Um olhar raro dos armazéns secretos do Smithsonian

Desde Marretas a borboletas exóticas, um vislumbre por trás das portas fechadas dos museus nacionais da América revela algumas surpresas inesperadas.

Entre a vasta coleção do Smithsonian, que está espalhada por 20 museus e galerias, apenas 1% está em exposição num determinado momento, deixando milhões de tesouros na penumbra, como este adereço clássico do filme Gremlins 2: A Nova Geração, que está escondido em instalações de armazenamento de alta segurança.

Fotografia por Becky Hale
Por Bill Newcott
fotografias de Rebecca Hale
Publicado 29/11/2021, 12:34

O Instituto Smithsonian, que este ano celebra o seu 175º aniversário, é um extenso complexo de instalações e zoológicos que já conta com mais de 155 milhões de itens nos seus 20 museus e armazéns externos. Em mais de 1 milhão de metros de quadrados de espaços de exposição e armazenamento – a maioria localizados em Washington D.C., nos subúrbios de Maryland e na cidade de Nova Iorque – há artefactos que variam entre fisgas, vaivéns espaciais, formigas e elefantes.

Não será portanto uma surpresa descobrir que apenas cerca de 1% da sua coleção esteja em exposição a qualquer momento. Mas isto levanta uma questão: o que estamos a perder? Tal como acabei por descobrir, quando três museus Smithsonian me permitiram gentilmente observar os seus armazéns secretos, estamos a perder muitas coisas capazes de nos deixar boquiabertos.

No labirinto de armazéns do Museu Nacional de História Americana, por exemplo, parece que cada armário que vejo contém um item cultural icónico. Atrás de uma porta está o fato de Espantalho de Ray Bolger, usado em O Feiticeiro de Oz. Uma gaveta ali lado contém a camisa de Jerry Seinfeld e a camisola vermelha de Mr. Rogers. E uma pequena caixa contém o cronómetro original do programa 60 Minutos.

Fileiras e fileiras de arte “extra” alinham o pouco iluminado Centro Luce do Museu de Arte Americana. As pinturas e esculturas nesta secção fazem parte do “armazenamento visível” do museu que está aberto ao público.

Fotografia por Becky Hale

Estas preciosidades da cultura popular podem não ser exatamente o que James Smithson, um cientista britânico que nunca visitou os Estados Unidos, tinha em mente quando doou cerca de 500.000 dólares em 1829 para a criação de “um estabelecimento que aumentasse e difundisse o conhecimento”. Mas é inegável que a instituição homónima se tornou sinónimo de uma curiosidade sem limites, de várias descobertas – e, ao que parece, um local para acumular coisas sem fim.

Mas não devemos cometer o erro de confundir o Smithsonian com o sótão da nossa avó. Meticulosamente organizados e surpreendentemente seletivos, os arquivos do museu são um recurso essencial para a sua missão de preservar as maravilhas naturais e culturais da América e do mundo.

Uma vasta coleção de itens americanos

Quando pedi a Ryan Lintelman para abrir um armário alto de porta dupla, na zona de armazenamento do quinto andar do museu de história americana, não esperava encontrar dois dos meus amigos de infância.

“Sim, é o Mr. Moose e o Bunny Rabbit”, diz Ryan Lintelman, curador do departamento de entretenimento do museu. Por um momento, fico sem palavras. Na minha infância, eu passava praticamente todas as manhãs na companhia destas duas personagens, as marionetes do programa Captain Kangaroo. O Bunny Rabbit parece que continua pronto para roubar cenouras ao Captain a qualquer momento. Mas o Mr. Moose, que foi sempre um tipo falante, tem um pano branco a prender-lhe a boca.

“Não, o Mr. Moose não tem dor de dentes”, diz Hanna Bredenbeck Corp, diretora do departamento de coleções de música, desporto e entretenimento. “Ele está assim porque sem a gravata a sua boca fica aberta e isso não é bom.”

Inúmeros Marretas ocupam um armário nas salas de armazenamento do Museu de História Americana do Instituto Smithsonian. O elenco de Sam and Friends (na prateleira de cima), um precursor da Rua Sésamo, inclui o protótipo da personagem mais famosa de Jim Henson, Cocas, o Sapo.

