O Relógio do Juízo Final celebra 75 anos – e as ameaças à civilização persistem

Este relógio, um ícone da Guerra Fria, transmite a visão que os cientistas atómicos tinham sobre o risco de a humanidade se autodestruir. A sua configuração atual diz que faltam apenas 100 segundos para a meia-noite.

Publicado 24/01/2022, 16:03
Relógio do Juízo Final

O Relógio do Juízo Final, que é reiniciado todos os anos em janeiro, permanece nos 100 segundos para a meia-noite pelo terceiro ano consecutivo. “O mundo continua preso num momento extremamente perigoso”, dizem os cientistas que acertam a hora do relógio.

Fotografia por Bulletin of the Atomic Scientists

Independentemente do que os nossos relógios nos dizem, faltam 100 segundos para a meia-noite. Este é o intervalo simbólico no Relógio do Juízo Final entre o momento presente e a “catástrofe planetária”. A banda de rock alternativo R.E.M. colocou esta questão de outra forma: “It's the End of the World as We Know It.

Em 1947, um grupo de cientistas que trabalhou nas primeiras armas nucleares imaginou o Relógio do Juízo Final como uma metáfora de alerta para o quão perto a humanidade estava da autodestruição. Desde então, este relógio icónico tem sido o símbolo do Bulletin of the Atomic Scientists e, no seu 75º aniversário, os especialistas deste grupo dizem que estamos mais perto do que nunca desse terrível alerta.

O relógio é reiniciado todos os anos em janeiro, porém, nem no auge da Guerra Fria, quando os americanos construíam abrigos radioativos e as crianças eram instruídas para se “baixarem e esconderem” em caso de ataque atómico, os ponteiros do relógio estiveram tão avançados na contagem decrescente.

É uma maneira bastante sombria de celebrar o seu 75º aniversário, contudo, de acordo com John Mecklin, editor do Bulletin of the Atomic Scientists, os ingredientes para um possível cenário apocalíptico são cada vez mais numerosos. Quando o relógio foi mostrado pela primeira vez neste boletim em 1947 – onde assinalava sete minutos para a meia-noite – os editores estavam apenas preocupados com a possibilidade de bombas atómicas poderem cair sobre as capitais mundiais. Agora, o Conselho de Ciência e Segurança da publicação já leva em consideração mais fatores, para além da ameaça nuclear, quando decide onde deve colocar os ponteiros do relógio todos os anos.

Em 2002, os cientistas acertaram o Relógio do Juízo Final e passaram dos nove minutos para a meia-noite para os sete minutos para a meia-noite, citando os “poucos progressos feitos no desarmamento nuclear global” e outras ameaças.

Fotografia por Scott Olson, AFP/ Getty Images

“As alterações climáticas, as ameaças biológicas, o advento da inteligência artificial – há muitas questões emergentes que podem ameaçar o planeta”, diz John Mecklin. Nos últimos anos, este comité chegou a adicionar a rápida disseminação de notícias falsas à sua crescente lista de ameaças existenciais para a humanidade.

“Os primeiros cientistas atómicos sabiam que as armas nucleares eram a primeira criação humana que poderia literalmente acabar com a civilização”, diz John Mecklin. “Mas também perceberam que surgiriam outros perigos.”

Alerta poderoso

No seu novo livro, The Doomsday Clock at 75, Robert K. Elder e J.C. Gabel contam a história do relógio, que argumentam ser “a peça mais poderosa de design informacional do século XX”.

A ideia do relógio surgiu porque os editores da associação de cientistas atómicos – a maioria dos quais eram cientistas que estavam a trabalhar no programa nuclear do Projeto Manhattan durante a Segunda Guerra Mundial – queriam uma capa marcante para a primeira edição da nova revista que iam lançar.

“Os editores receavam que as armas nucleares que tinham ajudado a criar não fossem completamente compreendidas pelos políticos ou pelo público”, diz John Mecklin. “Eles queriam que as pessoas percebessem que estas armas podiam literalmente acabar com a civilização – e até, talvez, com a espécie humana.”

Por sorte, os cientistas responsáveis pela publicação, sediados em Chicago, não precisaram de procurar muito para encontrar um designer gráfico. Martyl Langsdorf, uma célebre ilustradora, era casada com o físico Alexander Langsdorf, que tinha trabalhado no Projeto Manhattan.

Com um esboço feito na contracapa de uma cópia encadernada das sonatas de Beethoven, Martyl Langsdorf apresentou o conceito de um relógio com o ponteiro dos minutos a apontar para a meia-noite – simbolizando, segundo as suas palavras, “a essência e urgência do tempo”.

