Arqueólogos tentam desvendar o mistério com 500 anos responsável pelas ‘vértebras em estacas’

Um novo estudo sobre as vértebras encontradas em estacas no Peru revela que estas serviam de memoriais para os horrores da colonização europeia testemunhados pelas comunidades indígenas.

Por Tom Metcalfe
Publicado 3/02/2022, 10:46 , Atualizado 3/02/2022, 13:19
vertebras

Quase 200 objetos, formados a partir de vértebras humanas entrelaçadas,  encontrados no vale de Chincha, no Peru, foram estudados sistematicamente pela primeira vez para se compreender o seu propósito.

Fotografia por C. O'Shea

A primeira análise aprofundada a quase 200 artefactos enigmáticos, encontrados num vale peruano, revela que estes provavelmente foram criados como uma forma de reconstruir os túmulos comunitários que foram saqueados durante o domínio espanhol há cerca de 500 anos.

A investigação, publicada na revista Antiquity, concentra-se em vértebras humanas colocadas em estacas, centenas das quais foram encontradas perto e no interior de túmulos elaborados conhecidos por chullpas no vale de Chincha, no Peru, a cerca de 190 km a sul de Lima. Esta região costeira foi outrora o coração do Reino de Chincha, que governou desde cerca de 900 d.C. até se tornar parte do Império Inca, por volta de 1480.

Os agricultores locais já sabiam há muito tempo das vértebras e reconhecem-nas como objetos antigos, diz o arqueólogo Jacob Bongers, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, que é o autor principal do novo estudo. Mas estes artefactos só despertaram a atenção científica há cerca de uma década, quando Jacob Bongers estava a trabalhar na região enquanto estudante de doutoramento na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Durante a ocupação espanhola, vários túmulos indígenas foram saqueados por todo o Peru, com os ossos “inúteis” a ficarem muitas vezes espalhados no rescaldo da pilhagem. Os investigadores acreditam que, ao “reconstruir” os restos mortais de um antepassado, as comunidades estavam a manter a integridade corporal dos mortos.

Fotografia por J.L. Bongers

Jacob Bongers, em cooperação com colegas dos Estados Unidos e da Colômbia, analisou 192 conjuntos de vértebras, cada um composto tipicamente por quatro a dez ossos colocados numa estaca reta. (Uma das estacas tinha 16 vértebras; e havia outro conjunto excecional de vértebras coberto por um crânio.)

A análise visual minuciosa dos objetos revelou que num dos casos as vértebras de duas pessoas – um adulto e um jovem – estavam na mesma estaca, possivelmente por acidente. Mas Jacob acredita que muitas delas são tentativas de restaurar a coluna de um indivíduo distinto.

Nos casos mais preservados, os investigadores conseguiram estimar a idade de cada individuo examinando o crescimento dos ossos e se as vértebras inferiores estavam fundidas. E descobriram que a maioria eram adultos, mas cerca de um sexto eram jovens, definidos como pessoas menores de 20 anos.

A datação por radiocarbono mostra que as vértebras pertencem a pessoas sepultadas no início do século XVI – no momento da chegada dos espanhóis à região em meados da década de 1530 – mas que só foram colocadas nas estacas cerca de 40 anos depois. Isto indica que esta prática foi realizada muito depois de os indivíduos terem sido sepultados, provavelmente depois de os seus restos mortais terem ficado reduzidos a esqueleto.

“Isto revela um compromisso a longo prazo com os mortos”, diz Jacob Bongers. “Eles estavam a tentar reconstruir os seus falecidos; estavam a apanhar os pedaços e a tentar juntá-los novamente.”

Alguns dos objetos foram encontrados à superfície ou perto da mesma, provavelmente onde foram colocados como lápides. Mas muitos foram enterrados no interior de chullpas e alguns embrulhados em tecidos, uma prática comum de sepultamento andino.

Jacob diz que as vértebras em estacas – às quais chama “postes” porque podem ter sido originalmente colocadas na vertical – só foram encontradas no vale de Chincha, mas em locais que ficam a quilómetros de distância uns dos outros, pelo que deve ter sido uma prática usada por comunidades diferentes.

“Estes objetos são encontrados em vários locais mortuários, portanto, presumivelmente, havia interação entre vários grupos”, acrescenta Jacob. “E estes grupos consideravam que esta era uma resposta adequada para o que achamos que tenha sido uma pilhagem.”

“A integridade corporal dos mortos era importante no culto ancestral praticado por muitos andinos, incluindo pelos vizinhos em Chinchorro, que desenvolveram métodos de mumificação.”

“Mas essa integridade foi muitas vezes profanada pelos saqueadores que espalhavam os ossos pelos túmulos, exigindo assim uma ‘reparação’ dos esqueletos dos antepassados, e eles recolhiam as suas vértebras e restauravam as colunas”, teoriza Jacob.

Substituir crenças

Os registos espanhóis referem que, assim que os conquistadores chegaram às antigas terras incas, a pilhagem e destruição dos cemitérios indígenas foram atos generalizados. Durante a era colonial, milhares de túmulos foram saqueados para procurar artefactos de prata e ouro, e esta destruição andava de mãos dadas com os esforços coloniais para substituir as crenças indígenas pelo catolicismo romano, diz Gabriel Prieto, Explorador da National Geographic e arqueólogo da Universidade da Flórida.

Gabriel acrescenta que esta foi uma época tão conturbada a tantos níveis – económico, cultural e espiritual – que todos os grupos nativos da região se tornaram muito criativos na tentativa de manter as suas tradições, sobretudo na adoração dos seus antepassados.

Gabriel Prieto não participou no novo estudo, mas concorda com a maioria das suas interpretações. Porém, discorda que as vértebras tenham sido colocadas em juncos do género Phragmites. Gabriel – que cresceu no Peru – acredita que as fotografias do estudo mostram que as estacas eram da espécie Gynerium sagitatum, que era amplamente utilizada por toda a região.

“Creio que essas foram as primeiras plantas usadas nas Américas para construir telhados, paredes, barcos, para pescar e até para vestuário. Por isso, é bom conhecer evidências de uma utilização diferente para essas canas numa época em que os andinos estavam sob uma enorme pressão política”, diz Gabriel Prieto

Nené Lozada, bioarqueóloga da Universidade de Chicago, que não participou no estudo, diz que isto abre novas perspetivas sobre as crenças andinas em relação à integridade corporal. “A reconstrução intencional da coluna vertebral... representa mais uma forma pela qual o corpo pré-colonial incorporava conceitos de personalidade, identidade e resistência.”

Tiffiny Tung, bioarqueóloga da Universidade Vanderbilt, que também não esteve envolvida na investigação, diz que os artefactos indicam a magnitude com que a conquista espanhola interrompeu a vida das pessoas na região.

“Este trabalho serve para nos lembrar dos horrores que as comunidades indígenas sofreram às mãos dos colonialistas europeus”, diz Tiffiny. “Isto reflete as tentativas do povo nativo em tentar lidar e resistir às transformações traumatizantes no seu modo de vida.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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