Fotógrafos refletem sobre a sua identidade durante o Mês dos Nativos Americanos

Fotógrafos nativo-americanos que trabalham com a National Geographic transmitem a importância do seu legado e cultura nos Estados Unidos.

Publicado 19/11/2021, 13:03
Antoinette Peters

Tara Kerzhner fotografou Antoinette Peters, que vive em Coeur d'Alene e é descendente do povo Nez Perce, enquanto traçava o perfil de várias tribos no estado de Idaho. Segundo Tara Kerzhner, trabalhar neste projeto permitiu-lhe ligar-se novamente à sua herança Nez Perce. “Honrar os nativos através da fotografia é incrivelmente importante no aprofundamento da minha própria identidade nativa. Fotografar tornou-se na base para construir relações com outros povos nativos que partilham uma jornada semelhante”, diz Tara Kerzhner.

Fotografia de Tara Kerzhner

A celebração do Mês dos Nativos Americanos oferece tempo não só para homenagear a história e as contribuições feitas pelos nativo-americanos aos Estados Unidos, como serve para destacar a sua cultura e legado, que está profundamente enraizada no núcleo da América.

Os esforços para realizar o que agora se conhece por Mês dos Nativos Americanos começaram no início do século XX. Nova Iorque tornou-se no primeiro estado a estabelecer o “Dia do Índio Americano” em 1916. Mais tarde, em 1976, o presidente Gerald Ford assinou uma resolução conjunta proclamando o período de 10 a 16 de outubro como a “Semana de Sensibilização sobre os Nativos Americanos”. Catorze anos depois, o presidente George W. Bush aprovou uma resolução conjunta para designar o mês de novembro como o “Mês da Herança Nacional do Índio Americano”. Proclamações semelhantes têm sido publicadas todos os anos desde 1994.

Apesar de alguns destes nomes serem um exemplo claro de como os indígenas têm sido mal representados durante décadas, o reconhecimento de um mês oferece uma oportunidade para acabar com estereótipos e preconceitos. Vários fotógrafos nativo-americanos que trabalham com a National Geographic selecionaram fotografias e partilharam as suas reflexões pessoais, mostrando a importância da sua herança e cultura nos Estados Unidos.

Este bebé recém-nascido, com seis semanas de idade, poderá ter o seu futuro afetado com base no seu estatuto de quantum sanguíneo.

Fotografia de Tailyr Irvine

Tailyr Irvine – Salish e Kootenai

O desejo da fotógrafa Tailyr Irvine era conseguir mostrar uma visão autêntica dos nativo-americanos através das suas fotografias, esperando que fossem vistos da mesma forma que os outros americanos, e para que os não nativo-americanos conseguissem estabelecer uma ligação com as imagens.

“Gostava que o meu trabalho fosse uma ferramenta para educar e ajudar a acabar com os estereótipos que atormentam os povos indígenas desde que Edward S. Curtis nos rotulou de ‘raça em extinção’. Nós não desaparecemos”, diz Tailyr Irvine.

Esta fotógrafa também quer ser um exemplo para os outros nativo-americanos aspirantes a fotógrafos que desejam destacar o seu legado através da fotografia.

“Eu faço muita pressão para ter acesso a espaços que não foram construídos para os povos indígenas, porque sempre que eu entro nesses espaços, deixo a porta aberta para que outros nativo-americanos também entrem. Quanto mais espaço o nosso trabalho ocupar, menos espaço fica disponível para a ignorância.”

Parte do trabalho de Tailyr Irvine envolve o seu projeto de quantum sanguíneo, que destaca as inconsistências no sistema de quantum sanguíneo usado no início do século XX pelo governo dos Estados Unidos. Este sistema foi inicialmente usado para identificar, regular e calcular a quantidade de “sangue indígena” que um nativo americano possui. Na fotografia do recém-nascido, o quantum sanguíneo do bebé já estava a ser debatido, algo que pode ter implicações importantes para o futuro da criança.

“Na fotografia, ela tem semanas de idade e foi-lhe atribuída uma fração que terá um grande impacto na sua vida”, diz Tailyr Irvine. “A criança nem sequer consegue segurar a cabeça e já estamos a discutir a fração que poderá passar aos seus filhos.”

Teexeeshe 'Jones-Scott, Tsinte Steinruck, Chvski Jones-Scott, Delaina Bommelyn e Allie Castellaw são fotografadas nos seus trajes Ch'a~lh wvn Srdee-yvn (Dança das Flores), no Dee-ni' Nii~-li~ (Rio Smith), na Da'-chvn-dvn (Boca do rio) em Tolowa Dee-Ni', na Califórnia, em outubro de 2021.

Fotografia de Matika Wilbur

Matika Wilbur – Swinomish e Tulalip

Teexeeshe 'Jones-Scott, Tsinte Steinruck, Chvski Jones-Scott, Delaina Bommelyn e Allie Castellaw são fotografadas no seus trajes Ch'a~lh wvn Srdee-yvn (Dança das Flores), no Dee-ni' Nii~-li~ (Rio Smith), na Da'-chvn-dvn (Boca do Rio) em Tolowa Dee-Ni', na Califórnia. Matika Wilbur, descendente dos povos Swinomish e Tulalip, fotografou estas mulheres nos seus trajes na costa de Washington. O trabalho de Matika Wilbur tem sido dedicado a mudar a forma como os nativo-americanos são vistos. Para o seu documentário intitulado Projeto 564, Matika Wilbur já fotografou mais de 400 tribos nos Estados Unidos.

