D. Estefânia, a rainha de Portugal que morreu intocada

A rainha D. Estefânia viveu com paixão e cumplicidade, um amor com D. Pedro V. Partiu cedo e com um único herdeiro: o Hospital Dona Estefânia.

Publicado 9/11/2021, 12:18
Rainha D. Estefânia

Litografia de D. Estefânia, datada de 1858.

Fotografia de António Joaquim de Santa Bárbara, 1813 - 1865; Litografia da Casa Real; Biblioteca Nacional de Portugal

A princesa alemã Stephanie Josepha Friederike Wilhelmine Antonia von Hohenzollern-Sigmaringen, mais conhecida por D. Estefânia entre os portugueses, tinha apenas 20 anos quando partiu para Portugal, para se casar com o rei D. Pedro V.

D. Pedro V e D. Estefânia casaram através de uma procuração, datada de abril de 1858, embora só se tenham conhecido um mês depois. Os registos da primeira vez em que se viram, numa carta de D. Estefânia à sua mãe, D. Josefina de Baden, relatam que nada disseram, apenas deram as mãos.

De acordo com os mesmos, D. Pedro beijou a testa de D. Estefânia e esta chorou. Olharam-se por muito tempo, compreendendo-se, sem nada dizer. Depois do casamento por procuração em Berlim, voltaram a casar presencialmente, a 18 de maio.

Os festejos duraram dias, com vistosas iluminações, récita de gala no teatro D. Maria II, fogo de artifício e paradas. A rainha partilhou também sobre a sua noite de núpcias, que se sentia embaraçada, pouco à vontade, mas também referiu que a pureza e delicadeza extremas de D. Pedro a faziam feliz.

D. Pedro V, o rei Santo

D. Pedro, filho de D. Maria II e D. Fernando II, teve uma educação moral e intelectual exemplar, demonstrando desde cedo uma notável inteligência. Aos dois anos de idade já falava alemão e francês, aos doze dominava o grego, o latim e o inglês, para além do estudo de disciplinas como ciências naturais, filosofia e escrita.

Viajou desde cedo para vários países, tentando trazer para casa a modernidade e evolução que descobria nas suas viagens. Neste sentido, inaugurou o primeiro telégrafo e também o caminho de ferro entre Lisboa e o Carregado. Foi apelidado rei Santo, reconhecido como liberal, inovador, carinhoso e preocupado.

Durante as epidemias de cólera e febre amarela, entre 1853 e 1857, recusou-se a sair de Portugal e prestou auxílio direto às vítimas, criando também o Asilo D. Pedro V, para acolher os órfãos, dando-lhes instrução primária e ensinando-lhes um ofício.

D. Pedro V não tinha grandes interesses e objetivos matrimoniais, tendo recusado até a sua primeira prometida esposa. No entanto, acabou por aceitar a segunda, que viria a ser rainha de Portugal.

A chegada de D. Estefânia a Portugal ofuscou os lisboetas

D. Estefânia chegou a Portugal com uma joia idealizada pelo rei, concretizada pelo joalheiro real, Raimundo José Pinto que, com pedras preciosas provenientes da herança da mãe de D. Pedro, adicionou diamantes de Paris, totalizando quatro mil peças preciosas.

Quando foi vista pelos lisboetas, pela primeira vez, as pedras e diamantes da tiara ofuscavam o olhar, graças à incidência do sol do momento. Um tesouro inteiro que, durante a cerimónia de casamento deu que falar, devido a um corte na testa provocado por um dos diamantes.

Com o véu manchado de sangue, ao fim de duas horas a suportar o peso da tiara, D. Estefânia quase desmaiou. A joia foi substituída por uma coroa de flores, que deu abertura ao povo para murmurar um presságio de morte, associado ao uso desta.

A verdade é que, passado alguns meses, a rainha sentiu-se mal e foi internada. Adoeceu com uma angina diftérica e faleceu, quando tinha acabado de completar 22 anos. Ao que se indicava na época, a difteria terá sido contraída numa inauguração de caminhos de ferro no Alentejo.

Quando uma das suas damas lhe colocou a tiara na cabeça, foi ordenado que se lhe retirasse, uma vez que uma virgem nunca usa diamantes. Assim se pronunciava que D. Estefânia tinha falecido intocada.

Um amor trágico, interrompido cedo demais

O casal sempre pareceu apaixonado, com D. Pedro V a aproveitar todos os seus tempos livres para estar com D. Estefânia. Passeavam de mão dada pelos jardins de Sintra e por Benfica e quando D. Pedro se ausentava, mesmo que por poucos dias, trocavam correspondência.

Quando a rainha faleceu, os médicos da casa real realizaram uma autópsia. Contudo, o seu resultado apenas foi divulgado 50 anos mais tarde, num artigo do médico Ricardo Jorge, no qual se confirmava que D. Estefânia tinha morrido virgem.

D. Estefânia era a rainha do povo, a esperança dos portugueses desfavorecidos

Em vida, D. Estefânia era conhecida por levar a esperança a muitos portugueses, que a viam como um anjo, sempre disposta a ajudar os mais pobres e desfavorecidos. Juntamente com o marido, fundaram diversos hospitais e instituições de caridade.

Quando adoeceu, deixou um único pedido, que passava pela construção de um novo e moderno hospital, que prestasse assistência às crianças pobres. D. Pedro cumpriu o último desejo da sua mulher, criando o Hospital de Dona Estefânia. Passado dois anos, acabou também por falecer, aos 24 anos de idade, com febre tifoide, contraída por beber água contaminada durante uma caçada.

A tiara que se estimava valer 86.953,645 reis é, segundo o povo, o marco do infortúnio desta curta história de amor entre D. Estefânia e D. Pedro.

Leia também a história de D. Catarina de Bragança, a nobre portuguesa que introduziu o chá em Inglaterra.

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