Sepulturas milenares descobertas em Ponte de Lima

Equipa da Universidade do Minho revela sepulturas com mais de 3 mil anos. A descoberta ocorreu na freguesia de Refóios do Lima, em Ponte de Lima no final de 2021.

Por Catarina Fernandes
Publicado 15/02/2022, 10:17
Necrópole da Chã da Mourisca

Luciano Vilas Boas é o arqueólogo responsável pela investigação, na necrópole da Chã da Mourisca, descoberta acidentalmente em 2010.

Fotografia por Luciano Vilas Boas

Luciano Vilas Boas é o arqueólogo responsável pela investigação, na necrópole da Chã da Mourisca, descoberta, acidentalmente, em 2010 mas investigada no âmbito de dois projetos: o de doutoramento do responsável pelos trabalhos, denominado “Paisagens mortuárias durante a Pré-História Recente nas bacias hidrográficas dos rios Lima e Neiva, noroeste de Portugal- 2020.07121BD”, apoiado pela FCT, e o coletivo designado “PIPA (Projeto de Investigação Plurianual de Arqueologia) – “Paisagens mortuárias durante a Pré-História Recente nas bacias hidrográficas dos rios Lima e Neiva, noroeste de Portugal ”, onde participam, também, os docentes Ana M. S. Bettencourt, do Departamento de História da Universidade do Minho, Lucínia Oliveira, investigadora independente, e Renato Henriques e Luís Gonçalves do Departamento de Ciências da Terra da Universidade do Minho, bem como alunos da licenciatura e do Mestrado em Arqueologia desta universidade.

Esta necrópole localiza-se no lugar da Vacariça, freguesia de Refóios do Lima, concelho de Ponte de Lima, distrito de Viana do Castelo. As suas coordenadas geográficas em graus decimais, segundo o sistema WGS84 são: Latitude 41⁰49`30.18``N e Longitude 8⁰32`16.34``W, à altitude de 697 metros.

Segundo Luciano Vilas Boas “este sítio localiza-se na base da vertente norte do Monte do Penedo Branco, em plena serra do Corno do Bico, num colo de orientação este-oeste, onde ocorre um lameiro. A partir deste, nasce um pequeno ribeiro sazonal que drena para o ribeiro das Estacas, afluente do rio Cabrão, que integra a bacia do rio Lima. Trata-se de um local protegido dos ventos de norte, de oeste e de sul”.

Localização das sepulturas encontradas, na região do Minho.

Fotografia por Luciano Vilas Boas

Este arqueólogo acrescenta ainda que “a visibilidade a partir do sítio onde foram realizadas as sondagens é pouco abrangente e circunscreve-se às vertentes que rodeiam o local. A exceção é feita para oeste-sudeste com visibilidade para as serras D`Arga, Amarela, Gerês e Mezio”.

Os dados obtidos durante as campanhas de 2018, 2019 e 2021, permitiram “colocar a descoberto um conjunto de três sepulturas planas, de formato retangular, abertas no substrato rochoso em desintegração, várias fossas de contorno circular, abertas no mesmo substrato rochoso, buracos de poste, lareiras, valados e uma estrutura formada por blocos graníticos de difícil caracterização, até ao momento, revelando a riqueza arqueológica deste sítio arqueológico.”

Esquerda: Superior:

Uma das sepulturas fotografada durante os trabalhos de escavação em 2019.

Direita: Inferior:

Um dos recipientes cerâmicos encontrados nas sepulturas.

fotografias de Luciano Vilas Boas

Sepulturas milenares da Idade do Bronze

“Uma das três sepulturas era de reduzidas dimensões, talvez de uma criança, sendo as duas de maiores dimensões, provavelmente de adultos. Estas últimas estavam sinalizadas com blocos graníticos colocados na vertical o que é raríssimo nestes contextos. Nestas foram, ainda, depositados, no momento do funeral, vasos cerâmicos, no interior dos quais arderam substâncias, ainda não identificadas, mas que serão objeto de análises de química orgânica. A matéria orgânica do interior de um destes vasos possibilitou obter uma data de radiocarbono que nos indica que as comunidades que aqui tumularam eram da Idade do Bronze Médio, mais precisamente de entre os séculos XV e XIV a.C.”

“Algumas das estruturas encontradas nas imediações das sepulturas parecem ser da mesma época indiciando a existência de um provável acampamento de pastores, durante a Idade do Bronze.”

por Luciano Vilas Boas

Descoberta de estruturas e de objetos variados do período Neolítico

“Outras estruturas são muito mais antigas, como é o caso de uma lareira, à volta da qual, se encontraram objetos de sílex e de quartzo que datam de há mais de 5000 anos, ou seja, do Neolítico, demonstrando que o local foi frequentado por diferentes grupos culturais, muito distanciados no tempo.

Luciano Vilas Boas diz que deste período “existe um monumento megalítico funerário já bastante destruído, fruto de antigas violações que ali ocorreram”. No entanto, as escavações arqueológicas que ali estão a decorrer puseram à mostra “um lajeado, em frente da câmara funerária, pelo lado nascente, possivelmente, de acesso ao interior da mesma. Neste monumento, cuja câmara ainda não foi posta totalmente a descoberto, foram exumados fragmentos de recipientes em cerâmica, de moinhos, em granito, entre outros artefactos em sílex e quartzo do período da sua construção ou primeira utilização. Durante a Idade do Bronze, os frequentadores deste local foram ali depositar um recipiente cerâmico, o que demonstrar a reutilização funerária ou simbólica, deste túmulo, ainda visível, durante este período”.

Luciano Vilas Boas defende que a “Chã da Mourisca foi um local frequentado na longa diacronia, o que demonstra a sua importância para as diferentes comunidades que vivenciaram este espaço”.

Os trabalhos arqueológicos têm decorrido com o apoio do município de Ponte de Lima, mediante a assinatura de um protocolo com a Universidade do Minho, estando este município a assegurar o alojamento e a alimentação dos alunos e investigadores desta Universidade. Os trabalhos contam, ainda, com o apoio da Junta de Freguesia de Refóios do Lima, através da cedência de material pesado de escavação. O Laboratório de Paisagem, Património e Território – Lab2PT, da Universidade do Minho, contribui com verbas para diversas análises de radiocarbono ou de química orgânica. O Departamento de História fornece o material necessário para as escavações e trabalhos de topografia  dos alunos.

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