A história do cocktail molotov, uma arma icónica dos oprimidos

Neste momento, os ucranianos tentam apressadamente construir bombas, tal como fizeram os muitos rebeldes e manifestantes que os antecederam pelo mundo inteiro.

Por James Stout
Publicado 14/03/2022, 11:14
membro dos Sandinistas atira um cocktail molotov

Um membro dos Sandinistas atira um cocktail molotov contra o quartel-general da Guarda Nacional em Esteli, na Nicarágua, em 1979. Esta fotografia ficou conhecida por Homem Molotov.

Fotografia por Susan Meiselas, Magnum Photos

Na cidade ucraniana de Lviv, estudantes e artistas fazem cocktails molotov num espaço industrial onde se costumavam organizar festas rave. Num dos subúrbios de Kiev, uma economista reformada mostra a um repórter da CNN a sua reserva de dispositivos incendiários, explicando que os construiu depois de pesquisar instruções no Google. Em Dnipro, as mulheres reúnem-se ao ar livre para montar bombas artesanais.

“Parece que é a única coisa importante a fazer neste momento”, diz um professor ucraniano local.

No maior país da Europa, os cidadãos estão a preparar enormes quantidades de cocktails molotov para combater as forças russas. Durante quase um século, esta invenção – também conhecida por bomba de petróleo ou gasolina – tem sido a arma mais acessível para os oprimidos que lutam contra um inimigo tecnologicamente superior. Os cocktails molotov são muito mais eficazes do que pedras, mas também não se encontram por todo o lado. É preciso uma garrafa de vidro e alguns ingredientes inflamáveis.

Manifestantes preparam-se para atirar um cocktail molotov contra a polícia durante os confrontos registados em 2012, perto da Praça Tahrir, no Cairo.

Fotografia por Moises Saman, Magnum Photos
Esquerda: Superior:

Em 1981, em Belfast, na Irlanda do Norte, homens mascarados fugiam dos soldados enquanto um manifestante ficava para trás para atirar um último cocktail molotov.

Fotografia por Ian Berry, Magnum Photos
Direita: Inferior:

Um manifestante prepara cocktails molotov durante a agitação civil vivida em Paris em maio de 1968.

Fotografia por Bruno Barbey, Magnum Photos

Os tanques russos já são um alvo dos cocktails molotov há muito tempo. Na Guerra Civil Espanhola, os rebeldes nacionalistas de direita usaram bombas de gasolina pela primeira vez em 1937 contra os tanques soviéticos fornecidos ao governo republicano. Num encontro que deixou um general britânico atónito com o que testemunhou, as bombas caseiras conseguiram destruir nove tanques. Pouco depois, o Exército Republicano e as brigadas internacionais que lutavam ao seu lado também começaram a usar as chamadas bombas de gasolina.

Mas foram os finlandeses que inventaram o nome. Quando as forças soviéticas atacaram a Finlândia em 1939, Vyacheslav Mikhaylovich Molotov, Ministro das Relações Externas de Josef Estaline, afirmou que os aviões de guerra russos estavam a transportar comida para o país, não a lançar bombas. Os finlandeses responderam ao apelidar as bombas com a designação “cesta do pão molotov”, e ofereceram-se para fornecer as bebidas – ou os cocktails – para acompanhar. As fábricas de bebidas estatais já tinham parado de produzir vodca para preparar enormes quantidades de dispositivos incendiários improvisados, que as tropas finlandesas usaram com efeitos devastadores contra os blindados soviéticos. O nome “cocktail molotov” pegou e rapidamente se espalhou pelo mundo inteiro.

Esquerda: Superior:

Os ucranianos já tinham recorrido a cocktails molotov anteriormente.

Direita: Inferior:

Fotografia de um cocktail molotov.

fotografias de Donald Weber
Esquerda: Superior:

Estes dispositivos foram feitos durante os protestos “EuroMaidan” em 2014 em Kiev, que forçaram o presidente apoiado por Putin, Viktor Yanukovych, a fugir do país.