Estou tão extasiado com a presença em carne e osso – ou lã e tecido – desta dupla que quase não reparo nos seus companheiros na prateleira do armário: o Chef sueco dos Marretas, completo com avental e bigode, e Charlie McCarthy, o avô dos fantoches modernos. No final dos anos 30, este pedaço de madeira elegantemente vestido era o artista mais popular na rádio. E chegou até a vencer um Óscar.

Ao abrir a gaveta de cima de uma caixa rotulada “bolas desportivas”, Ryan Lintelman aponta para uma bola de beisebol assinada por Babe Ruth. “Muitas destas bolas eram de Ella Fitzgerald. Ela era uma fã incondicional de beisebol.”

Noutra sala, encontramos um antigo arquivo de biblioteca. Presumo que seja um acessório de escritório obsoleto, até que vejo uma gaveta que diz: “Phyllis Diller”.

“Sim, é o catálogo de piadas de Phyllis Diller”, diz Ryan Lintelman. “Ela estava na sua casa a mostrar as coisas que nos queria dar e, na verdade, já estávamos a ir embora quando reparámos nisto. Phyllis Diller disse que não iríamos querer partir antes de levar este catálogo. Como é óbvio, não aceitamos tudo o que as pessoas nos oferecem. Nunca conseguiríamos armazenar tudo.”

Eu aceno com a cabeça a concordar – e depois, noutro armário de vidro, reparo numa coleção exaustiva de garrafas térmicas com imagens de Dick Tracy, dos Kiss e da série Fireball XL-5. À primeira vista, é difícil acreditar que os curadores do Smithsonian recusam o que quer que seja, mas é verdade que recusam. Todos os dias, ofertas generosas de artigos como anuários antigos, brinquedos clássicos e até edições antigas da National Geographic são rejeitadas com cartas educadas de recusa.

Neste momento, estamos a caminhar ao longo de fileiras de armários e caixas, abrindo tudo o que nos agrada. Numa caixa rotulada “Porgy and Bess”, há uma partitura completa assinada por George Gershwin para Milt Shaw, líder desta banda de dança dos anos 30. Através da vitrine de uma caixa de troféus, vejo um punho de bronze – um molde da mão do pugilista Joe Louis. Noutro arquivo de gavetas encontram-se as animações originais do Rato Mickey e do Pica-pau Woody.

O autógrafo de Babe Ruth está no topo das assinaturas de jogadores de beisebol do início dos anos 30. Por baixo do autógrafo de Babe Ruth está a assinatura de Bill Terry, dos New York Giants, Eddie “Doc” Farrell, dos New York Yankees, e George Uhle, de Cleveland.  Babe Ruth chegou a considerar George Uhle o lançador mais difícil que já tinha defrontado.

Fotografia por Becky Hale

Manchas de sangue falso mancham os calções que Sylvester Stallone usou no filme Rocky III de 1982. “Quem pensaria que Rocky iria acabar no Smithsonian?”, disse Sylvester Stallone quando doou estes adereços em 2006. “Eu nunca pensei.”

Fotografia por Rebecca Hale

Isto podia continuar, literalmente, para sempre. Mas todos temos um trabalho para fazer e começamos relutantemente a dirigir-nos para a porta de saída – onde eu vejo, por baixo da bicicleta de Lance Armstrong, uma caixa com a etiqueta “Gremlin. Frágil.”

“Espere”, digo eu, “Há um gremlin aqui?

“Sim, acho que sim”, diz Ryan Lintelman, enquanto abre a caixa de madeira. A olhar para nós, por trás de uma plataforma de madeira que suporta a sua cabeça, está uma criatura preservada na perfeição da comédia de terror de Joe Dante de 1990, Gremlins 2: A Nova Geração. Os seus olhos, que perscrutam o suporte de madeira, parecem estar a implorar para o libertarmos. Mas há um aviso escrito à mão: “Não remover os parafusos.”

Eu vi o filme, não é preciso avisar duas vezes.

Hectares de insetos

“Esta é a maior coleção de mariposas-preguiça do mundo”, diz a entomologista Alma Solis, enquanto segura numa bandeja do tamanho de uma gaveta de meias. Pedi a Alma Solis para me mostrar esta gaveta na unidade de armazenamento U 29 do Arquivo de Entomologia do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian. Neste andar sem janelas do museu, fileiras de armários de cor creme estendem-se em todas as direções, como se fossem o maior cacifo escolar do mundo.

