Como podem os refugiados contar as suas histórias ao mundo? Com uma câmara.

Migrantes na Grécia partilham as suas experiências angustiantes através de fotografias e filmes.

Por Lawrence Andrea, ZAHRA MOJAHED
Publicado 4/02/2022, 11:23 , Atualizado 4/02/2022, 12:24
Masomeh Hussaini

“Eu tive sempre um sonho na vida – ser uma rapariga que usa hijabe e joga futebol”, diz Massomeh Hussaini, uma afegã de 15 anos. Mas no Irão, onde passou a maior parte da sua infância, Massomeh não tinha autorização para jogar futebol. “O meu outro sonho era ser neurocirurgiã para tratar da minha irmã.” Há dois anos, Massomeh e a sua família vieram para a Europa à procura de ajuda médica para a sua irmã mais nova. O pai teve de carregar a filha doente durante toda a viagem, enquanto a mãe, grávida de gémeos, sofreu um aborto espontâneo de um dos bebés quando a embarcação virou. Agora na Grécia, Massomeh joga futebol todos os dias mas diz que, quando está feliz, regressa de repente a essas memórias e que nunca as irá esquecer. Esta fotografia, juntamente com outras neste artigo, foi captada pela refugiada Zahra Mojahed como parte do projeto 1000 Dreams da organização sem fins lucrativos Witness Change.

Fotografia por Zahra Mojahed, Witness Change

ATENAS – Maliheh e Nahid Rezaei chegaram de barco insuflável à ilha grega de Lesbos em 2018 só com uma mochila, dois pequenos cobertores de viagem, dois conjuntos de roupa e os sonhos de se tornarem atrizes.

Estas gémeas afegãs de 24 anos acabaram no campo de refugiados sobrelotado de Moria, um lugar que alguns trabalhadores humanitários comparavam a uma prisão antes de este ter sido incendiado em 2020. Ainda assim, um ano depois de terem recebido asilo na Grécia, as duas irmãs já ajudaram a produzir um documentário, realizaram a sua própria curta-metragem e participaram num filme baseado em parte na sua viagem até à Grécia.

As irmãs Rezaei estão entre dezenas de refugiados vindos do Sul Asiático, Médio Oriente e África que aprenderam fotografia e cinema através do programa ReFOCUS Media Labs – enquanto aguardavam asilo na Grécia. Muitos destes estudantes usam agora câmaras para falar sobre os problemas nos seus países de origem, para contar histórias de outros refugiados e capacitar as mulheres que conseguiram escapar à opressão.

Esquerda: Superior:

Mohamad Bagher, de 44 anos, deixou o Irão com a família depois de ter perdido o emprego em tecnologias de informação por ser afegão. A sua família ultrapassou inúmeros obstáculos para chegar à Europa – escalaram montanhas, perderam as poupanças para um contrabandista e quase morreram afogados. “A minha filha dizia que já chegava e para regressarmos para casa”, diz Mohamad. “Infelizmente não tínhamos outra escolha.”

Direita: Fundo:

Ali Ataei, de 22 anos, não quer identificar o país de onde fugiu com o irmão. “Eu estava preocupado”, explica Ali. “As circunstâncias eram extremamente difíceis.” O suposto guia abandonou os irmãos e o seu barco quase afundou. Mas Ali não se lembra de muitos dos detalhes: “Acho que de alguma forma perdi a memória daqueles dias.”

fotografias de Zahra Mojahed, Witness Change

De todos os serviços que encontraram na ilha de Lesbos, o ReFOCUS “foi o que teve maior impacto… nas nossas vidas”, diz Nahid Rezaei.

Gerido por fotógrafos e cineastas profissionais de todo o mundo, os cursos do programa ReFOCUS deram aos alunos a capacidade de se expressar e partilhar histórias sobre as suas lutas e resiliência.

Muitos estudantes fazem agora os seus próprios filmes, e alguns trabalham como jornalistas freelance, narrando a experiência dos migrantes. Outros ficam no programa ReFOCUS para ensinar as novas vagas de pessoas que procuram asilo, e que muitas vezes têm dificuldades em encontrar trabalho num país estrangeiro onde não falam o idioma.

“Quando eu era criança, o meu sonho era fazer filmes”, diz Maliheh Rezaei. “Agora posso fazê-lo.”

Esta mulher de 45 anos deixou o Afeganistão para fugir da guerra. “O meu marido foi martirizado, o meu irmão foi martirizado e eu estava com muito medo de que os meus filhos pudessem morrer a qualquer momento.” Agora os seus filhos estão na Suécia e ela vive numa casa sobrelotada na Grécia. “Não pensei que a situação aqui fosse tão difícil, mas tenho de suportar isto pelo bem dos meus filhos.”

