Abel Botelho, considerado pioneiro da literatura gay em Portugal

Abel Botelho é autor de várias obras literárias que foram um sucesso no final do século XIX. Graças ao livro “O Barão de Lavos” foi considerado pioneiro da literatura gay em Portugal.

Por Catarina Fernandes
Publicado 13/01/2022, 15:51
Abel Botelho

Abel Acácio de Almeida Botelho era natural de Tabuaço, distrito de Viseu.

Fotografia por D.P.

Abel Botelho é autor de grandes sucessos da literatura portuguesa. Entre um dicionário de abreviaturas, uma comédia mordaz, satírica e crítica em relação à sociedade do tempo, comédias que visavam personalidades conhecidas da cena política e romances e outras obras que se tornaram um sucesso.

Filho de Luís Carlos de Almeida Botelho, major de infantaria e professor do liceu de Vila Real, e de Maria Preciosa de Azevedo Leitão, apesar de ter iniciado um curso universitário, o falecimento prematuro do seu pai, quando tinha apenas 12 anos, mudou o seu rumo para o Real Colégio Militar, enquanto pensionista do Estado.

Depois de frequentar o colégio entre 1867 e 1872, ingressou na Escola Politécnica de Lisboa, onde permaneceu até 1876. Nos dois anos que se seguiram frequentou o curso de Estado Maior, na Escola do Exército. A partir desta altura, o seu talento jornalístico, crítico de arte, dramaturgo e escrito revelou-se, tendo sido incentivado pelo professor de Literatura e Filosofia, Luciano Cordeiro.

Romances causam pruridos na sociedade

Abel Botelho iniciou-se na poesia, com o nome Abel Acácio, com a coletânea Lira Insubmissa (1885), à qual se seguiram peças de teatro, representadas nos teatros de Lisboa. Chegou a Coronel em 1906, após seguir a carreira das armas e, nesse ano, foi nomeado Chefe do Estado Maior da 1ª Divisão Militar e, em 1911, passa a desempenhar funções diplomáticas no Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde permaneceu até à sua morte, na Argentina, em 1917.

Por influência de Abel Botelho, a Argentina tornou-se o primeiro país a reconhecer o regime republicano em Portugal. A par da política, Abel colaborou em várias publicações literárias, destacando-se “O Século”, “O Dia”, “O Ocidente”, “A Ilustração”, a “Revista Literária” e “O Repórter”, jornal que chegou a dirigir até à sua extinção.

"A Jucunda", uma comédia e sátira à sociedade atual, foi apresentada pela primeira vez no Teatro Ginásio, seguindo-se a peça “Vencidos da Vida” (1892), uma comédia que teve um enorme êxito e ruído da crítica lisboeta. Entretanto, tornou-se proibida por ser considerada inconveniente, uma vez que visava personalidades conhecidas da política, tal como um ministro em particular, sendo então considerada uma ofensa à moral pública.

As peças “Claudina” (1890) e “Imaculável” (1897), representadas em 1897 no Teatro D. Maria, também alcançaram um enorme sucesso e, da mesma forma, provocaram escândalo junto dos meios conservadores da capital, inclusive, a “Imaculável” foi motivo de tumultos dentro do teatro.

No que respeita ao seu primeiro livro impresso, Lira Insubmissa, publicado em 1885, este teve uma repercussão maior quando apresentado como um romance, escrito por vários volumes do ciclo “Patologia Social”. Assim assistimos a obras como “O Barão de Lavos” (1891), “O Livro de Alda” (1898), “Amanhã” (1901), “Fatal Dilema” (1907) e “Próspero-Fortuna” (1910).

"O Barão de Lavos": masculinidades fin de siècle

O “Barão de Lavos” acabou por tornar-se um best-seller, esgotando em apenas quinze dias. Este era um romance que abordava a homossexualidade, algo inédito na época. Há, inclusive, quem considere esta obra como a primeira a abordar o tema na literatura portuguesa. Em qualquer dos casos, a homossexualidade está presente em “O Barão de Lavos”, numa época em que esta era associada à pederastia e à pedofilia, uma das razões que a levou a ser fortemente criticada e perseguida.

Esta obra é uma crítica à homossexualidade, retratada como uma doença patológica e uma degeneração do indivíduo que só pode ter como fim a sua própria destruição. Como seria de esperar, a obra de Abel Botelho causou um grande escândalo na sociedade da altura, profundamente conservadora, monárquica e dominada pelo clericalismo. Dada a crueza das suas descrições e a admiração dos críticos literários, a obra foi sancionada pela Igreja.

“O Barão de Lavos” referia-se à homossexualidade como uma aberração pecaminosa que tinha como causas a origem ilegítima do barão, fruto de uma traição conjugal, e a degradação moral da sociedade lisboeta da época. Hoje, a obra é encarada como um produto do seu tempo, equiparando-se, em termos de conteúdo literário, a obras como “Lolita”, de Vladimir Nabokov ou “Morte em Veneza”, de Thomas Mann.

(Leia também: De LGBT a LGBTQIA+: o evoluir de um reconhecimento de identidade)

Abel Botelho, professado seguidor do neorrealismo

Na série de romances a “Patologia Social”, Abel Botelho explora, expõe e coloca em claro alguns fenómenos sociais do final do século XIX, até então ignorados ou romantizados. “O Barão de Lavos”, que ganha vida no personagem Sebastião de Castro e Noronha, retrata a sua vida e queda, que um dia leva à sua paixão por um jovem vendedor de rua.

Em 1990, Abel Botelho publicou a novela “Sem Remédio” e, em 1904, o romance “Os Lázaros”, que anteriormente já tinha tido publicações em “O Dia” e já tinha causado desconforto na sociedade aristocrática.

Alguns romances de Abel Botelho, que oscilam entre épocas literárias, recebendo influências idealistas, mas fixando-se sobretudo num Naturalismo com traços de morte ou total degradação física e moral, foram editados e traduzidos para italiano, francês e castelhano. O autor foi classificado como iniciador do naturalismo de Emílio Zola, aplicado à ficção portuguesa. Quando partiu, deixou uma carreira literária invejável, tendo ficado na história da literatura como um dos seus grandes expoentes do último século.

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