Terá uma bebida alucinogénica afetado a política no antigo Peru?

Uma descoberta feita num posto avançado do povo Wari com 1.100 anos sugere que fortes intoxicantes comunitários podem ter ajudado a fomentar alianças políticas.

Por Tom Metcalfe
Publicado 13/01/2022, 12:40
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O povo Wari, que governou grande parte da costa peruana entre 600 e 1000 d.C., usava estes jarros para ingerir uma bebida conhecida por chicha, que era parecida com cerveja.

Fotografia por Kenneth Garrett, Museo Nacional De Arquelogia Antropologia e Historia Peru

A sensação de paz e tranquilidade derivada da mistura de drogas alucinogénicas e uma bebida alcoólica pode ter sido vital para o poder político na costa peruana há cerca de um milénio, de acordo com um estudo publicado na revista Antiquity.

Os arqueólogos já reconhecem há muito o papel que a chicha, uma bebida parecida com cerveja que ainda é consumida atualmente, desempenhou na cultura dos Wari que governaram grande parte da costa peruana e do sul dos Andes entre 600 e 1000 d.C. As elites Wari organizavam festas elaboradas para os seus vizinhos, e enormes quantidades de chicha iriam ajudar a fomentar laços políticos e económicos.

Em Quilcapampa, os arqueólogos encontraram milhares de frutas semelhantes a bagas da árvore pimenteira-bastarda, que foram processadas para fazer chicha, uma bebida alcoólica fermentada.

Fotografia por Lisa Milosavljevic, Royal Ontario Museum

Agora, a descoberta de restos de plantas psicotrópicas numa “cervejaria” Wari levou os investigadores a sugerir que este povo também pode ter combinado os dois intoxicantes para criar uma bebida com um impacto político ainda maior.

Esta descoberta foi feita em Quilcapampa, uma aldeia Wari no sul do Peru, onde o ambiente extremamente árido preservou os restos daquilo que os Wari comiam e bebiam pouco antes de abandonarem o local no final do século IX. Nesta região, os arqueólogos encontraram vestígios com 1.100 anos de batatas, quinoa e amendoim, bem como um número impressionante de frutas semelhantes a bagas da árvore pimenteira-bastarda (Schinus mole), que os Wari usavam para fazer chicha com um teor alcoólico de cerca de 5%.

Entre as frutas embebidas ou cozidas que sobraram da chicha estavam as sementes psicotrópicas vilca da árvore Anadenanthera colubrina. As evidências arqueológicas mostram que a vilca era usada como um alucinogénico na América do Sul, mas geralmente só as elites políticas e religiosas é que a consumiam, diz Justin Jennings, Explorador da National Geographic e arqueólogo do Museu Real de Ontário, em Toronto. Justin Jennings é o autor principal do novo estudo, que foi financiado em parte pela National Geographic.

Esquerda: Superior:

Entre 2013 e 2017, uma equipa internacional de arqueólogos vindos do Peru, Canadá e EUA escavou o sítio arqueológico de Quilcapampa.

Direita: Fundo:

Quilcapampa era um remoto posto avançado dos Wari no sul do Peru que foi abandonado no final do século IX.

fotografias de Lisa Milosavljevic, Royal Ontario Museum

Quilcapampa foi colonizada na segunda metade do século IX por algumas famílias que migraram das terras Wari mais a norte, e estas pessoas podem ter introduzido a prática de misturar vilca e chicha para fortalecer as suas novas alianças com os grupos não Wari da região. A mistura de vilca e chicha pode ter ajudado os aldeões de Quilcapampa a formar amizades numa terra estranha, mas também pode ter sido o segredo para a ascensão política dos Wari.

(Veja a reconstrução em 3D da face de uma antiga rainha Wari.)

“Os Wari pensaram que, se juntassem estes elementos, teriam uma experiência partilhada”, acrescenta Justin Jennings.

‘Sensação de viajar’

Os recipientes cerimoniais Wari incluíam geralmente animais regionais, como é o caso deste jaguar.

Fotografia por Kenneth Garrett, Museo Nacional De Arquelogia Antropologia e Historia Peru

Tal como o alucinogénico ayahuasca amazónico, a vilca resulta numa intensa experiência extracorporal. Os efeitos psicoativos são bastante mais fracos quando a vilca é ingerida, ou seja, as suas sementes eram geralmente defumadas ou moídas. Mas há uma razão química para acreditar que a adição de sementes moídas de vilca à chicha retinha mais o seu efeito alucinogénico, explica Justin Jennings.

“As pessoas podiam ficar alteradas e sentir até certo ponto uma experiência extracorporal, mas era uma experiência mais prolongada, mais suave e menos violenta. E podiam até ficar com a sensação de estar a viajar com amigos.”

A pimenteira-bastarda usada para fazer chicha crescia nas proximidades de Quilcapampa, mas as sementes de vilca eram importadas dos flancos orientais dos Andes e transportadas pelas montanhas através de caravanas de lhamas controladas pelos Wari. Isto significa que a aldeia Wari em Quilcapampa pode ter sido um ponto de encontro muito popular na região, ostentando uma chicha com efeitos inigualáveis.

Os recipientes de bebidas Wari, como este escavado em Quilcapampa, podem ser encontrados em grande parte do Peru.

Fotografia por Lisa Milosavljevic, Royal Ontario Museum

Este conceito pode explicar um dos segredos políticos dos Wari, cujos jarros pintados retratam por vezes a árvore de vilca com as suas distintas vagens de sementes.

Véronique Bélisle, arqueóloga antropológica do Millsaps College em Jackson, no Mississippi, não participou no estudo de Quilcapampa, mas investigou a utilização de alucinogénicos no Peru da antiguidade e diz que se suspeitava há muito que os Wari consumiam vilca misturada com chicha, mas até agora faltavam as evidências arqueológicas.

“Esta investigação é uma contribuição importante para a arqueologia andina, porque mostra que os colonos Wari organizavam festas durante as quais serviam chicha misturada com vilca aos seus convidados”, diz Véronique Bélisle.

A extrema aridez de Quilcapampa preservou os restos de plantas durante mais de um milénio, oferecendo um vislumbre importante sobre a vida cultural dos Wari.

Fotografia por Lisa Milosavljevic, Royal Ontario Museum

Porém, nem todos os arqueólogos estão convencidos. Ryan Williams, curador do Museu Field em Chicago, que escavou as ruínas de um centro cerimonial Wari em Cerro Baúl, a cerca de 160 quilómetros a sudeste, acha que esta hipótese é “intrigante”, mas diz que faltam evidências do consumo de vilca e chicha juntas. Ryan Williams dá como exemplo as sementes de algodão encontradas numa antiga cervejaria de pimenteira-bastarda em Cerro Baúl. “Mas nós não afirmámos que os Wari bebiam algodão.”

Justin Jennings admite que não existem evidências diretas de que a vilca era misturada com a chicha em Quilcapampa – foram encontradas apenas nos mesmos depósitos arqueológicos. “Infelizmente, não temos provas irrefutáveis”, diz Justin Jennings. Os estudos de acompanhamento irão procurar evidências de vilca em resíduos de chicha nos recipientes Wari. “É algo que queremos muito fazer, para fortalecer o argumento de que a vilca e a chicha eram adicionadas no mesmo recipiente”, diz Justin Jennings.

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do explorador Justin Jennings.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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