Fotografia por Zahra Mojahed, Witness Change

‘Queremos mostrar que as mulheres conseguem fazer tudo’

Douglas Herman era professor de cinema no ensino secundário em Filadélfia e deixou o seu emprego em 2017 para ser um dos fundadores do programa ReFOCUS, depois de perceber que havia poucas oportunidades em Lesbos para os requerentes de asilo com mais de 12 anos. O campo de Moria, outrora apelidado de “pior campo de refugiados do mundo” por um coordenador de campo da organização Médicos Sem Fronteiras, oferecia apenas aulas básicas de idiomas. (Migrantes adolescentes precisam de ir à escola, mas são mundialmente pressionados para não o fazer.)

O objetivo do programa é melhorar o futuro dos migrantes e dar-lhes uma plataforma para contar histórias, diz Douglas Herman, e os seus alunos rapidamente começaram a fazer exatamente isso. “Assim que aprenderam a usar um gravador de áudio ou uma câmara, quiseram imediatamente contar a sua própria história ou ajudar outras pessoas a fazer o mesmo.”

Esta mulher de 25 anos, nascida no Afeganistão e criada no Irão, diz que fugiu de casa depois de pedir o divórcio de um marido violento que acabou por ficar com a sua filha. Enquanto mulher solteira, a viagem para a Europa foi aterrorizante. Ela fugiu três vezes de traficantes de pessoas com receio de ser violada. Agora na Grécia, a sua maior esperança é reunir-se com a filha. “Quero trazer a minha filha para perto de mim muito em breve para poder construir uma vida e um futuro melhor para ela.”

Fotografia por Zahra Mojahed, Witness Change

Entre estes contadores de histórias estão as irmãs Rezaei, que usaram hijabes cor de vinho e camisas bege durante a nossa entrevista feita numa noite quente de julho. Passando um iPhone para a frente e para trás, as jovens, que cresceram no Irão, traduziram as palavras de farsi para inglês enquanto falavam sobre o seu trabalho recente.

Maliheh mostrou um filme de dois minutos e meio que as gémeas fizeram sobre um homem afegão fictício que perdeu todo o seu dinheiro no jogo e ofereceu a filha para pagar as dívidas. Este filme, produzido em 2019, foi o primeiro filme independente realizado pelas irmãs Rezaei.

“Eu gosto bastante de fazer filmes destes porque se trata de uma questão que assola o Afeganistão”, diz Nahid. “Eu queria dizer para não fazerem isto. Para pararem de falhar com as filhas. Pararem de falhar com as famílias.”

Maliheh (à direita) e Nahid Rezaei usam os seus telemóveis para encontrar as palavras corretas em inglês durante uma entrevista. Estas gémeas afegãs juntaram-se ao programa ReFOCUS Media Labs pouco depois de chegarem ao campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos, em 2018. Desde então, as irmãs já realizaram as suas próprias curtas-metragens e participaram num filme baseado em parte na sua jornada até à Grécia.

Fotografia por Lawrence Andrea

Para além da curta-metragem, as gémeas já terminaram um documentário de 10 minutos sobre mulheres refugiadas vindas do Afeganistão, Irão e África do Sul e que continuam a perseguir os seus sonhos na Grécia. O documentário, chamado Speak Up Loud, apresenta uma professora de ioga, uma instrutora de Zumba, uma kickboxer e uma professora que traduz livros para inglês para os seus alunos. Este trabalho foi exibido no festival de cinema de Atenas em dezembro de 2021.

Nahid diz que o objetivo do filme é encorajar outras mulheres de culturas dominadas por homens a libertarem-se dos seus papéis tradicionais. “Estas mulheres nunca pararam de seguir os seus sonhos, os seus trabalhos e as suas vidas”, diz Nahid, referindo-se às mulheres apresentadas no documentário. “Queremos mostrar que as mulheres conseguem fazer tudo.”

‘Eles não sabem que existimos’

Em 2019, os alunos do programa ReFOCUS ajudaram a produzir um documentário chamado Even After Death, que examina as histórias dos migrantes que não sobreviveram à perigosa jornada a caminho da Europa. Este filme estava agendado para estrear num festival de cinema nos Países Baixos, mas depois surgiu a pandemia de coronavírus.

Omid Qarizade, de 24 anos, deixou o Afeganistão para escapar ao conflito e procurar um futuro melhor. Omid conseguiu entrar na Grécia à primeira tentativa, mas, tal como acontecia no Afeganistão, não conseguiu estudar nem encontrar trabalho. Apesar das suas dificuldades, Omid voluntariou-se para ajudar outros refugiados. “É a vida, e podemos vivê-la da maneira que quisermos, mas temos de trabalhar arduamente para o conseguir”. Omid diz que só vai ficar descansado quando a sua família, que não vê há sete anos, estiver segura – “vou ficar feliz quando já não estiver preocupado com eles no Afeganistão e puder fazer algo para os ajudar”.

