Rússia e Ucrânia: uma história conturbada de união – e separação

Séculos de derramamento de sangue, domínio estrangeiro e divisões internas deixaram a Ucrânia numa posição precária entre o Oriente e o Ocidente.

Publicado 22/02/2022, 10:50
A violência aumenta à medida que os protestos em Kiev continuam

Uma violência de morte tomou de assalto Maidan, ou Praça da Independência, em Kiev, em 2014, depois de o governo ucraniano, sob pressão de Moscovo, ter abandonado um acordo que visava fortalecer os laços com a União Europeia. A Rússia continua a opor-se ao movimento da Ucrânia em direção ao Ocidente e parece pronta para invadir o país vizinho.

Fotografia por Jeff J. Mitchell, Getty Images

À medida que a ameaça de uma invasão russa à Ucrânia continua a dominar as notícias, uma retrospetiva sobre a longa e conturbada história destas nações revela como foi montado o cenário para o conflito da atualidade.

O legado partilhado entre estes dois países remonta a mais de mil anos, quando Kiev, agora capital da Ucrânia, estava no centro do primeiro estado eslavo, o Reino de Kiev, berço da Ucrânia e da Rússia. Em 988 d.C., Vladimir I, o príncipe pagão de Novgorod e grão-príncipe de Kiev, aceitou a fé cristã ortodoxa e foi batizado na cidade de Quersoneso, na Crimeia. Daquele momento em diante, como declarou recentemente o líder russo Vladimir Putin: “Russos e ucranianos são um povo, unos num todo.”

Uma pintura do século XIX retrata Vladimir I, governante do Reino de Kiev – o berço da Ucrânia e da Rússia – a optar pelo cristianismo ortodoxo como a nova religião do estado em 988 d.C.

Fotografia por MUSEU DE HISTÓRIA DA RELIGIÃO VIA BRIDGEMAN IMAGES

Contudo, nos últimos mil anos, a Ucrânia foi repetidamente fustigada por potências estrangeiras. Guerreiros mongóis vindos de leste conquistaram o Reino de Kiev no século XIII. No século XVI, os exércitos polacos e lituanos invadiram a Ucrânia vindos do ocidente. No século XVII, a guerra entre a Comunidade Polaco-Lituana e o czarismo russo deixou as terras a leste do rio Dnieper sob o jugo imperial russo. A região leste ficou conhecida como a “Margem Esquerda” da Ucrânia; e as terras a oeste do rio Dnieper, ou “Margem Direita”, eram governadas pela Polónia.

Mais de um século depois, em 1793, a margem direita (ocidental) da Ucrânia foi anexada pelo Império Russo. Ao longo dos anos que se seguiram, uma política conhecida por russificação proibiu o uso e o estudo da língua ucraniana, e as pessoas foram pressionadas para se converterem à fé ortodoxa russa.

A Ucrânia sofreu alguns dos seus maiores traumas durante o século XX. Após a revolução comunista de 1917, a Ucrânia foi um dos muitos países a travar uma guerra civil brutal antes de ser completamente absorvida pela União Soviética em 1922.

No início da década de 1930, para forçar os camponeses a juntarem-se às quintas coletivas, o líder soviético Josef Estaline orquestrou um plano que matou à fome milhões de ucranianos. Depois, Estaline “importou” um enorme número de russos e outros cidadãos soviéticos – muitos sem capacidade para falar ucraniano e com poucos laços com a região – para ajudar a repovoar o leste.

A campanha brutal do líder soviético Josef Estaline para coletivizar a agricultura levou à fome generalizada na década de 1930, matando milhões de ucranianos. No rescaldo da fome – que veio a ficar conhecida por Holodomor, que significa “morrer à fome” – foram levados colonos da Rússia para a Ucrânia para repovoar os campos.

Fotografia por Ap

Um orador dirige-se a uma multidão em Chernivtsi, uma cidade no oeste da Ucrânia, em novembro de 1939, durante os “dias da reunificação”. Poucas semanas antes, tropas alemãs e soviéticas tinham invadido a Polónia e feito da Ucrânia ocidental – outrora sob controlo polaco – parte da Ucrânia soviética.

Fotografia por Anatoliy Garanin, Sputnik/AP

Este legado histórico criou divisões duradouras. Como o leste da Ucrânia ficou sob o domínio russo muito antes do oeste da Ucrânia, as pessoas no leste têm laços mais estreitos com a Rússia e têm tido mais propensão para apoiar os líderes russos. A Ucrânia Ocidental, por outro lado, passou séculos sob o controlo inconstante de potências europeias como a Polónia e o Império Austro-Húngaro – uma das razões pelas quais os ucranianos na região oeste tendem a apoiar mais os políticos de tendências ocidentais. A população de leste tende a falar mais russo e a ser mais ortodoxa, enquanto que no oeste as pessoas falam mais ucraniano e são católicas.

Em 1991, com o colapso da União Soviética, a Ucrânia tornou-se uma nação independente. Mas unir o país não foi uma tarefa fácil. Por um lado, “o sentimento de nacionalismo ucraniano não é tão profundo a leste como é a oeste”, diz Steven Pifer, ex-embaixador na Ucrânia. A transição para a democracia e o capitalismo foi dolorosa e caótica, e muitos ucranianos, sobretudo no leste, ansiavam pela relativa estabilidade das épocas anteriores.

Pessoas a caminhar por Odessa, uma cidade portuária no Mar Negro, no sul da Ucrânia, com uma placa a anunciar temáticas soviéticas de poder e justiça em 1991 – o ano em que a Ucrânia se tornou uma nação independente e a URSS foi dissolvida.

Fotografia por Bertrand Desprez, Agence VU/Redux

“Para além de todos estes fatores, a maior divisão é entre aqueles que encaram o governo imperial russo e soviético com mais simpatia do que aqueles que o encaram como uma tragédia”, diz Adrian Karatnycky, especialista em temas ucranianos e antigo membro do Conselho Atlântico dos Estados Unidos. Estas fissuras ficaram expostas em 2004, durante a Revolução Laranja, na qual milhares de ucranianos marcharam para apoiar uma maior integração na Europa.

Nos mapas ecológicos, conseguimos até ver a divisão entre as partes sul e leste da Ucrânia – conhecidas por estepes – com os seus solos agrícolas férteis e as regiões norte e oeste, que são mais florestadas, diz Serhii Plokhii, professor de história em Harvard e diretor do Instituto de Pesquisa Ucraniano da mesma instituição. Serhii Plokhii diz que um mapa que mostre as demarcações entre as estepes e a floresta, uma linha diagonal entre leste e oeste, tem uma “semelhança impressionante” com o mapa político das eleições presidenciais ucranianas de 2004 e 2010.

A Crimeia foi ocupada e anexada pela Rússia em 2014, seguida pouco depois por uma revolta separatista na região de Donbas, no leste da Ucrânia, que resultou na declaração das Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk, apoiadas pela Rússia. Atualmente, as tropas russas estão novamente concentradas nas fronteiras da Ucrânia, nas zonas de divisão que refletem a história conturbada da região.

Cortinas azuis e amarelas – as cores da bandeira ucraniana – servem de pano de fundo para uma jovem bailarina em Kiev. A maioria dos ucranianos nascidos depois de 1991 – a “Geração Nascida Livre” – está ansiosa para que a sua nação escape da sombra russa e se una à Europa e ao Ocidente.

Fotografia por Agnieszka Rayss, Redux

Partes deste artigo foram originalmente publicadas durante a crise da Crimeia em 2014. As informações foram atualizadas para refletir os eventos atuais.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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