Encontrado o túmulo mais antigo de uma bebé na Europa

A descoberta de ‘Neve’, que foi enterrada numa caverna italiana poucos meses depois de nascer, levanta questões importantes sobre o momento em que as comunidades da antiguidade concediam o “estatuto de pessoa” aos seus membros mais jovens.

Por Tom Metcalfe
Publicado 21/12/2021, 11:20
Equipa de arqueólogos

Uma equipa de arqueólogos liderada por Jamie Hodgkins, exploradora da National Geographic, investiga o enterro de uma criança com 10.000 anos numa caverna no noroeste de Itália. A oportunidade rara de extrair ADN deste local ajudou os investigadores a determinar que ‘Neve’ morreu e foi cuidadosamente enterrada ainda bebé.

Fotografia por Jamie Hodgkins, PhD, CU Denver

Uma nova análise aos restos mortais de uma bebé enterrada numa caverna italiana revela que estes pertencem ao túmulo infantil mais antigo de Homo sapiens de que há conhecimento na Europa – uma descoberta que ajuda a revelar questões sobre o estatuto dos bebés e, particularmente, o “estatuto de pessoa” das crianças do sexo feminino há milhares de anos.

A bebé, apelidada de “Neve” em homenagem a um rio da região, tinha apenas entre 40 e 50 dias de vida quando morreu, há pouco mais de 10.000 anos. Não se sabe qual foi a causa de morte, e tudo o que resta são alguns dos seus minúsculos ossos e ornamentos feitos de conchas que se soltaram de uma cobertura que envolvia a criança quando foi sepultada. A garra de um bufo-real, encontrada nas proximidades, parece ter sido colocada no local como presente.

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Os arqueólogos raramente encontram ossos de crianças humanas da antiguidade, sobretudo os ossos de recém-nascidos, porque são demasiado pequenos e frágeis para permanecerem intactos durante milénios. Geralmente encontram-se restos mortais de adultos, mas o registo arqueológico de túmulos pré-históricos tem enormes lacunas que abrangem milhares de anos. E quando se encontram túmulos de crianças da antiguidade, geralmente é impossível determinar o seu sexo porque o ADN já se deteriorou.

Os restos mortais de Neve, porém, são excecionais porque sobreviveram mais de 10.000 anos no solo e ainda contêm ADN suficiente para os cientistas analisarem, explica a paleoarqueóloga da Universidade do Colorado, em Denver, e exploradora da National Geographic, Jamie Hodgkins, autora principal de um estudo sobre os restos mortais publicado na revista Scientific Reports.

“O número de enterros desta época, há cerca de 10.000 a 11.000 anos, é muito, muito escasso”, diz Jamie Hodgkins. “São poucos os restos mortais humanos com esta idade que ainda contêm ADN utilizável e é uma época sobre a qual não temos praticamente nada.”

Enterrados com Neve estavam cerca de 60 missangas e pingentes feitos de conchas do mar.

Fotografia por Jamie Hodgkins, PhD, CU Denver

O ADN sobrevivente é importante porque ajudou a estabelecer que este bebé era uma menina; e os investigadores argumentam que os cuidados dedicados a este enterro confirmam que os bebés do sexo feminino, e provavelmente do sexo masculino, tinham “estatuto de pessoa” dentro do grupo – por outras palavras, eram considerados membros da sua sociedade assim que nasciam.

“Isto sugere que o estatuto, ou o reconhecimento de indivíduos dentro de uma sociedade, abrangia as mulheres desde muito cedo”, diz o paleoantropólogo Caley Orr, também da Universidade do Colorado, coautor do novo estudo e marido de Jamie Hodgkins.

A idade em que os bebés eram aceites enquanto indivíduos e saber se as raparigas eram tratadas da mesma forma que os rapazes é uma questão que permanece em aberto para os cientistas, em parte pela escassa quantidade de informações que é possível extrair dos poucos túmulos escavados de crianças da antiguidade. Mas o antropólogo Michael Petraglia, do Instituto Max Planck em Jena, na Alemanha, que não esteve envolvido nesta última investigação, mas que já estudou o enterro de uma criança Homo sapiens em África, acredita que esta interpretação é razoável. “Concordo que as evidências indicam que havia igualdade de tratamento entre homens e mulheres”, diz Michael Petraglia. “Isto é consistente com as sociedades igualitárias de caçadores-coletores [da atualidade].”

Jamie Hodgkins e Caley Orr também referem um dos poucos túmulos de que há conhecimento de um bebé com a mesma idade que Neve, enterrado na mesma época – há cerca de 11.500 anos – onde fica atualmente o Vale Tanana do Alasca. O ADN preservado confirmou que este bebé também era uma menina; e o seu enterro também mostrava sinais de cuidados e incluía oferendas fúnebres. De acordo com o estudo, isto implica que o estatuto de aceitação na infância, incluindo o das mulheres, tem origens mais profundas numa cultura antepassada comum, ou que surgiu em paralelo em populações quase contemporâneas por todo o planeta.