A unidade de armazenamento U 29 tem o rótulo “Pyralidae / Chrysauginae / Neártico e Neotropical”, uma categoria que inclui borboletas minúsculas mais conhecidas por mariposas-preguiça. As mariposas-preguiça não têm este nome porque são mais lentas do que as outras mariposas. Nem têm três dedos como as preguiças. No entanto, têm uma relação simbiótica com os referidos habitantes lentos das copas das árvores tropicais.

“As preguiças passam a maior parte do tempo nas árvores, mas descem ao solo para defecar”, explica Alma Solis. “As mariposas-preguiça põem os seus ovos nas fezes das preguiças.”

A entomologista Alma Solis gere a enorme coleção de insetos do Smithsonian – que ocupa vários andares completos no Museu de História Natural.

Fotografia por Rebecca Hale
Esquerda: Superior:

Com vários tamanhos, desde o minúsculo até ao tamanho de uma mão humana, os besouros constituem o maior grupo na coleção de entomologia do Smithsonian.

Direita: Fundo:

São os insetos mais pequenos e humildes que exibem os maiores níveis de diversidade.

fotografias de Becky Hale

A maior coleção do mundo de mariposas-preguiça tem cerca de 200 espécimes, cada uma fixada ordenadamente numa superfície almofadada com um número individual e uma pequena etiqueta que transmite uma quantidade surpreendente de informações sobre exatamente quando, onde e por quem foram encontradas.

Este nível de atenção ao detalhe e organização repete-se gaveta após gaveta, armário atrás de armário, fileira por fileira, até onde a vista alcança – e mais além. Com 35 milhões de espécimes, a coleção de entomologia do Smithsonian ocupa grande parte do quarto, quinto, sexto e sétimo andares da ala leste do museu.

“São cerca de três campos de futebol de espaço de armazenamento”, diz Floyd Shockley, diretor do departamento de coleções de entomologia. “Para além disso, temos uma quantidade semelhante de espaço nos nossos centros externos de apoio.”

São muitos insetos – os besouros constituem o maior grupo – mas fornecem uma base de dados essencial para rastrear, por exemplo, as mudanças nos seus habitats.

“Estamos a descobrir a forma como a distribuição das espécies está a mudar com o tempo”, diz Floyd Shockley. “Pode ser algo provocado não só pelas alterações climatológicas, como pela destruição de habitat provocada pelo homem e outras coisas.”

Floyd Shockley gesticula em direção a uma série de insetos emoldurados perto da zona do elevador. Estes besouros de aparência assustadora, borboletas glamorosas e bicho-pau incrivelmente esguios são “as coisas que as pessoas esperam ver aqui. São as criaturas mais interessantes e carismáticas”.

Mas a maior parte da diversidade está nas pequenas coisas pretas e castanhas, diz Floyd Shockley. “Temos as formigas, por exemplo. Se somarmos todas as formigas da Terra, superam todos os vertebrados juntos.” Floyd Shockley parece entusiasmado com este conceito.

Enquanto descemos de elevador para os andares da exposição – lar de dinossauros e baleias imponentes que entusiasmam multidões – pergunto a Floyd Shockley se ele já se sentiu mal por matar uma mosca.

“Eu tento não o fazer”, responde Floyd encolhendo os ombros. “Mas se tivermos uma aranha em casa e a nossa esposa quiser livrar-se dela, bem...”

“Armazenamento visível”

Apesar de ser verdade que estes curadores altamente qualificados fazem escolhas difíceis em relação aos itens que são expostos – com base nas narrativas específicas que estão a tentar contar nas suas exposições – não parece justo que tantos tesouros permaneçam longe da vista. Porque é que um museu não pode disponibilizar as suas coleções armazenadas para quem quer espreitar para ver o que está lá?

Aparentemente, uma instalação do Smithsonian fez exatamente isso – o Museu de Arte Americana, localizado a poucos quarteirões do National Mall. Escondido numa extremidade do último andar deste museu está o Centro Luce, uma galeria ornamentada de meados do século XIX que tem dois níveis superiores com vista para um espaço grande e estreito. Alinhadas em cada um dos níveis superiores estão fileiras de prateleiras envidraçadas com pinturas, esculturas, entalhes, cerâmica, arte popular e modelos de patentes em miniatura. Parece uma feira de artes e artesanato bem organizada e elaborada.