Direita: Inferior:

Outro cocktail molotov fotografado.

fotografias de Donald Weber

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha usou os cocktails molotov como uma forma importante de defesa contra a temida invasão nazi. Em 1940, Tom Wintringham, um veterano das brigadas internacionais da Guerra Civil Espanhola, publicou um guia sobre cocktails molotov na famosa revista britânica Picture Post. Depois de fornecer uma receita para os cocktails, Tom Wintringham ensinou os leitores como os deviam usar.

“Esperem pelo vosso tanque. Quando o tanque estiver perto o suficiente, um amigo acende a ponta do cobertor encharcada com gasolina. Atirem a garrafa assim que o canto do cobertor começar a arder. (Não é possível atirar muito longe.) Vejam se o dispositivo cai à frente do tanque. O cobertor deve ficar preso nos trilhos ou numa roda dentada, ou enrolar-se em torno de um dos eixos. A garrafa vai partir, mas a gasolina encharca o cobertor o suficiente para criar um incêndio que vai queimar as rodas de borracha sobre as quais as lagartas do tanque se movimentam, e incendiar o carburador ou afetar a tripulação.”

Não se deve brincar com estas coisas”, concluía Tom Wintringham. “São altamente perigosas.”

Manifestantes contra o governo usam cocktails molotov para conter a polícia durante os chamados protestos “Euromaidan” em Kiev, em 2014.

Fotografia por Jerome Sessini, Magnum Photos

O governo britânico treinou a Guarda Local de Defesa – homens demasiado velhos para combater no exército – na utilização do que se chamava “cocktails à la Molotov”. Através de um vídeo de formação, os voluntários aprendiam a construir uma barricada para travar um tanque nazi antes de o bombardearem com os “velhinhos” cocktails molotov.

O Reino Unido também fabricou quantidades massivas de “granadas modelo 76” – cocktails molotov com borracha dissolvida para tornar o combustível adesivo, e com um sistema de ignição de fósforo branco que não exigia ao utilizador incendiar um pano. Foram produzidas cerca de seis milhões de granadas destas, com caixas distribuídas por todo o país para permitir aos cidadãos britânicos resistir à ocupação, tal como os ucranianos estão a fazer atualmente. Em 2018, alguns dos esconderijos com granadas destas ainda estavam a ser descobertos por trabalhadores da construção civil que escavavam fundações.

Em 1981, em Belfast, um manifestante preparava um cocktail molotov durante uma marcha de apoio a Bobby Sands, um membro do Exército Republicano Irlandês que estava em greve de fome.

Fotografia por Peter Marlow, Magnum Photos

Após a Segunda Guerra Mundial, em 1956, quando o povo húngaro se ergueu contra o jugo soviético, o cocktail molotov foi a arma de eleição. Os húngaros destruíram cerca de 400 tanques antes de a sua rebelião ter sido esmagada.

Desde então, os cocktails molotov têm sido usados pelo mundo inteiro durante protestos e conflitos armados. Os checoslovacos lançaram-nos contra as tropas invasoras do Pacto de Varsóvia durante a Primavera de Praga. Estudantes usaram-nos contra a polícia francesa em Paris. Os palestinianos arremessaram-nos contra soldados israelitas. Os Sandinistas também os usaram na Nicarágua. Manifestantes atiraram-nos durante a revolução iraniana. Em Hong Kong, os manifestantes arremessaram-nos durante a repressão chinesa feita recentemente. Nos EUA, também têm sido usados durante os protestos raciais.

Quando as pessoas sentem que as probabilidades estão contra si, os cocktails molotov são as armas que continuam a procurar, são as armas que minam – com clarões brilhantes de chamas – a narrativa de opressores que aparentemente têm um arsenal esmagador.

E está a acontecer o mesmo na Ucrânia. O Kremlin afirmou que as tropas russas seriam muito bem recebidas na Ucrânia. Em vez disso, a primeira-dama ucraniana, Olena Zelenska, disse através de comunicado que os russos “têm sido afugentados com cocktails molotov”.

Em 1985, os cocktails molotov foram as armas de eleição durante os conflitos na Irlanda do Norte, mesmo num dia chuvoso em Belfast.

Fotografia por Stuart Franklin, Magnum Photos


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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