Jamie Hodgkins diz que a arqueologia tem sido tradicionalmente vista através de uma perspetiva masculina, e receia que muitas das histórias sobre mulheres tenham passado despercebidas. “Os enterros altamente decorados eram considerados masculinos, porque estávamos a seguir uma noção vinda da Europa Ocidental de que os homens tinham estatuto e as mulheres não”, diz Jamie Hodgkins. Mas as descobertas arqueológicas recentes indicam que havia mulheres guerreiras entre os vikings, líderes não-binários na Idade do Ferro e mulheres que governavam na Idade do Bronze. “O que falta na arqueologia é a história feminina.”

Por enquanto, Neve é o enterro mais antigo de uma bebé encontrado na Europa. Mas Jamie Hodgkins acredita que as coisas podem vir a mudar: “Serão feitas mais e mais análises de ADN e vamos encontrar mais e mais mulheres da antiguidade.” Jamie também espera que uma maior participação das mulheres na arqueologia traga mudanças. “Se estivermos apenas a olhar para o registo arqueológico através de uma visão pessoal mais estreita, vamos perder toda a diversidade que existiu ao longo do tempo...”

A caverna no noroeste de Itália onde os restos mortais de Neve foram encontrados, conhecida por Arma Veirana, ficou famosa entre os cientistas que estudam a evolução humana. As escavações que começaram em 2014 revelaram que esta caverna foi ocupada tanto por Neandertais (Homo neanderthalensis) até há 44.000 anos, como por humanos modernos (Homo sapiens) há 30.000 anos. Isto significa que os artefactos e os restos mortais encontrados nesta caverna narram o período de transição entre os últimos Neandertais e o primeiro Homo sapiens – uma época sobre a qual os cientistas querem aprender mais.

Em 2017, os membros da equipa procuravam vestígios de Neandertais em Arma Veirana quando encontraram os primeiros ossos da bebé Homo sapiens. A descoberta foi feita já nos últimos dias programados para o ano de trabalho de campo e, portanto, só no ano seguinte é que o local foi completamente escavado. Naquele momento, Jamie Hodgkins estava grávida de uma menina e isso afetou a sua experiência de escavação: “Estava a mover sedimentos através da peneira e encontrei dentes e os ossinhos de uma mão. Foi realmente doloroso, porque a mão é uma parte muito íntima do nosso corpo.”

A equipa encontrou mais de 60 missangas e pingentes feitos de dois tipos de conchas que parecem ter sido costuradas numa cobertura – agora desintegrada – que envolveu a criança quando esta foi enterrada. Isto indica que alguém daquele grupo fez uma visita ao litoral, a cerca de 20 quilómetros de distância através de colinas arborizadas, para apanhar conchas, ou que trocaram as conchas por outros bens. Vários dos ornamentos têm extensas marcas de desgaste, e Claudine Gravel-Miguel, antropóloga da Universidade do Arizona e coautora do estudo, acredita que estes podem ter sido ornamentos que pertenceram a outros membros do grupo.

A paleoantropóloga María Martinón-Torres, diretora do Centro Nacional de Pesquisa em Evolução Humana (CENIAH) de Espanha, em Burgos, afirma que o enterro encontrado em Arma Veirana é “um belo exemplo da forma como os humanos interagem com os mortos, uma prática que remonta a centenas de milhares de anos e pode ser documentado tanto no Homo sapiens como nos neandertais”.

María Martinón-Torres não participou neste estudo mais recente, mas liderou a investigação sobre a criança Homo sapiens enterrada em África há cerca de 78.000 anos – dezenas de milhares de anos antes de a nossa espécie chegar à Europa.

María Martinón-Torres concorda que a descoberta feita em Arma Veirana reforça a ideia de que os bebés humanos eram considerados membros das suas sociedades desde o momento em que nasciam. “Temos evidências de que as crianças já tinham estatuto desde os períodos mais antigos do Homo sapiens e do período Neandertal. Os enterros mais antigos documentados em África... envolvem crianças e uma dedicação deliberada à forma como os seus corpos eram descartados.”

Aparentemente, as mortes infantis “antes do tempo” podem desencadear sentimentos intensos nos hominídeos e em alguns primatas, acrescenta María Martinón-Torres. “Vemos isto nos tempos modernos, mas também o podemos observar no luto que os chimpanzés fazem pelos seus bebés mortos.”

A National Geographic Society, empenhada em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho de Jamie Hodgkins.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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