“Eu acredito genuinamente que a visibilidade do conteúdo produzido por indígenas é uma forma de superar a narrativa tóxica da extinção indígena e, em vez disso, sustentar histórias que explorem ideias de soberania indígena, autodeterminação, relacionamentos, ideias de recomeço e futuro.”

Marva, mãe de Teexeeshe' e de Chvski, disse a Matika Wilbur que “estes atos de ligação são curativos para todos nós, portanto, quando restabelecemos as nossas cerimónias, é um sentimento muito poderoso de amor próprio, de respeito pessoal e também de respeito por estas práticas”.

Os filhos de Brian Adams, Ellis e Elliott, sorriem durante um abraço amoroso. Brian Adams deseja que os seus filhos tenham orgulho na sua herança indígena.

Fotografia de Brian Adams

Brian Adams – Inupiaq

Brian Adams deseja que os seus filhos, Ellis e Elliott, tenham orgulho na sua herança histórica. Tendo crescido com o irmão como sendo as únicas crianças Inupiaq na sua cidade natal, Brian Adams tentava frequentemente ignorar as piadas que ouvia sobre os nativo-americanos do Alasca, mencionando que “não era encorajado a ter orgulho do seu povo”.

Brian Adams deseja usar as suas fotografias não só para desmistificar os estereótipos sobre os nativo-americanos, mas também para educar aqueles que se podem ter sentido desencorajados a aprender mais sobre a sua herança com base nas normas sociais americanas.

“Cresci desligado da minha cultura e estou grato por ter conseguido restabelecer contacto à medida que fui envelhecendo, algo que, para mim, surgiu através da fotografia”, diz Brian Adams. “Tento expandir a identidade nativo-americana resistindo à mitificação do nosso povo, algo que qualquer pessoa, mesmo os indígenas, pode fazer se não tiver cuidado.”

A mãe dos seus filhos é branca, mas Brian Adams quer ter a certeza de que os filhos compreendem a sua linhagem, herança e a história traumática que acompanha tudo isso.

“A minha mãe é branca e a dos meus filhos também, mas entender que os indígenas passaram por uma assimilação forçada – ou acusar alguém de ‘não ser nativo o suficiente’ – com base nesta premissa visceral, é apenas outra parte da colonização e é importante para perceber os problemas representados pelo quantum sanguíneo.”

Esquerda: Superior:

Moises Gonzales visita e reza no Cerrito de Santa Cruz, no Cañon de Carnué, de onde avista o pôr do sol em Albuquerque.

Direita: Fundo:

Moises Gonzales é descendente de uma família Genízaro da povoação estabelecida em 1763 em Cañon de Carnué, a leste de Albuquerque, no Novo México.

Fotografia de Russel Albert Daniels

Russel Daniels – Diné e Ho-Chunk

Russel Daniels sente uma ligação profunda com o seu trabalho, onde destaca o legado dos escravos nativo-americanos na América do Norte. Ao longo de décadas de investigação, Russel Daniels conseguiu descobrir a sua própria história familiar, bem como a de outras pessoas que conheceu ao longo da sua jornada.

“Do meu lado paterno, somos descendentes de uma prisioneira Diné chamada Rose, que foi raptada num ataque do povo Ute e traficada para norte, para aquele que se viria a tornar no Território de Utah, e legalmente vendida a um colono mórmon polígamo, Aaron Daniels, em meados do século XIX.”

Russel Daniels fotografou Moises Gonzales, que é descendente de uma família Genízaro da povoação estabelecida em 1763 em Cañon de Carnué, a leste de Albuquerque, no Novo México. De acordo com a pesquisa feita por Russel Daniels, o nome Genízaro era usado na era colonial para descrever os nativo-americanos escravizados e cristianizados que eram traficados para colonatos espanhóis.

“Tal como muitos outros Genízaro, Moises Gonzales visita e ora no Cerrito de Santa Cruz, no Cañon de Carnué”, diz Russel Daniels. “Eles gostam de ver o pôr do sol sobre Albuquerque, uma cidade já foi protegida pela comunidade de concessão de terras.”

Mamita Augustina Misak é parteira tradicional e é considerada a curandeira da sua comunidade.

Fotografia de Tahila Mintz

Tahila Mintz – Yaqui

Mamita Augustina Misak é a curandeira da sua comunidade – faz visitas ao domicílio quando as pessoas estão doentes e também é parteira tradicional. Mamita Augustina leva plantas que foram propositadamente colhidas para as pessoas que visita. A fotógrafa Tahila Mintz respeita muito Mamita Augustina, assim como a sua comunidade.

“Esta imagem é uma reverência a quem ela é e à cura que emana enquanto parteira tradicional”, diz Tahila Mintz, “a honra, o respeito e o amor que tem pelas plantas e a importância da água, que está presente nos seus trajes tradicionais”.

Ao mesmo tempo que salienta a importância de idosos como Mamita Augustina, Tajila Mintz acredita que desempenha um papel importante ao contar histórias tradicionais de pessoas como esta curandeira.

“Eu crio imagens para alimentar a recordação de um conhecimento que foi desvirtuado pela intervenção colonial e para desmontar o paradigma patriarcal”, diz Tahila Mintz. “Com estes ensinamentos e com a ligação às nossas raízes enquanto seres terrestres, existe uma oportunidade de cura física, mental e espiritual para todas as pessoas. Eu sou uma escriba ancestral, e a minha ferramenta é a câmara.”

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho destes fotógrafos. Leia mais sobre o apoio da National Geographic Society aos exploradores que trabalham para inspirar, educar e compreender melhor a história e culturas humanas.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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