Vera Leisner, a primeira arqueóloga a trabalhar em território português

Vera Leisner foi das primeiras sócias da Associação dos Arqueólogos Portugueses e a primeira arqueóloga a trabalhar em território português, cujo contributo constitui o arquivo Leisner.

Por Catarina Fernandes
Publicado 21/01/2022, 10:58
 Vera Leisner fotografada em 1969.

 Vera Leisner fotografada em 1969.

Fotografia por

Vera Leisner, de nacionalidade alemã, juntamente com Georg Leisner, são autores de referência para o estudo do Megalitismo e para a investigação da História da Arqueologia Pré-histórica à escala peninsular. As suas primeiras pesquisas remontam a 1933, mantendo-se até ao final das vidas do casal.

Vera de La Camp nasceu em Nova Iorque, a 4 de fevereiro de 1885. Aos dois anos de idade perdeu a mãe e passou a viver, durante os oito anos seguintes, com o seu irmão na casa da avó, em Hamburgo, depois em Nova Iorque e no Japão. A partir de 1898 estudou num liceu em Hamburgo e depois num internato em Eisenach.

Georg e Vera Leisner casaram a 22 de setembro de 1909 e residiram em Munique. Com o deflagrar da guerra, Georg foi destacado para a frente de combate e Vera Leisner foi trabalhar como enfermeira voluntária no Hospital Militar. Chegado o fim da guerra, o casal mudou-se para o campo, para uma quinta que compraram na Baviera, onde ficaram até 1924, quando regressaram a Munique.

As primeiras expedições e os olhos voltados para Portugal

Em 1926, Georg Leisner fez as suas primeiras expedições arqueológicas, juntamente com Leo Frobenius (1873-1938), numa missão no Egito e Sudão. Após esta campanha, Georg inscreveu-se na Universidade de Munique, onde enveredou pela área da arqueologia, debruçando os seus estudos sobre o Megalitismo galego e do norte de Portugal. Foi durante as investigações para a sua tese que o casal efetuou o seu primeiro trabalho de campo em Portugal e Espanha.

Após o doutoramento, Georg e Vera Leisner iniciaram o projeto corpus dos monumentos megalíticos peninsulares. Mais tarde, o ano de 1943 vem revelar-se uma nova fase na vida e obra do casal, com a sua primeira publicação conjunta, o primeiro volume dos Die Megalithgräber der Iberischen Halbinsel e a ida para Portugal, onde morara por 10 anos, até 1953, sem regressar à Alemanha.

No final da II Guerra Mundial, Georg e Vera Leisner foram contratados pelo Museu Nacional de Arqueologia para tarefas de desenho. À parte disso, e apesar das difíceis condições do período da guerra e pós-guerra, o casal prosseguiu a sua investigação, fazendo novas escavações por Reguengos de Monsaraz, Huelva, Anta das Cabeças, com levantamentos no Alentejo, Viseu, Minho e Trás-os-Montes.

Vera Leisner continuou a sua missão de vida 

Já em 1950, receberam a concessão da bolsa da Notgemeinschaft, o que lhes permitiu dedicarem-se em exclusivo ao projeto de estudo do Megalitismo Peninsular, quer sob a forma de elaboração de monografias temáticas, quer na edição da segunda parte dos Die Megalithgräber der Iberischen Halbinsel: Der Westen (1956).

Georg morre em Stuttgart, em 1957, e Vera Leisner, então com 72 anos, foca-se na sua missão de vida, isto é, a conclusão da obra científica do casal, mantendo-se em Portugal e tornando-se, efetivamente, a primeira mulher a exercer arqueologia em Portugal.

O volume II do corpus foi concluído em 1959, sendo que entre 1958 e 1965 também se dedicou à investigação e estudo para a publicação do tomo 3 do volume II, referente à Estremadura e ao Baixo Alentejo. Durante esse período, consolidou a sua aproximação à equipa dos Serviços Geológicos, tendo publicado várias monografias.

