Povoamento viking nos Açores? Eis o que os investigadores dizem

Equipa de investigadores em ecologia e paleoecologia questionam o povoamento viking nos Açores. Evidências sugerem alterações profundas de origem humana.

Floresta pluvial montana dos Açores.

Fotografia por Rui Bento Elias
Por Catarina Fernandes
Publicado 28/02/2022, 16:23

Evidências de alterações antropogénicas de larga escala no arquipélago fazem reavaliar o hipotético povoamento viking nos Açores, antes da chegada dos portugueses. Esta análise resultou na publicação de um artigo na revista científica PNAS, por investigadores em ecologia e paleoecologia, das Universidades dos Açores, Austrália, Lisboa, Munique e Madeira.

Uma alteração profunda de origem humana despertou o interesse da equipa de investigação, que propõe uma interpretação diferentes para os dados até então partilhados e conhecidos. Os autores apresentam explicações alternativas a um hipotético povoamento anterior à chegada dos portugueses ao arquipélago.

A análise foi apoiada em estudos semelhantes, realizados anteriormente nas ilhas das Flores e do Pico, onde não mostram qualquer evidência de povoamentos anteriores, bem como as numerosas descrições históricas de florestas intocadas em várias ilhas do arquipélago, aquando da chegada dos portugueses, assim como a ausência de evidências arqueológicas de ocupação humana generalizada anterior ao povoamento levado a cabo pelo Reino de Portugal.

A equipa de investigação, liderada por Rui Bento Elias, da Universidade dos Açores, afirma que não existem evidências suficientes para concluir que o proposto povoamento viking nos Açores tenha causado uma ampla perturbação da ecologia e da paisagem do arquipélago, antes da chegada dos portugueses.

(Leia também: Santa Maria – a Ilha dos Açores que já foi ilha duas vezes.)

Argumentos apresentados com abrangência de amostragem

Os dados que sugerem que a ocupação extensiva dos Açores pelos vikings se relaciona com o facto de os indicadores de presença humana serem vários e ocorrerem em simultâneo em várias ilhas, têm várias limitações.

Entre elas, o facto dos dados terem sido recolhidos em cinco ilhas, com uma amostragem limitada para cada ilha, no caso, apenas uma lagoa por ilha; apenas a amostragem da Lagoa do Caldeirão, no Corvo, cobre todo o intervalo de tempo da ocupação humana proposta (700 a 2000 EC); na Lagoa do Peixinho, no Pico, não existe informação sobre o “período português”, uma vez que a amostragem termina no século XIV; já na Lagoa do Ginjal, na Terceira, a amostragem compreende apenas o “período português”, do século XV ao século XX; por último, em São Miguel, na Lagoa Azul, o estudo começa apenas no final do século XIII.

Desta forma, os investigadores consideram a amostragem limitada e insuficiente no que respeita à cobertura temporal e espacial, podendo conduzir a conclusões, sobre o povoamento viking nos Açores, não suportadas por dados suficientemente detalhados, abrangentes e completos.

Carvão, queima e desflorestação em torno das lagoas

A presença de carvão nos sedimentos seria um sinal da queima de madeira e consequente desflorestação em torno das lagoas, pelo que se o carvão estivesse na origem na queima das florestas pelo hipotético povoamento viking nos Açores, a presença do carvão seria acompanhada pela diminuição da abundância de pólen das espécies arbóreas.

No entanto, na Lagoa do Caldeirão, detetou-se carvão desde o século IX, com maior frequência entre 1000 e 1300 EC e, apesar disso, a percentagem de pólen de espécies arbóreas só apresenta uma diminuição de forma substancial e definitiva no “período português”, já por volta de 1600 EC, atingindo um valor mínimo só no século XVIII.

Da mesma forma, na Lagoa Funda das Flores, apesar da existência do carvão ser detetada desde o século XI, a diminuição definitiva do coberto florestal só se veio a verificar a partir do século XV.

Os investigadores indicam que o facto da presença de carvão não ser, de uma forma consistente, acompanhada por uma diminuição clara do coberto arbóreo impede a utilização deste indicador de forma fiável. Os investigadores atentam para o facto de o carvão ter tido também origem em incêndios de causas naturais ou em florestas carbonizadas por eventos vulcânicos, anteriores ao período refletido na amostragem, originado depósitos de carvão. Estes depósitos naturais são gradualmente erodidos ou expostos em deslizamentos de terras, podendo algum deste carvão ser arrastado, pela água da chuva, para as lagoas.

(Relacionado: Açores: descubra o paraíso insular da Europa)

A presença de pólen não é prova suficiente

O pólen tem a característica de poder ser transportado por milhares de quilómetros pelo vento, significando isto que pode também não ter origem local. Do pólen de centeio, por exemplo, existem dados da sua presença, mas não da sua abundância, pelo que a origem natural, resultado do transporte pelo vento ou por aves, é tão plausível como a sua origem antropogénica.

A existência de pólen de plantas do género Plantago (Plantago coronopus), uma espécie nativa do arquipélago, não indica, por si só, a presença humana, uma vez que uma das espécies deste género (Plantago coronopus) é uma espécie nativa muito comum em todas as ilhas, ocorrendo desde a costa até aos 1000 metros de altitude.

Os marcadores fecais também não ocorrem na maioria das ilhas amostradas

Os marcadores fecais da presença de gado e de populações humanas são o 5b-stigmastanol e coprostanol. No caso do 5b-stigmastanol, pode resultar da existência de grandes colónias de aves nas margens das lagoas. É tal facto que pode explicar a presença deste marcador cerca do ano 650 EC, na Lagoa do Peixinho, antes mesmo do início da ocupação humana.

Já no que respeita ao coprostanol, marcador de fezes humanas, este não aparece na Lagoa do Caldeirão nem na Lagoa do Ginjal. Na Lagoa Funda só aparece no “período português”. Determinadas a presença dos marcadores, os investigadores concluem que o indicador de presença humana não ocorre, em simultâneo, na maioria das ilhas amostradas.

A presença de fungos coprófilos, que vivem em excrementos, é evidente, com exceção da Lagoa do Peixinho, principalmente a partir do final do séc. XIV. No entanto, é necessário salientar a discrepância que existe entre a datação das recolhas realizadas. Se a datação estiver incorreta, mesmo que por um ou dois séculos, as mudanças ecológicas sugeridas como impacte do povoamento viking nos Açores podem apenas ser mudanças que ocorreram após a chegada dos portugueses.

As evidências ainda não são suficientes

A investigação, que contou ainda com a participação de elementos do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos – Açores (CIBIO), detetou presença humana no arquipélago 700 anos antes da chegada dos portugueses.

Assim, a investigação que resultou no artigo publicado na PNAS, “Is there solid evidence of widespread landscape disturbance in the Azores before the arrival of the Portuguese? Proceedings of National Academy of Sciences”, conclui que as primeiras evidências de presença humana nas ilhas foram detetadas 700 anos antes da chegada dos portugueses, durante o século XV, mais concretamente na ilha de Santa Maria, em 1427, e nas ilhas do Corvo e das Flores, em 1452.

Os investigadores propõem que os resultados são um contributo importante para entender as mudanças ambientais nos Açores, no entanto, as evidências apresentadas ainda não são suficientes para provar que o povoamento viking nos Açores causou uma modificação nos ecossistemas do arquipélago, antes do povoamento português.

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