O último navio negreiro da América está mais intacto do que se poderia imaginar

Os arqueólogos que estudam o naufrágio do navio Clotilda, identificado em 2019, dizem que este pode conter uma enorme variedade de artefactos bem preservados, desde barris de comida a ADN humano.

Por Chelsea Brasted
Publicado 27/12/2021, 11:47
Viagem para o Alabama

O porão de carga do Clotilda tornou-se numa masmorra infernal para os 108 prisioneiros africanos levados para o Alabama em 1860, mais de 50 anos depois de a importação de escravos ter sido considerada ilegal. O comandante do navio incendiou a escuna para cobrir os vestígios, mas grande parte do casco de madeira conseguiu sobreviver.

Fotografia por

Quando os destroços com 160 anos do Clotilda, o último navio negreiro de que há conhecimento na América, foram identificados nas águas turvas do rio Mobile em 2019, Joycelyn Davis ficou descansada.

Tendo crescido na histórica Africatown perto de Mobile, no Alabama, Joycelyn Davis acreditou sempre nas histórias que ouvia sobre a origem da sua comunidade: que um empresário branco muito abastado apostou que conseguia importar africanos escravizados para Mobile muitos anos depois de esta prática ter sido banida. E que o comandante do Clotilda, William Foster, regressou de África em 1860 com 108 prisioneiros a bordo – incluindo Charlie Lewis, antepassado de Joycelyn Davis e um dos fundadores de Africatown. Alegadamente, o comandante William Foster tinha tentado destruir as evidências do crime queimando e afundando o Clotilda. As histórias também diziam que, algures no rio Mobile, estavam os restos do navio.


“Não é o navio em si que torna isto tudo realidade”, diz Joycelyn Davis. “Só de saber que os meus antepassados ficaram registados, os livros que foram escritos... isso é o suficiente para mim. Mas o navio é a cereja no topo bolo.”

Agora, os arqueólogos fizeram mais revelações que tornam o excecional Clotilda ainda mais raro.

Os arqueólogos marinhos recuperaram pregos, espigões e parafusos usados na proteção de vigas e tábuas do navio. Feitos de ferro forjado à mão, estes elementos eram comuns nas escunas construídas em Mobile em meados do século XIX.

Fotografia por Mark Thiessen, National Geographic

Os investigadores têm estudado o naufrágio do Clotilda e a história que o rodeia desde que este foi identificado. Estes esforços resultaram na inclusão do navio no Registo Nacional de Locais Históricos dos EUA. E também revelaram que sobreviveu muito mais do navio do que se pensava inicialmente, tornando o Clotilda não só o último navio negreiro americano, mas também o melhor preservado.

“Este é o navio negreiro mais intacto que existe no registo arqueológico em qualquer lugar”, diz Jim Delgado, arqueólogo marítimo que lidera as investigações sobre o Clotilda para a SEARCH Inc. Jim Delgado estima que sobreviveram até dois terços da estrutura de madeira do navio, incluindo anteparas e outras modificações que transformaram esta escuna comercial em navio negreiro.

O navio está em águas turvas com pouca visibilidade, pelo que os arqueólogos dependem de leituras feitas com sonar para revelar a sua condição e dimensões.

Fotografia por Search Inc.

“Há evidências físicas diretas não apenas do navio e da forma como foi usado, mas também das alterações feitas por William Foster e pela sua tripulação para o converter em navio negreiro”, diz Jim Delgado. “Conseguimos determinar qual é o tamanho da área onde as pessoas estavam aprisionadas, e esse foi um momento muito profundo e emocionalmente poderoso para a equipa.”

Conseguir obter uma visão clara do naufrágio num rio tão lamacento é praticamente impossível, pelo que os investigadores dependem das leituras feitas com sonar para analisar a embarcação através da lama.

“Estamos a falar de um naufrágio num rio, onde a visibilidade de um mergulhador alcança uns meros centímetros”, diz Jim Delgado. “O sonar revela-nos tudo isso.”

Os investigadores também obtiveram dados sobre o movimento do lodo que cobre partes do naufrágio.

Um pequeno pedaço de carvalho afixado a um ferrolho de ferro, recuperado nos destroços, mostra as evidências do incêndio que destruiu parte do navio. Os arqueólogos dizem que os destroços podem ser demasiado frágeis para serem içados, portanto, um memorial semelhante ao túmulo do couraçado U.S.S. Arizona em Pearl Harbor pode ser uma opção a considerar.

Fotografia por Mark Thiessen, National Geographic

“Agora, sabemos que há movimento da lama no local. Por vezes desce, por vezes sobe”, diz Jim Delgado, comparando o movimento ao de uma maré a subir e a descer. “Às vezes, há coisas que ficam expostas e que ainda não tínhamos visto anteriormente, e depois ficam novamente cobertas.”

Uma escavação “limitada e direcionada” dos destroços está planeada para março. Os mantimentos que provavelmente estavam armazenados no navio – incluindo barris de água, carne de porco e de vaca, arroz, rum, melaço, farinha e pão – podem ainda estar enterrados no porão do navio. Também existe a possibilidade de recuperação de ADN humano a partir de vestígios de fluidos corporais ou excrementos entre as tábuas da embarcação.

“Estes tipos de coisas podem muito bem estar lá”, diz Jim Delgado, acrescentando que o potencial para futuras descobertas ajuda a justificar a inclusão do navio no Registo Nacional de Locais Históricos dos EUA.

A próxima escavação vai incluir a recolha de amostras de madeira, análises às espécies aquáticas que colonizam os destroços e determinar o que se pode fazer para mitigar a deterioração do local. Estas informações serão usadas para determinar o futuro do Clotilda, incluindo se os seus destroços podem ser içados.

Stacye Hathorn, arqueóloga da Comissão Histórica do Alabama, tem dúvidas.

“Um dos problemas reside no facto de, quando escavamos algo, destruímos o contexto, e o contexto conta a história”, diz Stacye Hathorn. “É preciso sermos muito cuidadosos enquanto reunimos o máximo de informações possível, porque só temos uma oportunidade. Não é a destruir que se preserva as coisas.”

A melhor opção talvez seja a preservação do naufrágio no local e a construção de um memorial nas proximidades, semelhante ao que foi feito com o couraçado U.S.S. Arizona em Pearl Harbor. Em qualquer caso, tanto arqueólogos como funcionários estaduais vão trabalhar em estreita colaboração com a comunidade de descendentes do Clotilda para determinar o melhor rumo a seguir. Um novo museu, o Africatown’s Heritage House, está agendado para ser inaugurado no verão de 2022.

Para Joycelyn Davis, qualquer detalhe descoberto pelos investigadores parece um pequeno milagre, uma oportunidade para que a história da sua comunidade seja contada no cenário internacional.

“É fantástico”, diz Joycelyn Davis. “Há uns 10 ou 15 anos atrás, ninguém diria que isto ia acontecer, porque era um mito – mas está tudo documentado.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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