Fotografia por Zahra Mojahed, Witness Change

Uma das produtoras deste documentário é Zahra Mojahed, que fugiu do Afeganistão com a sua família quando tinha cinco anos devido à perseguição dos talibã à minoria étnica Hazara. A sua família também foi alvo de discriminação no Irão e, posteriormente, procuraram asilo na Grécia.

Esta jovem de 29 anos chegou com o marido, Jawad Jafari, a Lesbos em abril de 2019. O casal foi rapidamente atraído para a fotografia através do programa ReFOCUS.

Agora, Zahra Mojahed, cujas fotografias ilustram este artigo, está a participar na 1000 Dreams, uma exposição através da qual os refugiados contam histórias de outros migrantes. Zahra rastreou, fotografou e entrevistou 70 migrantes para o projeto, que é apoiado pela Witness Change, uma organização sem fins lucrativos fundada por Robin Hammond, explorador e fotógrafo da National Geographic.

Esta mulher afegã de 33 anos quer ser instrutora de Zumba e ter o seu próprio ginásio. Separada da família quando tentava escapar da perseguição no Irão, ela foi detida várias vezes a caminho da Grécia e acabou por dormir na rua. “Quando eu estava no Irão, pensava sempre que era uma mulher corajosa, mas agora tenho sempre uma sensação de medo. Acordo todas as manhãs com esperança, mas isso desaparece.” Apesar de tudo isto, ela está orgulhosa de si própria por ter sobrevivido à jornada.

Fotografia por Zahra Mojahed, Witness Change

“Os refugiados enfrentam muitos problemas na Grécia e [em] todos os outros países”, diz Zahra Mojahed. As pessoas nos países que nos acolhem “não conhecem os nossos problemas, a nossa jornada, os problemas que temos no nosso país”.

“Temos muitas pessoas talentosas”, acrescenta Zahra, “mas eles não sabem que existimos.”

‘Tenho muitos sonhos’

De acordo com o Ministério de Migração e Asilo da Grécia, entre janeiro de 2016 e maio de 2021, o país conferiu proteção internacional a 89.000 refugiados.

Embora a chegada de migrantes à Grécia tenha diminuído nos últimos meses, os dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados mostram que entre janeiro e novembro de 2021 chegaram à Grécia mais de 8.100 migrantes – o país com maior registo de migrantes.

A tomada do Afeganistão por parte dos talibã em agosto do ano passado resultou em mais refugiados – cujas histórias foram registadas pelos alunos do programa ReFOCUS. Os migrantes que conseguiram escapar estão preocupados com os seus familiares que ainda permanecem no Afeganistão, mesmo que continuem a ter vidas difíceis na Grécia.

“Tenho muitos sonhos”, diz Zahra Mojahed, que enfrenta dificuldades financeiras com o marido enquanto aguarda pela decisão de asilo. “O meu sonho é ser fotógrafa e cineasta enquanto mulher afegã. Quero mostrar às pessoas e às raparigas e mulheres no Afeganistão que as mulheres podem fazer tudo.”

Para as gémeas Rezaei, os sonhos de se tornarem atrizes vem depois do desejo de se reunirem com os pais, que elas não veem desde que os pais abandonaram o Irão para procurar asilo na Alemanha há sete anos.

Tanto Maliheh como Nahid Rezaei, juntamente com a sua irmã mais velha, vivem numa casa no centro de Atenas que é alugada por Mijke de Jong, uma premiada realizadora de cinema neerlandesa cujos filmes geralmente se concentram em histórias sobre mulheres. Quando Mijke conheceu as irmãs através do programa ReFOCUS, diz que se “apaixonou imediatamente por elas”.

“Quando as conheci, elas eram um bocado tímidas”, diz Mijke de Jong, referindo-se às gémeas, que participam no seu próximo filme sobre as suas vidas. “Agora, elas são realmente poderosas e querem mesmo fazer filmes. Não é sobre mim. É sobre elas, e elas podem contar as suas próprias histórias. E isso é muito mais importante.”

Lawrence Andrea cobriu a situação dos refugiados na Grécia com o apoio do Centro Pulitzer e cobre atualmente temáticas ligadas ao crime e segurança pública para o Indianapolis Star. Siga-o no Twitter.

Zahra Mojahed conta histórias sobre refugiados, sobretudo mulheres, através da sua fotografia e filmes. Pode seguir estes e outros contadores de histórias sobre refugiados no Instagram em @1000dreams e @refocusmedialabs.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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