Alojado na antiga biblioteca ornamentada do Gabinete de Patentes dos Estados Unidos, o Centro Luce do Museu de Arte Americana oferece um catálogo enorme para os amantes de arte.

Fotografia por Becky Hale

Frequentemente identificadas por longos números de inventário – referenciados no site do Smithsonian – as peças do Centro Luce do Museu de Arte Americana são por vezes “promovidas” aos andares de exibição principais para exposições focadas em artistas ou períodos específicos.

Fotografia por Becky Hale

Aqui, encontramos uma caixa cheia de bengalas feitas à mão, pinturas febris com a “arte forasteira” de Howard Finster, que acreditava que as suas fantasias de destruição apocalíptica e anjos eram diretamente inspiradas por Deus. (O seu “Vision of a Great Gulf on Planet Hell” é material capaz de nos dar pesadelos.)

Numa prateleira com modelos de esculturas art déco, reconheço dois homens corpulentos que lutam para domar cavalos empinados – são os irmãos mais novos do monumento Man Controlling Trade, duas estátuas monumentais localizadas no exterior do edifício da Comissão Federal do Comércio dos EUA, a poucos quarteirões de onde estamos.

A organização pode ser um pouco rudimentar nesta secção – os trabalhos estão reunidos por época, por exemplo – mas não há praticamente material descritivo. A maioria dos itens está apenas identificada por longos números de inventário que os visitantes podem pesquisar no site do Smithsonian.

No terceiro nível, inclino-me sobre o parapeito e examino as pilhas de arquivos numeradas no lado oposto. “Vamos ver o que está ali em baixo no 12-B”, digo eu. “Oh, sim!” responde com entusiasmo Eleanor Harvey, curadora sénior do museu. “Esse é um dos meus favoritos.”

Os nossos passos ecoam conforme descemos por uma antiga escadaria de metal. Parece que escolhi uma área amplamente dedicada a representações de nativos americanos – feitas quase exclusivamente por artistas descendentes de europeus. Numa das paredes vemos quadros de homens e mulheres indígenas, têm um ar digno e colorido com os seus trajes tradicionais.

O pintor é o famoso artista George Catlin. Em cinco expedições durante a década de 1830, enquanto explorava o oeste longínquo no Texas e Dakota do Norte, George Catlin pintou mais de 600 quadros de índios das planícies. Quase todos estão agora pendurados nesta parede ou arquivados, sem molduras, num armário enorme a alguns metros de distância. Para os investigadores, estes quadros são um tesouro que, de outra forma, se poderia perder.

George Catlin viajou pelos Estados Unidos e pela Europa a exibir as suas obras. A curadora Eleanor Harvey reconhece que estas obras refletem um problema maior que é enfrentado pelo Smithsonian e por outros museus, que durante muito tempo transformaram os não-brancos em pouco mais do que curiosidades para serem exibidas.

“Há muita discussão agora sobre o voyeurismo e o proveito que se tira do tema”, diz Eleanor Harvey enquanto examinamos a pintura “The Voice of the Great Spirit” criada por Joseph Henry Sharp em 1906, que descreve a plataforma fúnebre de um chefe de Montana Crow. Em primeiro plano, vemos uma viúva supostamente de luto – porém, na realidade, uma mulher chamada Julia Sun Goes Slow posou relutantemente para o artista.

“Tenho idade suficiente para me lembrar dos dioramas do Museu de História Natural que incluíam índios das planícies e povos inuíte como se fossem famílias de alces”, diz Eleanor Harvey. “Não havia verdadeiramente uma distinção entre os dois. Contratámos um curador nativo americano para ajudar na consultoria, para percebermos como podemos contar as histórias de forma apropriada.”

Mesmo com esta área de armazenamento aberta ao público, o Museu de Arte Americana continua a ter cerca de 70% da sua coleção longe dos olhares. Eleanor Harvey, cuja filosofia ecoa a de todos os outros curadores do Smithsonian que conheci, não parece preocupada com isso.

“Algumas pessoas dizem que podíamos simplesmente vender tudo o que temos na cave. Mas eu não concordo, porque isso vai contra tudo o que um museu representa. Estamos aqui para contar toda a história da arte americana. E para o fazer, muitas vezes não podemos usar apenas as obras que estão em exibição.”

“Pode parecer contraproducente, mas uma das coisas que torna um museu excelente são as coisas que não são exibidas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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