A fase mais intensa da investigação no Megalitismo das Beiras decorreu até ao final da vida de Vera Leisner, em 1972, sendo apenas em 1998 que Philine Kalb concretiza a edição póstuma do tomo 4 do volume dedicado ao Megalitismo das Beiras.

Vera Leisner era como que uma “delegação informal” do Instituto Arqueológico Alemão, ficando também associada às primeiras etapas de escavação no Castro do Zambujal. A arqueóloga recebeu um enorme prestígio científico, em 1960, com o Doutoramento Honoris Causa, conferido pela Universidade de Friburgo, pelos seus 75 anos. Vera Leisner viria a falecer em maio de 1972, em Hamburgo, mas a obra do casal permanece viva e é uma referência para o estudo do Megalitismo.

O Arquivo Leisner é uma importante referência para a Arqueologia

Um importante espólio documental, bem como a grande maioria das suas obras, pode ser consultado no “Arquivo Leisner” da Biblioteca de Arqueologia. Este acervo compreende cerca de 49.500 documentos, entre os quais 19.000 escritos e 30.5000 gráficos e fotográficos, reunidos por George e Vera Leisner, durante as suas investigações na Península Ibérica.

Vera Leisner doou a documentação mencionada ao Instituto Arqueológico Alemão de Madrid, com a menção explícita da sua manutenção em território português, juntamente com um agradecimento pelo apoio recebido desde a chegada do casal a Portugal, durante a II Guerra Mundial, até 1972.

Até 1999, o respetivo acervo foi mantido na subdelegação do Instituto Arqueológico Alemão em Lisboa até ao encerramento deste, tendo sido posteriormente cedido ao Estado Português, em regime de comodato, onde integra agora a atual Biblioteca de Arqueologia, no Palácio da Ajuda.

No ano de 2012, foi submetida uma candidatura no âmbito do programa Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais da Fundação Calouste Gulbenkian, para tratamento do arquivo Leisner, sendo o financiamento do mesmo aprovado, dado o interesse científico e arquivístico do acervo.

O programa teve como principal objetivo o tratamento e digitalização do acervo epistolar do arquivo de Georg e Vera Leisner, de forma a possibilitar o acesso público através das páginas eletrónicas das instituições com ele relacionadas. Também foi previsto o arrolamento integral do fundo documental, a sua higienização, pequenas intervenções de restauro e o adequado acondicionamento.

Projeto abrange o acervo epistolar

Perante o grande volume documental do arquivo Leisner, o projeto dividiu-se em duas escalas, compreendendo uma intervenção global sobre o arquivo e a realização de um programa específico para o acervo epistolar.

Este acervo epistolar integra um conjunto de cerca de 4000 documentos, organizados em software Bibliobase. De forma genérica, agora o espólio assume-se por idiomas, países emissores e recetores, instituições emissoras e recetoras, personalidades e sítios arqueológicos.

Os sítios arqueológicos foram inventariados no Sistema de Informação Endovélico, com monumentos megalíticos, na sua maioria, nomeadamente do Grupo Megalítico de Reguengos de Monsaraz, de Cascais e das Beiras. Além destes, existem também importantes referências a sítios do sul de Espanha, como Los Millares, e os monumentos megalíticos de Huelva.

A primeira fase do projeto que aborda a catalogação do arquivo de George e Vera Leisner é agora disponibilizada para consulta online, disponibilizando-se as digitalizações do seu acervo epistolar. Para compreender melhor a organização da base de dados e orientar as pesquisas, é possível consultar o normativo elaborado para o efeito e, para conhecer o projeto de forma integral, está disponível o relatório final.

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

História
João Zilhão: “Aquilo que nós vemos do passado é uma ínfima parte do que existiu”
História
Sepulturas milenares descobertas em Ponte de Lima
História
Arqueólogos Provam que Ocupação Humana em Portugal foi Antes do que se Pensava
História
Acampamento romano em Melgaço classificado como um dos maiores e mais antigos do país
História
As mais recentes descobertas de Pompeia

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados