a quem entretemos e com quem festejámos durante três dias.”

Edward Winslow não descreveu a festa como sendo um “Dia de Ação de Graças”, que naquela época era considerado um período de jejum e oração. Porém, quando Alexander Young publicou a carta, denominou a refeição em nota de rodapé como o “primeiro Dia de Ação de Graças”, e o nome ficou.

Mas o motivo daquela primeira celebração não era alegre – e a relação entre os peregrinos e os Wampanoag era tensa. Quando os peregrinos chegaram pela primeira vez à região em 1620, não estavam preparados e tinham pouca comida, acabando por roubar milho dos túmulos e reservas dos nativos americanos.

Em novembro de 1621, os Wampanoag ouviram os peregrinos a disparar armas de fogo – e os historiadores acreditam que isso pode ter levado os Wampanoag a acreditar que havia uma guerra. O rei Massasoit enviou 90 homens para investigar, até que percebeu que os peregrinos estavam apenas a celebrar. Os Wampanoag decidiram caçar carne de veado e juntaram-se às festividades.

Este momento de paz foi impulsionado, em grande parte, pelas rivalidades de comércio que os Wampanoag tinham com outras tribos, de acordo com Ann McMullen, curadora do Museu Nacional do Índio Americano, que diz que os Wampanoag perceberam que uma aliança com os peregrinos “poderia fortalecer a sua posição”.

Mas a historiadora Sarah Wassberg Johnson diz que esta paz foi de curta duração: em 1637, o acordo entre os peregrinos e os Wampanoag já se tinha desintegrado, e os peregrinos iniciaram uma guerra que se iria arrastar ao longo décadas contra os seus vizinhos indígenas. Eventualmente, os colonos massacraram as tribos locais, incluindo os Wampanoag.

Como o Dia de Ação de Graças se tornou um feriado moderno

Com o passar dos anos, o significado do termo “ação de graças” mudou. Os dias de ação de graças, que são originalmente uma tradição inglesa, eram tipicamente marcados por missas para agradecer a Deus ou para celebrar uma colheita abundante.

O primeiro Dia de Ação de Graças religioso de que há registo em Plymouth ocorreu dois anos depois da festa de 1621. Este dia celebrava o fim de uma seca de dois meses, de acordo com o livro 1621: A New Look at Thanksgiving. Mais tarde, as ações de graças iriam celebrar as vitórias militares sobre os nativos americanos.

Naquela época, os dias de ação de graças eram geralmente declarados por governadores ou padres. George Washington declarou frequentemente dias de ações de graças durante o seu mandato enquanto general do Exército Continental. E quando se tornou presidente, proclamou o primeiro dia nacional de Ação de Graças em 1789.

Mas muitos dos presidentes que se seguiram ignoraram esta tradição, até que o presidente Abraham Lincoln estabeleceu novamente o Dia de Ação de Graças como feriado nacional durante a Guerra Civil, consolidando esta celebração como uma tradição americana. Sarah Wassberg Johnson diz que esta declaração acabou com as celebrações aleatórias, algumas que assinalavam as colheitas de outono, tornando o Dia de Ação de Graças num feriado nacional.

Abraham Lincoln foi parcialmente convencido por Sarah Josepha Hale, editora da revista Godey’s Lady Book, que escreveu uma carta a fazer campanha para a criação de um feriado anual de Ação de Graças. Abraham Lincoln também queria encontrar uma forma de sarar as feridas criadas pela Guerra Civil e homogeneizar a identidade americana, diz Sarah Wassberg Johnson. Mas este feriado não era celebrado em todos os estados, sobretudo nos estados do sul, que o encaravam como um feriado dos chamados ianques do norte.

Porém, após a Guerra Civil, este feriado ficou imbuído de nostalgia devido à fundação da América em Plymouth Rock. A verdadeira história dos peregrinos e dos nativos americanos não foi devidamente registada ou está sequer acessível, pelo que as histórias dos peregrinos benevolentes que conquistaram e fundaram o país começaram a ser passadas como se fossem história, diz Sarah Wassberg Johnson.

De facto, muitas obras de arte do século XIX e reconstituições do primeiro Dia de Ação de Graças retratam os nativos americanos como se fossem selvagens com cobertores e grandes cocares de penas, imagens que se baseiam em tribos de outras regiões. E também alteraram as roupas típicas dos peregrinos para representar a sua “intensidade e bravura religiosas”.

Após a proclamação de feriado anual de Abraham Lincoln, o Dia de Ação de Graças começou a ser geralmente celebrado na última quinta-feira de novembro. Mas em 1939, o presidente Franklin Delano Roosevelt tentou adiar as celebrações uma semana na esperança de dar mais tempo para as compras de Natal e estimular a economia após a Grande Depressão.

“Assim, este dia ficou vinculado a um aspeto comercial e surgiu a Black Friday”, diz Sarah Wassberg Johnson. “É aí que se divorcia dos motivos religiosos e cívicos pelos quais é celebrado.”

Mas a nova data para o Dia de Ação de Graças de Franklin Roosevelt era confusa para os americanos. Em 1941, o Congresso dos EUA aprovou uma resolução conjunta que estabeleceu a última quinta-feira de novembro como o Dia de Ação de Graças. Para muitos dos americanos que agora celebram o Dia de Ação de Graças, este feriado tornou-se uma desculpa para estar com a família e comer bem.

Pessoas reunidas na ilha de Alcatraz para a Cerimónia do Nascer do Sol dos Povos Indígenas, no dia 28 de novembro de 2019. Este evento celebra a ocupação de Alcatraz (1969-1971) por parte de ativistas nativos americanos que protestavam contra o roubo das suas terras por parte dos colonos brancos.

Fotografia de Liu Guanguan, China News Service/VCG/Getty

Por outro lado, para muitos nativos americanos, este feriado invoca um legado de racismo, violência, genocídio e maus-tratos. Na década de 1970, por volta do bicentenário dos EUA, os povos nativos começaram a reunir-se neste feriado para celebrar um dia de luto.

O papel central do peru

Na celebração das colheitas de 1621, o cardápio incluiu veado, milho, marisco, feijão, nozes, bagas secas, abóbora – e, sim, peru.

O peru é um dos pratos cujas origens podem ser facilmente rastreadas até ao primeiro Dia de Ação de Graças. De acordo com a quinta edição do livro Holiday Symbols and Customs, os peregrinos e os nativos americanos provavelmente caçavam e comiam aves selvagens, como gansos, patos ou perus – que, enquanto aves nativas grandes, eram relativamente fáceis de capturar, tornando-se rapidamente numa importante fonte de alimento para os primeiros colonizadores americanos.

Não se sabe se o peru foi assado no espeto, refogado ou guisado numa chaleira enorme durante a celebração, porque os métodos de confeção foram registados posteriormente. Mas é provável que os restos de quaisquer aves cozinhadas fossem colocados numa panela e fervidos para fazer um caldo para o dia seguinte.

Aves prontas para o Dia de Ação de Graças no Washington Market, por volta do ano 1900. O peru faz parte da refeição do Dia de Ação de Graças desde o início desta tradição – mas na realidade só ganhou mais popularidade graças a uma campanha de marketing feita após a Segunda Guerra Mundial.

Fotografia de George Rinhart, Corbis/Getty

O hábito de partir o “osso da sorte” do peru em dois, que dá sorte à pessoa que fica com a metade maior, tem as suas origens nos romanos. E era certamente uma tradição bem estabelecida em Inglaterra na época em que os peregrinos a levaram para a América.

Desde o século XVII até ao início do século XIX, a presença de três ou quatro tipos de carnes era importante para enfatizar que uma refeição era um banquete. No entanto, o peru já ocupa o centro das atenções há muito tempo – e recebeu um impulso após a Segunda Guerra Mundial através de uma campanha de marketing de grande escala que apelava ao consumo da sua carne. Agora, os americanos comem anualmente mais de 310 milhões de quilos de peru no dia Ação de Graças, de acordo com o livro Holiday Symbols and Customs.

A evolução do menu de Ação de Graças

É provável que os peregrinos já recheassem os animais nas suas festas antecipadas das colheitas, como se pode verificar pelos antigos livros de receitas coloniais. Os peregrinos diziam que o recheio era o “pudim na barriga” e normalmente adicionavam ervas, gemas de ovo endurecidas, pão ralado, creme, passas ou uvas, açúcar, especiarias e nozes. No entanto, este método tradicional de cozinhar o recheio da ave pode não ter sido usado inicialmente, porque o peru no espeto não cozinha uniformemente.

A tradição de servir tarte de abóbora no Dia de Ação de Graças, a mais icónica das tartes, também indica que este pode ter sido um alimento básico muito importante na celebração inicial deste feriado americano. Foram os nativos americanos que apresentaram a abóbora-cabaça aos peregrinos, por isso que é provável que os peregrinos tivessem comido abóbora cozida com temperos no primeiro Dia de Ação de Graças, uma vez que a farinha, o açúcar e o melaço necessários não estavam disponíveis.

O conhecido molho gelatinoso de mirtilo provavelmente também não fez parte do primeiro Dia de Ação de Graças, novamente devido à escassez de açúcar. Porém, como os mirtilos cresciam nos pântanos de Nova Inglaterra, as bagas podem ter sido usadas para fazer molhos para a carne ou misturadas nos recheios. O puré de batata e outros pratos também são uma tradição mais recente nas refeições do Dia de Ação de Graças.

Sarah Josepha Hale foi indiscutivelmente a pessoa mais influente na elaboração da refeição clássica do Dia Ação de Graças de Nova Inglaterra. Em Northwood, o seu romance de 1827, Sarah Josepha Hale descreve uma refeição de peru assado com recheio e molho, e mais tarde imprimiu receitas de tarte de abóbora na revista Godey’s Lady Book. No entanto, durante um curto período de tempo no século XX, a paixão vitoriana pela elegância alterou os menus do Dia de Ação de Graças para incluir cozinha francesa e alimentos que a tecnologia moderna disponibilizou, como gelados e ostras.

Apesar de o Dia de Ação de Graças ser frequentemente associado aos pratos regionais de Nova Inglaterra, onde os peregrinos estabeleceram os seus lares, estas comidas estão longe de serem os únicos alimentos que enfeitam a mesa. Muitas famílias também servem pratos que são importantes para as suas culturas ou famílias. O macarrão com queijo é o centro das atenções de muitas mesas, enquanto que outras pessoas apreciam tamales, um prato indígena que consiste em massa recheada e enrolada em folhas. Hoje, a maioria dos americanos termina a refeição com uma fatia de tarte, que também pode ser de batata-doce ou noz-pecã nos estados do sul, e um bocado de chantilly.

Porém, independentemente do que agracia a mesa no Dia de Ação de Graças, Sarah Wassberg Johnson diz que o mais importante é os americanos aprenderem sobre a verdadeira história deste feriado, que foi distorcida e remodelada ao longo dos anos juntamente com as alterações culturais.

“É difícil reconciliarmo-nos com esta história... porque o Dia de Ação de Graças tem uma espécie de mitologia à sua volta. Por outro lado, a maioria dos americanos já não celebra atualmente o mito do primeiro Dia de Ação de Graças. Estão apenas a celebrar a família”, diz Sarah Wassberg Johnson.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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