Morabitino: a primeira moeda de ouro cunhada em Portugal

A primeira moeda de ouro portuguesa, de nome morabitino, surgiu com D. Sancho I.

Publicado 16/02/2022, 15:53
Morabitino de D. Sancho I

Apesar de todas as caraterísticas de uma peça produzida para uma monarquia cristã, o seu nome é de origem árabe.  

Fotografia por INCM/MCM 12641

O morabitino, a primeira moeda de ouro cunhada no Reino de Portugal, leva-nos a recuar até ao século XII. Com inspiração islâmica, tem como origem a palavra árabe al-murâbiTî, nome da dinastia que governou o norte de África e a Península Ibérica, entre os séculos XI e XII.

Com o nome que significava “dos Almorávidas”, a sua cunhagem teve início com D. Sancho I (1185-1211) e terminou no reinado de S. Sancho II (1223-1248). D. Sancho I investiu na consolidação da fronteira com a Galiza, a norte, e em continuar a guerra com o islão, a sul, conseguindo conquistar a cidade de Silves. Quando selada a aliança com Aragão e Roma, D. Sancho I dedicou-se à organização do povoamento e do território, da qual resultou a fundação de cidades como Guarda.

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A caracterização do morabitino

As primeiras emissões dos morabitinos alfonsis variavam entre 3,82 e 3,6 gramas. Numa face, o rei surge representado de coroa na cabeça, de barba longa e segurando um cetro com uma cruz numa mão e, na outra, uma espada, montado num cavalo aparelhado e pronto para a guerra.

Na outra face do morabitino, o escudo do reino constitui-se por um conjunto de cinco escudetes postos em cruz, cada um dos quais carregado com quatro besantes em aspa, cantonados por quatro estrelas de sete pontas, formando uma das mais antigas representações do brasão de armas do reino.

Esquerda: Superior:

A face principal do morabitino de D. Sancho I.

Direita: Fundo:

O morabitino de D. Sancho I.

fotografias de INCM/MCM 12641

Os letreiros dividem-se pelas duas faces e correspondem à fórmula através da qual se invoca a Santíssima Trindade, onde também é mencionado o nome do rei. Assim, podia ler-se: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ámen. Sancho, rei de Portugal”.

O morabitino circulou a par de outras moedas de baixo valor. Valia 180 dinheiros e era utilizada em transações que exigiam grandes montantes pecuniários ou até mesmo como um instrumento de soberania e propaganda ao serviço do rei.

De D. Sancho I ao morabitino de D. Sancho II

Já no século XIII, D. Sancho II deu continuidade à emissão em ouro, que tinha sido desenvolvida pelo seu pai, D. Afonso II, ordenando então a cunhagem de um novo morabitino. À semelhança do que acontecera anteriormente, esta moeda foi batida num outro momento importante para a história de Portugal.

Por um lado, o morabitino de D. Sancho II estava marcado pela guerra com o islão, na qual se destacou a Ordem de Santiago e, por outro, pelos conflitos com o clero, em particular com o arcebispo de Braga e os bispos de Lisboa e Porto. Por fim, a guerra civil que opôs o rei ao irmão mais novo, D. Afonso, e que terminaria com a sua própria deposição, também foi um marco.

Neste morabitino, D. Sancho II surge representado com coroa e barba, tal como era característico aos reis medievais, montado num cavalo aparelhado e segurando uma espada longa numa das mãos. Na outra face da moeda, observava-se a imagem de D. Sancho II, personificando um ideal de realeza guerreira, associada ao seu brasão, símbolo que herdou dos seus antepassados.

Em comparação ao anterior morabitino, neste os letreiros perderam a referência à Santíssima Trindade e introduziu-se a fórmula de caráter autorreferencial: “Moeda do senhor Sancho, rei dos portugueses” ou “Moneta Domini SancII / Regis Portvgalensvm”.

(Relacionado: O que nos dizem os rostos das notas sobre um país?)

O Rei dos Portugueses excomungado, fragilizado e contestado

É ainda interessante analisar que os letreiros no novo morabitino apresentem D. Sancho II como “Rei dos portugueses” e não como “Rei de Portugal”, sendo o reflexo de um momento da história do país em que ainda estava em curso o processo que levaria à construção de uma ideia nacional de monarquia e à definição das fronteiras do reino.

A subida de D. Sancho II ao trono foi marcada por um clima de contestação interna, em que o rei se viu envolvido em graves contendas com os bispos de Braga, Porto e Lisboa, a propósito dos direitos régios contra os interesses eclesiásticos.

D. Sancho II foi excomungado na sequência da promulgação de uma bula cuja ação dos seus opositores, começando pelo seu irmão Afonso, conde de Bolonha, levou ao agravamento do clima de instabilidade que conduziu ao isolamento político do rei. Embora tenha resistido alguns anos à guerra civil, D. Sancho II acabou por se refugiar em Castela, onde viria a morrer na condição de rei inútil.

Atualmente, é possível ver um morabitino datado do reinado de D. Sancho II, único no mundo, no Museu do Dinheiro, onde se encontra exposta. Esta é uma das mais emblemáticas moedas da coleção da Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
 

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