O Relógio do Juízo Final fez a sua estreia em 1947 na primeira edição encadernada do Bulletin of the Atomic Scientists. O relógio foi depois ajustado para os sete minutos para a meia-noite.

Fotografia por Bulletin of the Atomic Scientists

O design de Martyl Langsdorf começou inicialmente por ser um relógio inteiro, mas a artista rapidamente o reduziu para os últimos 15 minutos. Aparentemente, nunca lhe ocorreu que os editores pudessem um dia querer colocar o ponteiro muito abaixo da marca dos 15 minutos para a meia-noite. De qualquer forma, os eventos mundiais só levantaram esse feliz dilema uma vez. Em 1991, quando os EUA e a União Soviética assinaram o primeiro Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START 1) e a União Soviética foi dissolvida, o relógio ficou brevemente a assinalar 17 minutos para a meia-noite.

Por mais sonante que o seu nome seja, o relógio só recebeu o apelido de “Juízo Final” há relativamente pouco tempo. Durante décadas foi conhecido simplesmente por Relógio Atómico. As primeiras referências de que há conhecimento ao Relógio do Juízo Final só aparecem nos jornais em 1968, e o Bulletin of the Atomic Scientists só adotou formalmente o nome em 1972.

Os críticos da publicação e do seu relógio assustador descartaram a ideia como sendo um golpe político, ou até mesmo uma mensagem contraproducente que era inútil para o público e para os legisladores. Se tudo era uma crise, então nada era uma crise.

Algumas pessoas, como o escritor científico Charles Mann, não são fãs de cenários apocalípticos. “Na história da espécie humana, alguma vez um coração humano ficou profundamente tocado por uma representação gráfica?” perguntava Charles Mann num artigo de 2014 sobre os chamados pessimistas ambientais.

John Mecklin diz que o Relógio do Juízo Final foi concebido para servir de alarme – e foi feito por um grupo de cientistas que eram obviamente contra as armas nucleares. O cofundador da organização, Daniel Goldsmith, foi um dos 70 cientistas que escreveram uma carta conjunta ao presidente Harry S. Truman a pedir para não usar a bomba atómica contra o Japão. (Mas era demasiado tarde, a carta só chegou a Harry Truman depois do ataque a Hiroshima.)

O Bulletin of the Atomic Scientists foi uma das primeiras publicações norte-americanas a passar completamente para o formato digital, e deixou de imprimir exemplares da revista em 2008. Ainda assim, o icónico relógio aparece em todas as edições digitais e no topo do site dos cientistas atómicos.

Uma série de crises

Enquanto examino as edições antigas desta publicação, as capas fazem lembrar a minha infância na década de 1960, uma infância passada com a ameaça de uma nuvem de cogumelo: Efeitos das Explosões Nucleares (1961). A Bomba na China (1964). A Política do Caos (1963). Lembro-me bem de examinar um mapa impresso na primeira página do nosso jornal suburbano em Nova Jersey, mostrava círculos concêntricos criados pela destruição de uma bomba atómica teórica lançada sobre o Empire State Building (e de suspirar de alívio quando percebi que o círculo exterior não passava pela minha cidade, mas sim pela cidade vizinha).

Para muitos de nós, o medo que tínhamos na década de 1960 de que podiam cair bombas nucleares já se diluiu há muito tempo devido a uma série de crises subsequentes. É quase como se estivéssemos a ficar confortáveis nos limites do apocalipse.

John Mecklin compreende este sentimento.

“Ninguém quer carregar todos os dias o peso e a ideia de uma ameaça nuclear. Quando paramos para pensar em todos os alertas falsos que quase resultaram numa guerra nuclear, quando pensamos nas inúmeras vezes em que a humanidade foi salva por um acaso, isso é muito assustador”, diz John Mecklin

“Reiniciar o Relógio do Juízo Final todos os anos em janeiro dá ao mundo em geral a oportunidade para contemplar a ameaça nuclear e o seu zumbido, como se fosse um transformador de eletricidade a alimentar uma cadeira elétrica, com uma presença sinistra permanente. Se houver uma guerra nuclear, quaisquer outros problemas que possamos ter, tudo isso será irrelevante.”

É por esta razão que John Mecklin e os seus colegas continuam teimosamente a desempenhar o papel do profeta bíblico das más notícias, Oseias, alertando para o perigo de destruição a um povo distraído, se não desinteressado.

Resta cantar em uníssono: “Parabéns a você…” E torcer para que as velas sejam a única coisa que vamos apagar.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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